A
manhã do pregador
Da cabeceira da mesa, observando a chuva
encharcando as roupas que não têm como dispensar o peso, de roupa ensopada pelo
tanto de água que vem caindo desde antes da alvorada, que abaúla os arames do
varal, o olhar baço confere ao senhor de longos fios amarelados da basta barba um
ar de profeta com veras vivências sapienciais.
Sereno soberano de si, regente de um reino
estreito, nesga urbana na malha da cidade, tal vassalo de verdades antigas impõe
império de vontades inflexíveis do meio-fio da frente até o meio-fio dos fundos
da propriedade, incluídos casa assobradada e pomar de quintal.
Altissonante é a voz que vem do quintal,
do tronco da jabuticabeira, do coração entalhado a iluminar rubi a paixão outrora
arborescente.
O homem que toma café deixa de tomá-lo
desacompanhado porque Pedro vem sentar-se à mesa.
ꟷ Pedrinho, meu querido, se a manhã não
fosse de chuva, você me ajudaria a construir uma casa na árvore?
ꟷ Tô de férias, Vovô.
ꟷ Justamente, Pedrinho. As melhores
férias, aquelas que você não vai esquecer nunca mais, são quando a gente faz
coisas diferentes do que faz durante o ano todo.
ꟷ Mas, Vovô, as férias acabam logo. Com
tanto joguinho novo que acabaram de lançar, o senhor me perdoe, prefiro me
concentrar só no celular. Não quero que as aulas voltem e eu volte pra escola sem
jogar tanta coisa nova.
ꟷ Eu sei, Pedrinho, as férias são curtas,
os dias passam rápido, as horas voam, pois a pessoa esquece da vida quando faz
o que gosta.
ꟷ Que bom que o senhor me entende.
ꟷ Tudo bem, Pedrinho. Aproveite as
férias do melhor modo.
ꟷ Com tanta coisa pra fazer, estou sem
tempo, Vovô.
ꟷ Pedrinho, não está aqui quem lhe pediu
pra se divertir de um jeito que você talvez nunca tenha experimentado. As
férias são suas, então, meu querido, curta-as como bem entende.
ꟷ Não precisa emburrar, Vovô. Quinze
dias passam rápido, logo já vou embora e o senhor nem vai ter que inventar
essas maluquices que assombram gente nova que nem eu.
ꟷ Pedrinho, não vou aborrecê-lo. Tudo
certo. Não é importante que você saiba que o lobo chegou pro porquinho e lhe
propôs que sua casa fosse feita de palha. Sim, o lobo queria que o porquinho
apanhasse a palha seca dos campos, porque o regime de chuvas estava diferente e
não chovia quando deveria estar chovendo.
ꟷ Como raio provoca incêndio, o
porquinho deveria construir a sua casa com toda essa palha espalhada por aí.
ꟷ Nada de palha, Pedrinho! O lobo tem
que avisar o porquinho pra levantar casa que não pegue fogo fácil. A casa precisa
ser de pau. Com tanto galho caído, tanta árvore, o lobo alerte que é melhor
construir de modo seguro.
ꟷ Nem palha nem pau, é só pegar a
história da Rapunzel pra saber que chuva, vento e fogo não abalam torre feita
de pedra.
Depois de Pedro, Paulo e Maria terem
opinado, o avô de longos fios da grande barba amarelada achou de ficar quietinho,
feliz.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2023.
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