domingo, 25 de dezembro de 2022

Mensagem secreta

 

Mensagem secreta

 

Na falta de neve, garoa. Faz frio. Mas, não me lastimo de que garoe e vente frio. Uma boina protege a careca; o moletom aquece; mais que as janelas fechadas, são os goles de café que me animam.

A cafeína no meu sangue acorda a alma pra pensamentos que nem imaginaria necessários ao bem-estar.

Sinto-me bem. Sinto que me é necessário estar bem, pois posso ter a mente clara, calma, sensível ao instante.

Ainda que eu ache empolgante uma ideia emendar em outra, estou sereno, pois estou certo de que penso com a clareza dos cafeinados.

Porque se esforçam em fazê-lo, pessoas animadas espalham o alto astral de modo benigno.

Pra ser honesto, tenho sorte. Tê-la faz de mim uma pessoa melhor, porque reconheço que preciso demonstrar o quanto sou grato.

Quando a gente sabe reconhecer a gratidão que tem a oferecer às pessoas, o coração entende porque bate feliz, porque faz essa música que satisfaz sem provocar suor, pigarro ou piscadelas.

Quando se tem este sentimento de que a felicidade é contaminante, a alegria impele a querer o bem a muito mais gente, a quem nem pensa que possa captar essas ondas mentais que dão leveza.

Ora essa, sei que opinar é irrelevante; sentir-me bem enquanto faço o que posso é o que há de mais importante, pois modifico a sensação negativa só porque está garoando e ventando frio.

Pois, este céu cinzento não me deprime, me tranquiliza, faz-me ver: garoa é bom para plantas, suas raízes.

Por um momento, um instantâneo horripilante, acho que a natureza pode tornar inóspito o ambiente onde neva, chove, venta, cai a energia elétrica, não há aquecimento, o ar a cinquenta graus celsius negativos, ó miserável horror, mata quem esteja obrigado a respirá-lo.

Eu não fiz um pedido malfeito nem o fiz pela metade, o meu bendito pedido foi atendido de acordo com o que mentalizei.

Ainda que o tempo esteja ruim em meio mundo, não vou me culpar por essa garoa gelada, que me permite dormir melhor, comer melhor e até pensar melhor, pois não me sinto culpado se fui ouvido.

Aliás, garoa não é vírus pra deixar a gente gripada.

Dezembro dos sonhos? Hum...

Uma vez que ninguém me convidou pra nenhuma ceia de Natal com algum salmãozinho, que não me desce bem nem quando é servido cru, acordei em paz com o mundo.

Se houvesse aceitado ir, teria comido e repetido. Mesmo consciente do muito que seria afetado, culparia a intragável calda de ameixa sobre aquele peru tenramente assado.

Ora, não estraguei o estômago porque sequer pensei no assunto.

Estou tomando café, comendo panetone, olhando a gata que conta comigo pra deixá-la sair. Na maior tranquilidade, permito-a que saia.

Os pardais voam com o rangido da porta.

A gata solta miadinhos de ansiedade, pois ela espera que aqueles passarinhos retornem.

Se entre a gata e mim houvesse entendimento, ela formularia:

ꟷ Pra quê, diabos, eu existo no mundo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de dezembro de 2022.

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