Moral
da história
Não preciso de silêncio, preciso de
lápis e papel.
Para dar uma animada geral na minha
disposição de pessoa atenta aos detalhes, quero que fique registrada a ideia de
que oportunidades aparecem, já para serem amadurecidas com cogitações
pachorrentas, como o vira-lata a espiar de soslaio o canário cantando no galho
mais alto da roseira, já pra não desanuviarem os anéis de fumo do cachimbo baforado
pelo carequinha pigarrento balançando naquela cadeira que vai rangendo, como o fole
da gaita simulando grave respiração.
Devagarinho, vim. Minudente, paragrafei o
que vejo. Curioso é que, depois de escrito, enxergo o que via, sabia que estava
vendo, mas não punha estabelecida a essência da cena vista.
Quem há de negar que a verdade prende a
atenção da mente?
Eu é que não negarei, pois a esmiucei e apurei
do narrado o ânimo pra prosseguir arando o chão desta minha crônica.
Crescendo pouco e pouco na folha, meu
girassol semeado na terra seca precisa de irrigação, que ele conte com o suor
que eu porejo. Que seja muito, que seja ácido, que não o mate no broto antes da
plenitude de sorrir ao sol.
Queimo as pestanas, penso que sim. E
escrevo, pois sim.
Ponho no papel, como não há canavial nas
vizinhanças, que o fogo siga sendo a brasa no cachimbinho de barro na varanda.
Ponho, sim, para que a história tome siso do sim. Agora, e por escrito.
Sem retomar das aulas de caligrafia o
cursivo legível, está anotada a descrição do vira-lata tomando sol na frente da
casa.
Pressa pra quê?
Gente boa que me lê, a cadeira não
arremessará o velho tabagista, ainda que ele esteja praticando o que acredita
ser o melhor que possa fazer, que é fumar, pigarrear e cuspir.
Quando equiparados, o meu fumante é
menos danoso que a fila de caminhões que vão da roça mais próxima ao entreposto
mais lucrativo.
Mas, alface, agrião e beterraba vencem a
queda de braço de quem condena aplicações racionais de nitrogênio no solo e
multa criminosos queimando carbono dia e noite.
O cheiro é horrível; as cuspidas,
nojentas; o cão quer o canário.
Se soubesse das suas incontáveis vidas
anteriores, o cão que vê o passarinho ou ficaria satisfeito ou teria engulhos
por ter nas sinapses os conhecimentos predadores de felino astuto.
De ardis e risos debochados tenho minhas
experiências.
Falo do garoto que colou moedinha na
calçada. Quanta gargalhada deu o garotão esperto, pois não surgiu nenhum Sansão
pra descolar a moedinha colada na calçada.
Vendo uma dessas no caminho, não me
abaixei nem me abaixarei. Passei pela moedinha diversas vezes, e, maroto que
sabe das coisas, sorrio. É sorriso previdente, que não me humilho.
Acho oportuno registrar o que vejo, e
acabo de vê-la.
A moeda solitária tem companhia, colaram
mais duas. Passo, olho ressabiado, somo de cabeça e chego à conclusão: se tais iscas
derem um real, me deixarei fisgar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2023.
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