Arte
admirável
Todavia, quem observa do outro lado?
Distinguir cores, isso não acarreta
ações reparadoras como separar do verde o azul pra chegar ao amarelo. Como
resto colateral, o amarelo restaurado à mistura segue sendo resquício do que
fora.
Há o pervertido que fica excitado como
agente a ativar reações que deixam sobras misturadas do que não se quer no
desejado.
Há pervertido a quem o excita não
reagir, não reativar, é aquele que deseja que o amarelo continue amarelo, sem haver
mistura com o azul; assim o verde não resulta da soma do amarelo com o azul.
A apatia como um senão, por escolha e
não por desconhecimento, pra que a natureza das coisas permaneça como retrato
da inércia. Que a inércia humana continue a produzir a realidade tal qual é sentida.
Então, o inerte pervertido sente prazer
ao constatar que: o amarelo e o azul são mantidos separados sem haver
interferência; o verde siga sendo verde, sem que haja mistura, que inexista o
produto do azul mais o amarelo.
Por omitir o que pensa, o perverso quer que a realidade do mundo continue sendo simples, de fácil percepção, de entendimento cristalino. Que o límpido prevaleça sobre o apurado, o depurado, o reparado. Que a realidade da vida possa ser indolor, que a verdadeira face do mundo enalteça o impassível.
Quem dera a água fosse o básico.
A água, ora essa, a água é fruto dos dois átomos de hidrogênio que se amalgamam com um átomo de oxigênio.
Cáspite! Sequer a água é pura.
Como a química não mente, não subverte,
não institui inverdade e não constitui paralisias, a vida não para de
surpreender quem a ela se dedica a reflexões e pensamentos inesperados.
Sinapses novas, neurônios revigorados: ô
coisa boa pro cérebro.
Na janela do outro lado, parece que tem
um gato.
Embora me observe, faço perguntas,
respondo as que posso, a ele não levarei dúvidas nem as certezas. Ainda que eu
permaneça imóvel, a minha cabeça não se omite de pensar.
Será que uma pessoa conseguirá congelar
os seus pensamentos? Haverá algum transe que deixe esvaziar-se em pensamento?
Cachola insensata, pulo o muro. De
perto, vejo que meu reflexo não desfigura o objeto. Vejo bem: feito à mão, o gato
não é empalhado.
Mãos trabalham, dão realidade à
apresentação irreproduzível, pois os detalhes são únicos, intransferíveis. Ainda
que haja modelo, molde, mãos desejam. Ainda que a linha estabilize a forma, é o
olho que vê o gato à janela.
Eu que pulei o muro posso vê-lo de
perto, só com o vidro a separar-me do focinho. Sinto que não perdi o meu tempo:
ganhei riquezas, até porque o tempo não cria verdinhas.
De pertinho, devasso-o.
Se o enxergo despido de fantasias, saberei
empregá-lo melhor?
Num instante, percebo, sinto e penso que
este gato não houve nem haverá de ser outro, nem mesmo algum mito desempregado.
Pelo tanto que anda pensando, dona
Francisca está admirada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2023.
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