terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A febre

 

A febre

 

Sem perorações que corroborem o sentimento, asseguro que estou portador de um otimismo revigorante.

Embora não entenda por qual motivo veio a mim depois de um Natal chinfrim, que surpresa agradável é sentir-me otimista.

Passei o final de semana dentro de casa porque estava pronto para recusar convites, tinha argumentos que julgava infalíveis, tratei de ficar longe da caixa de e-mail; fiz o melhor: apaguei-me na paisagem.

Há quem ache belo o sol vindo além dos montes; seu contrário é de lancinante beleza pois a noite fecunda desertos, diz o penumbrista.

Deserto, pra mim, é areia que beira o mar; e reconheço-me instado pelo asco a bater das costas essa porção tão pegajosa.

Sem pessimismo, amo o mar como quem adora ídolo distante.

No calçadão, sentava no passeio, cultuava a massa d’água, sumia, nem pensava, tanto gostava que nem me percebo suspenso, levitando em pensamento, sentado à mesa em que escrevo.

Escrevo, posso estragar tudo, transformar a sensação aprazível em marasmo, não noto que me abismam as circunstâncias, considero-me apto, entendo meu estado mental como imponderavelmente ótimo.

Se tanto apraz, como não me perder à lassidão do satisfeito?

Pois é, a pessoa que se acha no cume do desespero faz do mundo um palquinho de quermesse. Ignora-se farsante, alguém que acha bom puxar o ar rarefeito que o asfixia em pêsames sem luto.

Vá brincar de ser feliz. Ganhe alento, esqueça o pior que tenha feito. Faça-se outro, uma versão melhor de si. Vá à folhinha.

No mês de nascimento e morte de William Shakespeare, eu ganhei Aulas sobre Shakespeare. A orelha informa que o livro reúne a série de aulas ministradas por Auden entre outubro de 1946 e maio de 1947. São 29 aulas, inclusive a de conclusão, listadas no índice.

Mesmo que precise adiar a leitura de Por quem as panelas batem, Ano Bom, lerei este Auden antes que complete um ano na pilha.

Seu Rodrigues, reinvente-se, ponha fé na esperança de que possa amar o próximo como ama a si. Vá logo, leia o Antonio Prata.

Como bom político que muito ajuda quando não atrapalha, prometo, pessoa que me lê, vou ler o Filho do Mario antes de abril.

Se eu menciono a frustração por ainda não ter lido certos livros que auxiliariam a ter uma leitura menos tendenciosa do presente, lamento que esteja comprometido.

Cadê a justa percepção da realidade?

Não vou ficar parado, preciso andar. Porque dar uma caminhadinha boa, de uma hora, me faz bem. Preciso andar e andarei. Não vou correr porque não tenho pressa.

Quero mais é me sentir reconectado com a cidade, com as pessoas que me acenam, sabem o meu nome. Quero ser identificado com quem eu fui, com o menino que nadava no rio, com o coroinha que não sabia o latim da missa, com o rapaz que dormiu na praça depois do baile.

Quero que a memória baile, pois agora:

Tchau 2022, vou indo, só voltarei quando estiver melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2022.

 

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