domingo, 23 de outubro de 2022

O olho que tudo vê

 

O olho que tudo vê

 

Cansado de ser levado a sério desde que pediu para que realmente o levassem a sério, foi cabisbaixo como se não chovesse.

Seus passos pesados o conduziram até o riachinho mais escondido que conhecia, para ali sentar-se um pouco.

Lembrou-se daquela tarde, que poderia tê-la esquecido.

Antes nem tivesse ido ao barbeiro naquela tardinha de sol em que a canseira deixara-o pusilânime o bastante pra nem querer discutir com quem estava disposto a considerá-lo um tolo por achar que o deixariam de considerá-lo um tolo porque tinha achado que o levariam a sério só porque pedira que não o vissem como idiota.

Desde então, os fregueses da barbearia pediam a ele que opinasse sobre o diabo a quatro. E ninguém se importava de fazê-lo de supetão, bastava que o vissem de bigode sendo aparado para que tomassem o que dizia como se da sua boca saíssem comentários indiscutíveis, cuja sabedoria dependia efetivamente da franja bem aparada.

Debaixo daquela chuvarada, o sapientíssimo solitário da franja bem aparada estava contrafeito de pensar que precisava refletir com menos seriedade nos problemas que afligem todo mundo.

Em confronto, tinha dois lados.

Não era alegre nem triste o tempo todo. Saía-se mal quando sofria por não conseguir pensar além da alegria e da tristeza.

Sem saída, a amargura o prendia. E mais amargo, mais infeliz.

Como a desdita era aguda quando garoava, gostava que chovesse forte. Como ele não vagou a esmo, foi ao ermo mais próximo, foi àquele riachinho sem nome, ao fiapo d’água no meio do mato, chovia forte.

Esgotado, nem o preocupou querer outra saída que não fosse ouvir o murmúrio do riachinho.

Tão sério, foi sem isca e vara.

Na ressaca do remorso, a solidão o abrigava à margem.

Com os pés fora da água, queria silêncio. Bem que o mundo poderia sossegar-se, para ouvir a chuva caindo.

Se tinha bigode e franja bem aparados, por que ansiava que não o censurassem por atirar pedrinhas na linha d’água do riachinho perdido no meio do mato?

Parou com as pedrinhas quando viu baratas saindo do chão.

As baratas vinham à tona da terra molhada por uma fissura no solo, e não paravam mais de sair daquele buraco.

Não eram formigas, pareciam.

Em alvoroço, era horrível. Eram inúmeros indivíduos alvoroçados. Tantas baratas brotando da terra, era um exagero, algo incomum.

Sentado na margem, tomando-as por saúvas, começou a pisotear as baratas. E tanto pisou que a terra molhada desbarrancou e ele caiu na água barrenta do riachinho esquecido no meio do mato.

ꟷ Se faço o que posso, por que me desfazer do possível?

E poderia ter ouvido música, feito um lanche, ter ido brincar com os cães, tirado as roupas do varal, chupado jabuticabas no pé, ou fechado os olhos.

Cansado de ser levado a sério, o homem sério jamais admitiria que nada tinha feito de divertido, que nem boiar no riachinho embarreado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2022.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As capicuas

 

As capicuas

 

Arrancaram-me um dente, mas não sinto dor.

Quando ainda o tinha na boca, evitava bebida gelada, rango quente e falar com empolgação. Embora vazia, a boca torta sorria.

Não imagino o horror que seria sofrer alguma disfunção neurológica que me tornasse insensível a dores. Tal condição não me paralisa, pois o dente foi arrancado na semana passada.

Dente é torrão de areia mascado como chiclete?

Para me desembaraçar da ansiedade, procuro controlá-la. Como se as complicações fossem um dente a doer sem mais nem menos, corto pela raiz a ideia da goma perdida do tutti-frutti açucarado.

A dor que poderia sentir acaso me distraísse, dela não guardo maior pavor que o momento da extração. Porque houve calafrios e apertei os braços da cadeira, pela aflição que eu poderia ter sentido.

Não senti, não sinto e não sentirei, pois acredito que a antecipação da dor faz muito para me convencer a parar com refrigerante, balinhas e bolos. Só preciso confiar em mim quando apresentarem bandejas de brigadeiros ou uma mesa coberta por copos de tubaína.

A semana passada mostrou-me a fortaleza que sei que posso ser: o dente extraído foi pro lixo, eu não o pus embaixo do travesseiro nem o joguei no telhado.

Se acreditasse na força dessas coisas eu as faria sem pestanejar. Contudo, não é porque não sou supersticioso que debocharei de quem as faça. Sou simpático a simpatias que não atormentam ninguém.

Aliás, agora me lembro.

Há duas semanas, outro dente foi subtraído a esta minha boca que tanto devora doces.

Da cadeira, observei os objetos, notei números e notei também que havia dezenas repetidas. Essas que se repetiam eram capicuas.

Mas as dezenas, aquelas com as quais não me importei de levar na cachola atulhada de fios soltos, elas mereciam outro olhar, a visão de que eu poderia torná-las a senha para um futuro menos escuro.

Se nas últimas semanas o futuro iluminado não me comovia, outro dia, nesta passada quarta-feira, não senti a agulhada na gengiva, senti pulsante o pensamento de que voltaria a sentir dor quando o efeito da anestesia passasse de vez.

Ontem, depois de terem-me extirpado mais um dente, o terceiro em quinze dias, estava parado na calçada, não era hora para esquecer as capicuas que li nas plaquinhas.

Queria apostar, mas eu lembrava das agulhas, das pontas finas das agulhas, lembrava as agulhadas. Cáspite! Eu queria aqueles números, os que o otimismo identificou como os duplos da sorte.

Não me queria abatido, frustrado pela memória fraca, entrei na fila e nela fui avançando, senha após senha.

A tarde estava linda, tinha sol dourado brilhando no céu anil, mas o tempo fechou. Virou em chuva o que era esplendor.

Fulano falou:

ꟷ O Cara Lá De Cima devia ter vergonha de pregar peça na gente honesta que sai de casa sem sombrinha.

Beltrano emendou:

ꟷ Pedro, o aporrinhador? Esse eu não conhecia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2022.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Um quarto de absurdos

 

Um quarto de absurdos

 

Desligo a TV, pois estão comentando o que não acho interessante. Quando a liguei, mostravam números num gráfico vistoso. Precisei de um segundinho pra entender que as fatias da pizza estão relacionadas com abstrações políticas, nada a ver com os preços de farinha, tomate, queijo e orégano, nem com a gorda gorjeta do garçom.

Porém, a razão precípua pra desligá-la é o silêncio pra cochiladinha depois que a gente descobre que está encrencada com a hora.

E o sono não apaga na mente a realidade do momento.

O real tem prioridades que o meu fastio com as eleições inventa de fechar a cara, pois os analistas projetam, por um mais um, que a parte significativa do eleitorado, que ajoelhará sem errar a reza nem mesmo ao imprecar pra cacete contra demônios que juntam pormenores sobre pormenores que mais confundem que explicam, esse quinhão exige de mãos juntas que tudo seja cobrado, tintim por tintim, a quem dorme no ponto.

Triiim! Triiim!

O alarme do celular soa como o clássico telefone de disco.

Triiim! Triiim!

Seu Rodrigues, o histórico do momento pede coragem para ficar na soneca a cada cinco minutos? Deixe-se ficar ou desligue-a.

Triiim!

Deve ser porque ando bebendo muita água que estou com sono, e não julgo correto dizer que quem quer dormir um pouquinho mais seja um camarada preguiçoso.

Sujeito preguiçoso encara dois litros de água por dia?

A água limpa o corpo, tira do sangue as toxinas e conduz o oxigênio ao cérebro sem maior consumo de energia; e o menor gasto de energia permite à mente trabalhar melhor sem que o cansaço prevaleça.

Logo, o sono é por esgotamento mental, não por fadiga.

Quando estou fatigado, procuro dormir na posição que nem me faça sentir o travesseiro, o colchão, os cobertores e a bexiga.

E o danado do diabo que se mija de tanto rir?

A consciência sabe o que é preciso pra conservar o colchão seco.

Já a fronha fica babada, porque sonho de boca aberta. Ao visualizá-la salivante, digo-a asquerosa, assaz nojenta, demais repugnante.

