A
febre
Sem perorações que corroborem o
sentimento, asseguro que estou portador de um otimismo revigorante.
Embora não entenda por qual motivo veio
a mim depois de um Natal chinfrim, que surpresa agradável é sentir-me otimista.
Passei o final de semana dentro de casa
porque estava pronto para recusar convites, tinha argumentos que julgava
infalíveis, tratei de ficar longe da caixa de e-mail; fiz o melhor: apaguei-me
na paisagem.
Há quem ache belo o sol vindo além dos
montes; seu contrário é de lancinante beleza pois a noite fecunda desertos, diz
o penumbrista.
Deserto, pra mim, é areia que beira o
mar; e reconheço-me instado pelo asco a bater das costas essa porção tão
pegajosa.
Sem pessimismo, amo o mar como quem
adora ídolo distante.
No calçadão, sentava no passeio, cultuava
a massa d’água, sumia, nem pensava, tanto gostava que nem me percebo suspenso,
levitando em pensamento, sentado à mesa em que escrevo.
Escrevo, posso estragar tudo, transformar
a sensação aprazível em marasmo, não noto que me abismam as circunstâncias, considero-me
apto, entendo meu estado mental como imponderavelmente ótimo.
Se tanto apraz, como não me perder à lassidão
do satisfeito?
Pois é, a pessoa que se acha no cume do
desespero faz do mundo um palquinho de quermesse. Ignora-se farsante, alguém
que acha bom puxar o ar rarefeito que o asfixia em pêsames sem luto.
Vá brincar de ser feliz. Ganhe alento, esqueça
o pior que tenha feito. Faça-se outro, uma versão melhor de si. Vá à folhinha.
No mês de nascimento e morte de William Shakespeare,
eu ganhei Aulas sobre Shakespeare. A orelha informa que o livro reúne a
série de aulas ministradas por Auden entre outubro de 1946 e maio de 1947. São
29 aulas, inclusive a de conclusão, listadas no índice.
Mesmo que precise adiar a leitura de Por
quem as panelas batem, Ano Bom, lerei este Auden antes que complete um ano
na pilha.
Seu Rodrigues, reinvente-se, ponha fé na
esperança de que possa amar o próximo como ama a si. Vá logo, leia o Antonio
Prata.
Como bom político que muito ajuda quando
não atrapalha, prometo, pessoa que me lê, vou ler o Filho do Mario antes de
abril.
Se eu menciono a frustração por ainda
não ter lido certos livros que auxiliariam a ter uma leitura menos tendenciosa
do presente, lamento que esteja comprometido.
Cadê a justa percepção da realidade?
Não vou ficar parado, preciso andar. Porque
dar uma caminhadinha boa, de uma hora, me faz bem. Preciso andar e andarei. Não
vou correr porque não tenho pressa.
Quero mais é me sentir reconectado com a
cidade, com as pessoas que me acenam, sabem o meu nome. Quero ser identificado
com quem eu fui, com o menino que nadava no rio, com o coroinha que não sabia o
latim da missa, com o rapaz que dormiu na praça depois do baile.
Quero que a memória baile, pois agora:
Tchau 2022, vou indo, só voltarei quando
estiver melhor.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2022.
Nenhum comentário:
Postar um comentário