domingo, 1 de janeiro de 2023

Bem à vontade

 

Bem à vontade

 

Fim de ano; começo de ano; no meio disso, não é hora de balanço nem momento de ater-se a planos sequer é o instante de copo d’água.

Faço o obséquio de lamentar: que ressaca eu experimento.

Se fizesse as exéquias de sentimento que não sinto, perceberia que ando torto das ideias. Cambaio, sim, pois eu sou bastante honesto para não negar a vontade de desferir um chute no batente.

Conheço a dor de dar com a minha cara na porta. Houve vezes em que meu nariz sangrou pela batida. Por conhecer a dor que a realidade possa provocar, eu não me distraio tentando perceber o que ainda não fiz. Embora sofra somente pelo que tenha feito, com o murro pronto no punho teso, sei: revide é o contragolpe do triste.

Veja bem, ninguém mandou eu viver com tanto ardor.

Porque machuca e faz doer, o mundo me ensina: há passadas que sabem do limite quando o queixo sangra na calçada.

Sóbrio ou ébrio, todo mundo tem joelhos pra ralar.

Que o ano tenha começado sem outra perspectiva que não seja de passar o restante do primeiro dia do ano inteiramente dedicado a sentir em tronco, membros e cabeça, inapelavelmente na cabeça, que tenho de tomar água, muita água, pois a água há de ajudar a sentir vergonha de nem me arrepender da farra, do exagero de ter entrado de cabeça na alegria do fim de ano.

Ano Velho, que o diabo o carregue. Vá pro passado e fique lá. Pois de você eu quero distância. Dá uma tristeza grande me lembrar da sua duração. Sim, Ano Velho, foi dureza passar por você. Parecia jararaca se arrastando sobre a barriga, dentro do crânio, dando nojo; feito vírus no sangue, bactéria na urina, dando calafrio. E foi desgraceira atrás de outra, Ano Velho, que você mais parecia desafio, duelo, jogo duro.

Partida vencida; partida perdida ꟷ canseira, que nada!

Que isso seja possível de prosseguir assim, pois no meio da nossa caminhada, Dona Cremilda e eu, encontramo-nos?

Feliz Ano Novo pra cá. Feliz Ano Novo pra lá.

A novidade que ela conta é que tanto a menina quanto o menino da Marieta estão dando alegrias para esta mamãezinha coruja.

Começou que a menina virou chorar sem motivo. O impressionante do choro é que ela estava no colo. A mãe estava gravando o cachorro que estava todo brincalhão. Vai daí que a criança pegou naquele choro sentido. Tanto era esquisito, que ele abalava na gente a certeza de que aquilo fosse natural.

Poxa, bastava olhar.

O corpinho se contorcendo daquele jeito era mais que desespero doído. Aquela bolinha comprimida dava aflição. Tanto comovia que, se a gente bulisse, a gente trincava aquela coisinha.

Mariana chorando daquela maneira, não é que o Mariano começou a chorar do mesmo modo?

Marieta fez o vídeo e postou. A gravação está bombando. A menina chora, o menino chora; e só a mãe é que não chora porque ela narra o que filma com o telefone.

Emendo de prima:

ꟷ Olha, Dona Cremilda, o filme da vida nunca tem fim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de janeiro de 2023.

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