quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O olho do peixe

 

O olho do peixe

 

É tempo de renovação.

Antes que o engraçadinho zombe de mim nas minhas preces, peço às esperanças que retirem os enfeites, desmontem a árvore e causem-me entusiasmo por sumirem de vista.

Sim! É hora de guardar o que pegaria poeira se eu não conhecesse espanador. Mas me cansei de espanar guirlanda, Papai Noel, festão e bolinhas. Sim! Sim! Chega de rou rou rou.

Que hoje eu me faça o favor de não rezingar pelo fado de outro ano entronizado pela singela mudança do último dígito. Porque calendários e folhinhas fazem automaticamente a continha: 2022+1=2023.

Feito o ajuste, farei o desajuste.

Reis, meus reis, retirarei os enfeites e desmontarei a árvore, pois já elenquei o que vou fazer neste ano que acabou de começar e, pessoa sintomaticamente ajuizada que eu sou, a fim de evitar o olhar de peixe morto sobre mim, não ventilarei o que espero fazer.

Se o juízo é sintoma, sejam escarafunchadas as circunstâncias que me levam a agir moderadamente como sempre tenho feito: como quem afiança o que pensa, pondero porque creio em mim.

Creio que renovar as esperanças é manter o pé no chão, é dar força à consciência que especula sobre a realidade que a individualiza.

Já que minha máquina cerebral não para de avaliar, não interrompo o pensamento, pois azeito a cachola com reflexões autônomas.

Sem medo de emperrar quando balanço, ergo os olhos, levanto os braços e balbucio: Guirlanda, guardá-la na caixa é pra que o ano seja novo. Papai Noel, não ponha a barba de molho, já vem dezembro, que nem jujuba chupada por criança. Jano, Januário, Janaína, que os onze meses sequem o olho gordo que me figura azarado. Ó Ventura, peço que nos meus pés não brote olho de peixe.

Além de mim, quem mais ouvirá tais muxoxos?

Alimento o cansaço fazendo coisas que poderia evitar. Se evitasse fazê-las a cada vez que recordo o quanto me alegram, estaria livre do cansaço de ter exagerado. Quando coisas me dão verdadeira alegria, me divirto, me contento, me aborreço, cansa o blábláblá.

Quero-me só um pouquinho saciado das coisas que dão felicidade, pois nem empanturrado entenderia o que a guirlanda diz. Mesmo que não a compreenda, que a caixa fechada volte pro armário.

Não sei qual filósofo, ou algum vagabundo, tenha se surpreendido: sem compreensão, de que adianta o mistério?

Cadê quem venha criticar a circunstância da pessoa de bem com o mundo que não cobra na mesma moeda.

Espero que alegria gere alegria, pois acho justo que haja felicidade se ajo pensando na felicidade.

Pela felicidade de ter feito alguma coisa boa, não me orgulho. Certo, quem lacra caixas nem precisa acreditar que o Papai Noel exista. Ora, vender imagens não condena ninguém a comer panetone só depois de o Natal ter passado.

Olho no olho: ainda que o Menino na manjedoura tenha ficado todo tempo no armário, Ele Mesmo será símbolo espirituoso do Amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2023.

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