domingo, 18 de dezembro de 2022

Por delicadeza

 

Por delicadeza

 

Temos o sol. Temos um gato, que também toma sol. Não, oculto na jabuticabeira, o sabiá não toma sol, mas o gato toma. Simplifiquemos: o sol aquece o gato, cujos olhos estão fixos no sabiá; o passarinho bica uma jabuticaba, que é doce que nem mel.

Simplifico-me, simplifiquemo-nos.

Pelo que for, busco um hibisco no lusco-fusco do quintal, mas o que vejo é um beija-flor no ipê roxo, florido roxo no seu todo de ipê em flor, pois, pelo que vejo, no vigor da hora, no trivial do instante, é que vigora banal a vida cotidiana, comigo pro que vier.

Por suposto, simplifico-me.

Como nuvens no céu noturno que já vem, eis a cena posta que seja permitido testemunhar: o crepúsculo de outro dia, cuja beleza brota da configuração das cores e linhas do gato malhado que vigia o sabiá que bica jabuticaba.

A qualidade do testemunho depende do espírito que observa; disso eu entendo, pois interpreto mal o instante quando responsabilizo o que me escapole do controle.

O sol sumirá, as jabuticabas ficarão no pé e o gato entrará na casa; e a lua, que nem estava sendo considerada, espia-me com um silêncio misterioso, liricamente tão fascinante.

Capto o ânimo do mundo, ligeiro.

Culpo o crepúsculo por sua beleza que deslumbra. Pelo que faz tal encantamento, cativa-me. Mais ainda, porque as nuvens sem calor não atrapalham percebê-lo maravilhoso, cativo desta trivialidade.

Engano-me ao ajuizá-lo trivial, pois, pelos meus olhos, o mundo diz a beleza. Súbito, julgo banal o instante em que vejo o mundo com olhar enamorado de plateia.

Se fotografasse o que não espero, desabaria em êxtase?

Tiro de meus ombros o peso do julgamento estético, responsabilizo o universo, o momento, a cena armada no quintal de casa pelo êxtase fulminante que me faz perder o chão, suspirar fundo, achar que a vida é mesmo de fazer a gente perder o fôlego e pedir ao sol que o instante de fascinação seja eternamente recordado, que retorne à mente a cada vez que me veja boquiaberto com o espetáculo natural.

Avalio-me em condições de presenciar novamente a cena que volte a se arquitetar nos fundos; que o acaso assim a configure, que ela seja desconcertante.

Sentado no chão da lavanderia, vejo a jabuticabeira carregada, mas o gato sumiu, o sabiá voou, a aurora dará sol.

Quiçá haja sol; a jabuticabeira atraia passarinhos; haja sabiás entre os passarinhos atraídos pelas jabuticabas docinhas; eu sorria abobado com a estupenda coincidência de estar sentado no chão da lavanderia; uma vez que hoje, amanhã e ontem são novamente esse instante em que, compreendo que a sinto, a delicadeza do mundo passa por mim; a cada vez, simplesmente.

A pretexto de filtrar-me suscetível ao contexto, em atenção a mim, atuo sensibilizado, pois palco, cenário e atores fazem-me perceber que a simplicidade do mundo é inalienável ao instante.

Tenho o que tenho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário