Complicado
nada
O último dia do mês não me motiva a
fazer o balanço do que eu fiz neste último mês, uma vez que, aceitável ou
decepcionante, feito está o que está feito.
Lembro isso, esqueço-me daquilo. Procuro
não complicar o que não tenho de complicar, pois a vida pode ser menos confusa
se eu for mais atento. Ainda que ande confuso, que eu ande levemente.
Eu sei, e admito que sei: ainda que siga
em frente, irei adiante ainda que não vá. Sim, realmente não sei o que até
ontem achava que sabia. Eu não tenho pleno conhecimento de ter feito o que
julgo ter feito, pois, embora tenha feito, não estou certo do que não fiz,
ainda que não tenha feito o que ainda agora julgo acertado o que eu deixei de
fazer.
Pessoa persistente que não desiste de
crer no que não crê, a cada dia deste último mês, banhei-me, alimentei-me, dormi
e acordei, tolices fizeram-me sorrir, indignei-me com vilanias, vivi felicidades,
aceitei as frustrações, e contive o desespero.
A cada noite: cochilei na poltrona;
critiquei chatices repetitivas que a televisão dá como saudável entretenimento;
comi ovo frito em vez de rúcula; com paciência estoica, me livrei de pernilongo
irritante; pratiquei a arte de aguardar dormindo que a alvorada dobre a esquina;
sinto que o Sol iluminando a Terra sensibiliza-me, pois a comunhão cósmica da aurora
está em mim; sou mesmo é humano, cotidianamente humano, daí que me percebo
outro a cada dia.
Se me fosse pedido que citasse um fato
relevante, teria de apontar que as pessoas não concordam em tudo. Marcaria: o
que merece ser destacado por uma pode não ter importância para outra.
No labirinto do mundo, a vida aborrece
quando o Minotauro nunca está na rua seguinte. Por mais que se ande, jamais se
anda, se anda por nada, pois a próxima rua é sempre a mesma, outra rua.
Neste último dia do mês, quero estar preparado
para o primeiro dia do mês que vem. Nas próximas vinte e quatro horas, não quero
pensar que, dobrando a esquina, me aguarda o passado.
O que eu vejo à frente?
Reparo que criança que gosta de brincar
ganha mais balas.
Noto que criança que brinca tem aquele
olhar de gente feliz porque a vida é bem divertida quando se ganha balas, balas
de caramelo.
Insisto, o que eu desejo mais adiante?
Simples, é boa a bala de caramelo que dissolve
na boca.
Quem chupa uma bala gostosa de ser
chupada é quem não perde tempo pensando na vida que poderia ter tido mas não
tem.
Ora, neste último dia do mês, não perde nada
quem pensa: pra que todo mês termine, é certo que haja o dia que seja o último.
Vamos lá, mude o foco. Pense o quão inspirador
é saber que: o mês terminado há onze meses começa de novo onze meses depois; todo
último dia do mês ocorre doze vezes ao ano; todo ano termina no último dia do
ano.
De novo complicado, né?
A criança que chupa bala com gosto sabe que
a próxima bala dará gosto de ser chupada porque toda bala é sempre outra.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2023.