Uruca
Rapaz, na ordem natural das coisas,
sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá sem pressa nenhuma. Vinha
vindo com alma leve, na certeza de que alguma coisa boa ia me acontecer no
caminho.
Foi quando, logo do ladinho de casa, um
cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha, que achei engraçado o
bicho ter comigo sem nem mesmo ser conhecido meu.
Tanto achei graça que fiz carinho nele
que nem liguei que ele tinha pulga. Nem pus interesse em averiguar se se coçava
por carrapato lhe chupando a carne.
Rapaz, sabe que eu senti um cheiro
danado de mijo assim que pisei fora de casa. Pode ser que o danadinho tinha
mijado; se não foi ele, foi algum pinguço. Olha que fedia, fedia muito.
Se ressalto, é que dou fé que o bicho
era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé
firme, atento com buraco, principalmente em merda mole no caminho.
Olhando o vira-lata tive na ideia que o pulguento
empesteado tinha era fome. O bicho era um esqueleto sobrevivente de sua miséria.
Tinha mais osso aparecendo que pele, até me deu dó ver tanta alegria.
Era alegre de dar pena, tão magro, algo
feio de ver.
Sua figura era visão triste. Punha na
gente o sentimento de ter dele a compaixão. Sozinho na rua, o bicho devia de
estar sofrendo, levando essa sua vida vadia, bicho sem eira nem beira.
Muito triste isso, viver a esmo no mesmo
de todo dia, em falta.
Rapaz, só imaginar o pobrezinho nas
ruas, sem ter o que pra comer, na chuva, no calorão, sem ter onde ficar de fora
do vento. Que ele tinha os ossos marcando sua figura, um bicho esquelético de
feio. Tive pena dele na fome. Zanzando o tempo todo, bebendo água parada,
correndo de enxurrada, lambendo lama, sem gordura como capa na chuva.
O vira-lata veio vindo brincalhão, foi
quando logo na esquina, foi no cruzamento que ele deu mostras das coisas
ordinárias da natureza, foi então que latiu, avançou, pulou pra morder a batata
do pintor.
Ainda bem que ele estava mais no alto, longe
dos dentes na canela. Que susto tomou o rapaz que pintava o letreiro da
lanchonete nova.
Era outra naquele lugar, que ali tinha
fechado outra lanchonete, que passou um bom tempo indo bem, com fila na porta e
senha pra não ter nenhuma briga mais séria, pro garrote de segurança.
A lanchonete que fechou tinha movimento
mesmo no inverno.
O meu pessoal do zap vivia vindo de
sexta e sábado, vinha mais na sexta, dia de promoção: tomando o canecão, ganhava
outro.
A turminha vive inventando aniversário, noivado,
separação, chama pro diabo a quatro, quase tudo é azo de festa e mais festa.
Rapaz, ainda bem que o bicho não
conseguiu alcançar a canela do pintor. Não vou mentir, eu ri. É que latidos e
palavrões deram razão ao incontido, que nem eu me controlei da gargalhada.
No apuro de se safar, largou do pincel, foi
num cisco que subiu, até pintou na praça uma bem-vinda porção: drumete a pur.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2023.
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