Amor
selvagem
Sinto muito, e por muito sentir o tanto que
me aflige, o que primeiro me ocorre quando ouço que o circo está na cidade é: medo.
Outros, talvez a maioria, sintam
alegria, busquem-na e a encontrem sem taquicardia, exsudação ou insônia, eu,
pobre criatura medrosa, eu fecho meus olhos porque sei que preciso, sei mesmo que
tenho de me desdobrar em esforços pra não compreender que o alto-falante reforça
o que a faixa nos céus anuncia, que o circo está na cidade.
Agora e sempre, descontrola-me tal
notícia.
Desde pequeno, no papel de guri com um
bodoque no bolso de trás das calças curtas, eu corria ao pai pra implorar que
não me levasse até os palhaços, porque aquilo de pagar entrada era desperdiçar
pirulitos, balas e sorvetes, porque o circo, puxa vida, todo circo era
passageiro, já o bar da frente, ele seguiria na frente de casa, que assim era desde
sempre, mas o pai, tão comovente na sua função de surdo que manda na casa toda,
achava divertido aflorar-me medroso, por minhas aflições de garoto.
Posto que bem me recorde: hoje eu temo
pelo que eu temia.
Pra todo mundo ficar sabendo, o circo
chegava à cidade com desfile na rua principal. Pra que todo mundo pudesse
testemunhá-lo, o cortejo era lento, progressivamente lento. Pra que a cidade,
meu pai inclusive, ficasse inteirada de que a boa nova era a vinda perturbadora
do circo, no desfile triunfavam aqueles seres amedrontadores, os palhaços.
Não acho que seja pelo rosto carregado
nas tintas, talvez seja pelos gestos súbitos que sintetizem o caótico do cosmos,
quiçá que o cômico que desconcerta venha do âmago, de onde ignore mas sinta que
física e metafísica não estão separadas, onde a regra engendre a exceção, porque
o riso me recompõe emocionalmente desordenado, próximo do desordeiro que ri da
balbúrdia, pelo riso desestabilizante.
Na corda bamba, adeus sombrinha.
Quero crer que a ansiedade instintiva
que sinto seja medo de atuar como membro de uma turba convulsionada: de tocha
na mão, subindo a colina pra incendiar o castelo vampiresco; com paus e pedras
pra dar cabo do monstro que faz maluco o cientista; empunhando forcado, pra
tirar do joio o trigo a quem mais padece da fome de pão.
Quando os palhaços estão na cidade, corro
logo pro lado oposto.
Eu sei que serei humilhado por minha
falta de humor. Mas não sou de rir de torta na cara, sequer na minha. Não pago
pra ver que passem a perna pra tombo ridículo, mesmo o meu. Bobo de nascença, porque
detesto sarcasmo e malcriações, desqualifico quem ri à toa.
Se fujo do picadeiro, é porque eu não hesito,
sei que sou bem capaz de mimetizar aos palhaços sua pantomima recreativa, de leves
toques arruaceiros, sutis pinceladas baderneiras, por nuançada anarquia.
Cá pra nós, pra que todo mundo nos ouça:
palhaços são artistas, e tais artistas, ó ironia, dão colorido ao bom selvagem
que a gente ama.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2023.
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