terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Moral da história

 

Moral da história

 

Não preciso de silêncio, preciso de lápis e papel.

Para dar uma animada geral na minha disposição de pessoa atenta aos detalhes, quero que fique registrada a ideia de que oportunidades aparecem, já para serem amadurecidas com cogitações pachorrentas, como o vira-lata a espiar de soslaio o canário cantando no galho mais alto da roseira, já pra não desanuviarem os anéis de fumo do cachimbo baforado pelo carequinha pigarrento balançando naquela cadeira que vai rangendo, como o fole da gaita simulando grave respiração.

Devagarinho, vim. Minudente, paragrafei o que vejo. Curioso é que, depois de escrito, enxergo o que via, sabia que estava vendo, mas não punha estabelecida a essência da cena vista.

Quem há de negar que a verdade prende a atenção da mente?

Eu é que não negarei, pois a esmiucei e apurei do narrado o ânimo pra prosseguir arando o chão desta minha crônica.

Crescendo pouco e pouco na folha, meu girassol semeado na terra seca precisa de irrigação, que ele conte com o suor que eu porejo. Que seja muito, que seja ácido, que não o mate no broto antes da plenitude de sorrir ao sol.

Queimo as pestanas, penso que sim. E escrevo, pois sim.

Ponho no papel, como não há canavial nas vizinhanças, que o fogo siga sendo a brasa no cachimbinho de barro na varanda. Ponho, sim, para que a história tome siso do sim. Agora, e por escrito.

Sem retomar das aulas de caligrafia o cursivo legível, está anotada a descrição do vira-lata tomando sol na frente da casa.

Pressa pra quê?

Gente boa que me lê, a cadeira não arremessará o velho tabagista, ainda que ele esteja praticando o que acredita ser o melhor que possa fazer, que é fumar, pigarrear e cuspir.

Quando equiparados, o meu fumante é menos danoso que a fila de caminhões que vão da roça mais próxima ao entreposto mais lucrativo.

Mas, alface, agrião e beterraba vencem a queda de braço de quem condena aplicações racionais de nitrogênio no solo e multa criminosos queimando carbono dia e noite.

O cheiro é horrível; as cuspidas, nojentas; o cão quer o canário.

Se soubesse das suas incontáveis vidas anteriores, o cão que vê o passarinho ou ficaria satisfeito ou teria engulhos por ter nas sinapses os conhecimentos predadores de felino astuto.

De ardis e risos debochados tenho minhas experiências.

Falo do garoto que colou moedinha na calçada. Quanta gargalhada deu o garotão esperto, pois não surgiu nenhum Sansão pra descolar a moedinha colada na calçada.

Vendo uma dessas no caminho, não me abaixei nem me abaixarei. Passei pela moedinha diversas vezes, e, maroto que sabe das coisas, sorrio. É sorriso previdente, que não me humilho.

Acho oportuno registrar o que vejo, e acabo de vê-la.

A moeda solitária tem companhia, colaram mais duas. Passo, olho ressabiado, somo de cabeça e chego à conclusão: se tais iscas derem um real, me deixarei fisgar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2023.

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