Fecha-se o círculo: pela visão, eu babo ainda mais.

É pela boca que demonstro a minha satisfação pelo copo d’água ao lado do celular. Algo útil, porque me socorre quando ronco até secar a garganta. É recurso que aprendi a utilizar de modo racional.

Como prefiro passar a noite sem consultar a hora, gosto de sonhar com o copo cheio, e eu babo que dá gosto.

Para que cinzeiro no criado-mudo se não fumo?

Acredito que o inconsciente até queira aprontar. Mas a memória dá a entender que piada contada de trás pra frente perde a graça. Mas a ansiedade, mal a história comece a ser contada, ainda que de trás para frente, a ânsia faz rir ꟷ de nervoso, mas faz.

Triiim! Triiim!

Pra neutralizar suposições disparatadas, falta dizer que achara que tinha acordado, desligado o alarme e me ligado na TV, mesmo com o quarto a recender a orégano às seis da madruga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2022.

domingo, 16 de outubro de 2022

O caos nosso

 

O caos nosso

 

O vizinho trouxe um balde com garrafinhas e sentou-se na cadeira de vime. A sua varanda não o isolava e, depois de uma semana de céu cinzento, só os infelizes fechavam a cara, a desdenhá-lo pelo privilégio de beber antes do meio-dia.

Fumando as baganas que alcançava sem tirar a bunda do lugar, o homem tinha muito no que pensar. O curativo da canela precisava ser trocado; as unhas estavam compridas; além de imundas, suas roupas fediam a urina; desde outro dia, começou uma coceira que a cabeleira não deixava ver se eram lêndeas que a provocavam.

Do outro lado da rua, duas jovens arrancavam matos das jardineiras quando um grupo veio entregar-lhes panfletos. Elas agradeceram, mas não disseram os seus nomes. Que Deus abençoasse a todos, a quem pedia-lhes que aceitassem panfletos e orações personalizadas e a elas que estavam empenhadas em limpar as suas roseiras.

Do outro lado da rua, também surgiu um grupo que ia entregando o mesmíssimo material e ia solicitando nomes para orações.

Sentado no meio-fio, ao homem que desmontara a sua barraquinha quando o joão-de-barro começou a cantar no alto do poste não lhe foi lido trechinho algum do Novo Testamento nem a ele foi perguntado por que as suas coisas todas cabiam na mochila ao pé do poste.

As pessoas dirigiram-se ao homem que bebia cerveja na varanda e ofereceram-lhe os panfletos, pediram autorização pra pôr seu nome na oração da noite e vendiam os livros que eram fonte confiável de ações cristãs, e verdadeiras pechinchas.

Da varanda, o vizinho disse o nome, desejou boa sorte com a venda dos manuais e que a tarde fosse mais bem-aventurada que a manhã.

Pela banda de lá e pela de cá, compenetrados em passar a Palavra a quem a acolhesse, os homens e as mulheres iam devagarinho.

Como o casal da casa ao lado da minha tinha deixado o quintal, a mulher que aparentava ser a mais jovem do grupo não pediu ordem a ninguém para enfiar, dobrados, na caixa de correio alguns folhetos que fora encarregada de divulgar.

Sem intenção de receber agrados do homem sentado na sarjeta, o vira-lata cotó foi direto à esquina, uma vez que seu olfato o tinha guiado à cadela acochada por uma cachorrada muito entusiasmada.

Se ficasse nisso, noutra manhã de sábado como outra qualquer, eu nem teria atravessado a rua, mas aceitei o convite quando vi o vizinho da frente abrindo passagem àquele vagamundo.

Sentamos os três e conversamos. Bebemos e soltamo-nos.

Menos constrangido, o nosso mais recente vizinho disse que estava cansado de ficar drogado. A sua mudança para esta rua foi necessária, pois ele queria parar com “ganja e caninha”. Se conseguisse dominar-se, os filhos viriam vê-lo, pois birita o transtornava, deixava-o intratável, violento, exemplo da pior espécie.

Foi a essa altura que a conge do dono da casa apareceu pra acabar com a nossa festinha na varanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2022.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O lápis

 

O lápis

 

Tenho um gênio terrível?

