quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Na marca da cal

 

Na marca da cal

 

Com os braços no meio das pernas, encolhidinho, feito feto, ouço o mundo. A garoa não assusta, convida. Escutando-a, penso as batalhas perdidas. Enrolado em mim, figa na cama, creio em mim. Acredito que, a cada derrota, aprendo a mudar o tanto que preciso mudar. Pelo que perco, desato a pensar. Recolhido, sinto o feto que me pensa.

Ainda garoa, ainda ouço.

Quero que o mundo eduque a sentir a sua música, que a garoa lave meu rosto, que deixar de obedecer cegamente não me transborde.

Torno-me tranquilo. Faço-me sereno como garoa na cabeça. Sinto a garoa. Penso-me sem temê-la, garoo.

Quando o mundo for assombroso, vou mijar na cama.

O que estranho é este sol que-vem-não-vem no meio da chuvinha; é sol o que me aconchega no seu seio como se mais amores florissem quando nem aguardo que brotem. Ao imaginá-los risonhos, iluminados, perfumosos, arrepiam. Por senti-los rindo à luz bruxuleante, luminosos ao traçá-los vicejantes, perfumam.

O broto amoroso, que dá à luz perfumes, faz-se flor pelo que adensa, condensa e recompõe-se, faça-me luz.

De rosto lavado, molhado de garoa, os olhos não me enganam: no meio do campo, estou deitado num banco.

Então, o sol do vem-não-vem é a estrela da tarde.

Com o brilho na grandeza de sua magnitude, o sol da tarde acorda fantasmas que despertam demônios. Se fosse outro, se fosse a estrela da manhã, quem acordado demonizaria com fantasmagorias.

Mas estou acordado, eu sinto que estou; e posso ver o campo, notar as linhas; e continuo à espera do apito, da entrada dos times e da bola no centro do campo.

Seu juiz, trile o apito.

De costas no banco, conto com meu nariz a noventa graus do resto do corpo, ou a coluna me jogará no inferno das agulhadas na nuca, os formigamentos descerão pelo pescoço e subirão ao cocuruto, entrarei em curto-circuito e lamentarei a indisciplina de ignorar os meus desvios na postura.

Olho no lance!

Alguém chama. Consinto em aquecer. Embora esteja fora de forma, vou dar o meu melhor. Reconheço que estou preparado pra entrar caso seja chamado. Posso fazer bem o que esperam que não faça.

Embora não botem fé, sei surpreender.

Evoé!

Depois de uma noite de sonhos esquisitos, Meursault abriu a janela sem prever que uma rajada de garoa fria fosse lhe dar um choque, feito tapa na testa, a ordenar-lhe:

ꟷ Vá, Arthur, vá fazer algo que preste.

Ansiando sonhar; seria bom se vagasse por uma praia deserta, pois não temeria chineladas, vassouradas, borrifada inseticida.

Vamos, Gregor, abra os olhos.

No meio da jornada pelo vasto mundo, o Gregor que não sabe quem seja Arthur permanece jogado de costas. Pra lá e para cá, esse Gregor boia que nem rolha em uma tigela cheia de água.

Quando o cuco confirma doze vezes a hora, com o dez nas costas, de calção azul, meião azul e camiseta amarela, Arthur e Gregor partem pro ataque:

ꟷ Seu Rodrigues, cadê o almoço?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2022.

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