terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Amor selvagem

 

Amor selvagem

 

Sinto muito, e por muito sentir o tanto que me aflige, o que primeiro me ocorre quando ouço que o circo está na cidade é: medo.

Outros, talvez a maioria, sintam alegria, busquem-na e a encontrem sem taquicardia, exsudação ou insônia, eu, pobre criatura medrosa, eu fecho meus olhos porque sei que preciso, sei mesmo que tenho de me desdobrar em esforços pra não compreender que o alto-falante reforça o que a faixa nos céus anuncia, que o circo está na cidade.

Agora e sempre, descontrola-me tal notícia.

Desde pequeno, no papel de guri com um bodoque no bolso de trás das calças curtas, eu corria ao pai pra implorar que não me levasse até os palhaços, porque aquilo de pagar entrada era desperdiçar pirulitos, balas e sorvetes, porque o circo, puxa vida, todo circo era passageiro, já o bar da frente, ele seguiria na frente de casa, que assim era desde sempre, mas o pai, tão comovente na sua função de surdo que manda na casa toda, achava divertido aflorar-me medroso, por minhas aflições de garoto.

Posto que bem me recorde: hoje eu temo pelo que eu temia.

Pra todo mundo ficar sabendo, o circo chegava à cidade com desfile na rua principal. Pra que todo mundo pudesse testemunhá-lo, o cortejo era lento, progressivamente lento. Pra que a cidade, meu pai inclusive, ficasse inteirada de que a boa nova era a vinda perturbadora do circo, no desfile triunfavam aqueles seres amedrontadores, os palhaços.

Não acho que seja pelo rosto carregado nas tintas, talvez seja pelos gestos súbitos que sintetizem o caótico do cosmos, quiçá que o cômico que desconcerta venha do âmago, de onde ignore mas sinta que física e metafísica não estão separadas, onde a regra engendre a exceção, porque o riso me recompõe emocionalmente desordenado, próximo do desordeiro que ri da balbúrdia, pelo riso desestabilizante.

Na corda bamba, adeus sombrinha.

Quero crer que a ansiedade instintiva que sinto seja medo de atuar como membro de uma turba convulsionada: de tocha na mão, subindo a colina pra incendiar o castelo vampiresco; com paus e pedras pra dar cabo do monstro que faz maluco o cientista; empunhando forcado, pra tirar do joio o trigo a quem mais padece da fome de pão.

Quando os palhaços estão na cidade, corro logo pro lado oposto.

Eu sei que serei humilhado por minha falta de humor. Mas não sou de rir de torta na cara, sequer na minha. Não pago pra ver que passem a perna pra tombo ridículo, mesmo o meu. Bobo de nascença, porque detesto sarcasmo e malcriações, desqualifico quem ri à toa.

Se fujo do picadeiro, é porque eu não hesito, sei que sou bem capaz de mimetizar aos palhaços sua pantomima recreativa, de leves toques arruaceiros, sutis pinceladas baderneiras, por nuançada anarquia.

Cá pra nós, pra que todo mundo nos ouça: palhaços são artistas, e tais artistas, ó ironia, dão colorido ao bom selvagem que a gente ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2023.

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