domingo, 8 de janeiro de 2023

Uruca

 

Uruca

 

Rapaz, na ordem natural das coisas, sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá sem pressa nenhuma. Vinha vindo com alma leve, na certeza de que alguma coisa boa ia me acontecer no caminho.

Foi quando, logo do ladinho de casa, um cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha, que achei engraçado o bicho ter comigo sem nem mesmo ser conhecido meu.

Tanto achei graça que fiz carinho nele que nem liguei que ele tinha pulga. Nem pus interesse em averiguar se se coçava por carrapato lhe chupando a carne.

Rapaz, sabe que eu senti um cheiro danado de mijo assim que pisei fora de casa. Pode ser que o danadinho tinha mijado; se não foi ele, foi algum pinguço. Olha que fedia, fedia muito.

Se ressalto, é que dou fé que o bicho era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé firme, atento com buraco, principalmente em merda mole no caminho.

Olhando o vira-lata tive na ideia que o pulguento empesteado tinha era fome. O bicho era um esqueleto sobrevivente de sua miséria. Tinha mais osso aparecendo que pele, até me deu dó ver tanta alegria.

Era alegre de dar pena, tão magro, algo feio de ver.

Sua figura era visão triste. Punha na gente o sentimento de ter dele a compaixão. Sozinho na rua, o bicho devia de estar sofrendo, levando essa sua vida vadia, bicho sem eira nem beira.

Muito triste isso, viver a esmo no mesmo de todo dia, em falta.

Rapaz, só imaginar o pobrezinho nas ruas, sem ter o que pra comer, na chuva, no calorão, sem ter onde ficar de fora do vento. Que ele tinha os ossos marcando sua figura, um bicho esquelético de feio. Tive pena dele na fome. Zanzando o tempo todo, bebendo água parada, correndo de enxurrada, lambendo lama, sem gordura como capa na chuva.

O vira-lata veio vindo brincalhão, foi quando logo na esquina, foi no cruzamento que ele deu mostras das coisas ordinárias da natureza, foi então que latiu, avançou, pulou pra morder a batata do pintor.

Ainda bem que ele estava mais no alto, longe dos dentes na canela. Que susto tomou o rapaz que pintava o letreiro da lanchonete nova.

Era outra naquele lugar, que ali tinha fechado outra lanchonete, que passou um bom tempo indo bem, com fila na porta e senha pra não ter nenhuma briga mais séria, pro garrote de segurança.

A lanchonete que fechou tinha movimento mesmo no inverno.

O meu pessoal do zap vivia vindo de sexta e sábado, vinha mais na sexta, dia de promoção: tomando o canecão, ganhava outro.

A turminha vive inventando aniversário, noivado, separação, chama pro diabo a quatro, quase tudo é azo de festa e mais festa.

Rapaz, ainda bem que o bicho não conseguiu alcançar a canela do pintor. Não vou mentir, eu ri. É que latidos e palavrões deram razão ao incontido, que nem eu me controlei da gargalhada.

No apuro de se safar, largou do pincel, foi num cisco que subiu, até pintou na praça uma bem-vinda porção: drumete a pur.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2023.

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