Aviso
prévio
Entro na fila. Depois de uns cinco
minutos, ela não andou. Aguardo a minha vez, pois sei respeitar o combinado.
Não vou reclamar, mesmo que eu continue no lugar em que entrei.
Andarei quando houver de andar.
Mantenho a calma. Fico na minha, pois
fila indiana é mesmo assim: comigo atrás de uma pessoa, comigo à frente de
outra.
Nem minhas contas têm asas nem meus pés
formigam.
Conservo-me lúcido, e calmo.
Paciente comigo, sei esperar a vez de
ser atendido. Mas eu entendo quem perde a paciência com a vagareza dos outros.
Ainda que continue de boca fechada,
impaciento-me com a lerdeza de quem me faz ficar um tempo maior do que achava
que levaria para pagar o que vim pagar.
Me dou conta de que estou ficando
inconformado.
Poxa, não são nem nove horas da manhã. E
terei horas e horas até tomar banho, ficar descalço, cochilar na poltrona
depois da janta.
Sentir cansaço às oito e pouco de mais
um dia cheio dessas tarefas maçantes, admito que preciso descansar.
Que ideia boa para ser acalentada.
Acalento-a. Não me sinto menos cansado,
mas minhas pernas não estão tão pesadas. Menos pesado, passo a passo: quase
leve.
Aconchegada na esperança, minha alma me
põe cordato em outra fila. Por hoje estou destinado a mais e mais filas, e a
elas vou eu.
Amanhã enfrentarei outras filas. E
depois de amanhã?
Embora um pigarro venha crescendo na
garganta, não pigarrearei. A fila não é problema se os dias de folga puxarem
meus pensamentos.
Sei que posso aliviar-me desta jornada
fastidiosa se pigarrear com discrição. Sem carnaval pros demais, limpo a
garganta.
Tanto quanto eu, as pessoas têm contas
pra pagar, e pagamos.
Comentam as notícias da hora; concordam,
discordam, nem abrem a boca; estamos organizados em fila.
Todos temos os nossos boletos e os
pagamos. Com atraso, em dia, pagamos o que podemos, o quanto o dinheiro nos
permita pagá-los.
Tenho outra fila para pegar, e não estou
aliviado porque paguei dois ou três dos boletos do dia.
Resignação pouco tem de alívio, tem mais
que ver com serenidade. Sereno, pois eu sei que estou derrotado.
Pago, não tenho escolha.
Posso deixar de pagar faturas, que elas
se acumulem, que venham as cobranças, as novas cobranças, as cartas judiciais,
as convocações inadiáveis, o arresto obrigatório, a capitulação.
Tenho mais uma fila, pouco importa se
aceito-a ou não. Pego-a.
Como me apresentar aos demais?
Vou à fila com a cabeça banhada nas
águas da melancolia, porque a vida segue o seu curso.
Vem aí o carnaval, e não quero estar
cansado quando ele começar. Preciso estar pronto pra enfrentar a folia. Sei que
não sou bom pra me antecipar aos problemas, mas posso tentar. Como não pretendo
piorar tudo, que o dia seja uma tentação inspiradora.
Para que o cotidiano insosso de uma vida
em débito automático não me estafe, vou logo avisando: pelos próximos três
dias, virei vadio.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2023.