quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O norte da sorte

 

O norte da sorte

 

Por mais que eu tente, não consigo. Há dias que me esforço, busco a condição favorável. Desejo tanto ajudar a conseguir que prejudico. A ansiedade atrapalha, confunde, só aumenta a desventura.

Há dias que nem deveria ter tentado ser instrumento a canalizar as boas graças do universo; a minha cachola dá pane.

Tão nefasta é a pane que beira a pânico.

Céus, o que posso dizer a meu favor?

Deitei cedo no quentinho da cama na tarde de sábado, nada. Ainda no sábado, no almoço, enchi a moringa de vinho ruim, e fracassei. Bati um belo prato de lentilhas regado do mais puro azeite português, outro fiasco. Por quinze minutinhos neste sábado aziago, só gastando força, sentei nuzinho debaixo da água fria da ducha. Da sexta pro sábado, os fones no ouvido pra acordar de susto com o alarme do telefone às três da matina, em vão. Maldito sábado que não passa nunca!

Embora pareça uma coisa bem idiota pra confessar, confesso que sou pateticamente idiota. Porque vou insistir, e insisto, resisto a desistir de converter a urucubaca na danada da sorte que sorri a quem pensa em ganhar a Mega da Virada.

Custe-me o que custar, hei de ganhá-la, hei de banhar-me nas suas águas, ó Fonte da Fortuna.

Minha caneta é meu cajado, com a tinta azul de seu bojo vou marcar os números. Só preciso deles. Caraca, que não os tenho, ainda.

Quero que venham a mim os números benfazejos da Fortuna. Que me escolham entre os milhões e milhões de apostadores. Quero que o Ano Novo me consagre milionário.

Milionário de alma cordata, pois não peço pra ser o único ganhador. Outras pessoas também podem desejar o prêmio, pois não sou desses selvagens que cravam os dentes na bolada graúda.

Sereno de mandíbula, não mordo a torto nem a direito, mas, na hora do acerto, não sou trouxa: não aceito sorriso postiço, de fina dentadura, quero ser agraciado pelos dentes de leite da nova era; não quero leão banguela chupando a tíbia da minha canela; não quero impostores me cobrando o que, de agora pro futuro, luto pra tornar verdadeiro.

Que pesadelo! Por que me escapam as seis dezenas?

Refaço os passos? Repassarei.

Deitarei depois do almoço de sábado, dará certo. Ainda no sábado, no café, beberei duas médias, e acertarei no açúcar. Lamberei do prato o que sobrar da banana amassada, e não terei cãibras. Sendo sábado, terei ânsias de ir tomar banho. Nas matinas do sábado, a voz benfazeja cantará as dezenas. Que o tempo pare: na lotérica, chegarei ao guichê, conhecerei a alegria de fazer a minha fé e saberei ser feliz.

Embora pareça coisa de imbecil, minha caneta é meu bastão, com ela evito os tombos, dito o ritmo que me embala na vida, vou no mundo com a ginga que tenho aprendido.

Como batuta bordando no ar o que as mãos tecem, a caneta marca, baila, é volante à sorte da virada, que tenho de apostar na hora certa:

ꟷ Às 23:59:59, que o último a sair acenda as luzes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2022.

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