Uma vez que nem o almoço atrasa porque refugo alterar o cardápio tendo as panelas no fogo nem o açúcar em demasia põe-me suarento depois do jantar, a minha alma pacificada prepondera.

Em dias assim, não há terror que me descalibre o humor.

O que me estimula a sentir o mundo de modo sereno, a aceitá-lo tal qual a mim ele se apresenta, é cuidar do momento, sem me preocupar que eu bufe por ninharia ou nem note que não respiro pela boca.

Pretensamente, pacifica-me pensar um pouco menos.

No vazio de outra tarde sem tarefas, um lápis calha de orientar-me para uma diversão singela: rabiscar.

Não sei desenhar. Se copiasse quem admiro, adestraria a mão.

A mão treinada de gente sem talento torna indisfarçável que não se aprimora o que não se tem, revela-se a vocação para simulacros.

Talvez eu aproveitasse melhor a folha em branco se a cobrisse com palavras. Se eu escrevesse alguma crônica ligeira, certamente poderia me contentar, porém não busco contentamentos.

Nem escrevendo que rabiscos são rabiscos nada mais que rabiscos num papel outrora em branco, tal redundância não me alegraria.

Como o coração palpita tranquilo e a cachola matuta sem astúcias, meus pensamentos assobiam melodias como nuvens.

Compondo e recompondo, traçando e traçando, não ponho a árvore ao lado da casinha com chaminé, pois não quero que as minhas curvas e retas arremedem a realidade bucólica de uma criança feliz.

A ideia de que sou feliz feito criança é um pensamento bom.

Bom para mim que rabisco como se a folha fosse o céu; e nele vejo um sol virar flor, a flor virar cachorrinho, o cachorrinho virar um homem de palito que vira nuvem; e nuvens que não param se transformam.

Minha carranca é faceira. Faço caretas, ponho a língua de fora, ergo o mindinho, sorrio, grunho baixinho: me entusiasma desenhar.

Não é porque meus borrões vão surgindo e adensando-se que me sopro pelas fumaças de Rembrandt, Monet, Pollock. Daria por ridículo se me desanuviasse em artista, que nunca fui nem sou.

Sem afobação, sem supor rancores nem ardores e sem me inflamar pelo que deveria estar sentindo como brasa, desenho, desenho, e tudo muda porque minha mão é viva, não se detém no desenhado.

Tanto serena desenhar, que nem temo o estilete ao apontar o lápis, aponto-o e pronto, sigo numa alegria benfazeja.

Não percebo nem preciso perceber, mas continuo esse menino que acha divertido passar a tarde sem fazer nada que não seja usar o lápis como lápis.

Criança afeita a parir caraminholas sem se vexar de tê-las no papel, me identifico com esse menino caraminholado.

Criança que sempre gostou de traçar linhas sem direção e sentido obrigatórios, fico sossegado, tão sossegado, que nem sinto vontade de tomar café com biscoito.

A tarde está quieta e pouco amedrontadora, mas nem assim eu me retrato outro menino, menos abstrato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2022.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Pombas!

 

Pombas!

 

São três horas. Nem é necessário conferir no celular, pois o homem na praça é um personagem conhecidíssimo.

Ele solta uma pomba precisamente às três horas. E ninguém duvida que o seu relógio esteja certo, uma vez que esta história teve início há nove anos.

Era domingo de Páscoa e sua família estava reunida, pois uma das suas netas faria a primeira comunhão na missa das três.

Sem sinos que anunciassem a cerimônia, somente no dia seguinte soube o tanto de emoções que perdera.

Ele chegou para um cafezinho. E mais quieta que o costume, a filha resolveu lavar as xícaras, menos a que ela lhe deu.

A ele não entregara o café adoçado, que fizesse a gentileza de pôr o quanto quisesse de açúcar. Daquele mascavo, porque não tinha mais do refinado, o preferido dele.

O pai desconfiava que alguma coisa acontecera. E algo grave, pois até a neta, sempre tão carinhosa, nem tinha vindo pedir benção.

Pra seu desagrado, outra das suas filhas chegou como se estivesse com muita pressa, que não teria tempo para ficar conversando. Ela só passou pra deixar o catálogo dos cosméticos que revendia.

A filha apressada disse que, discretas porque sentidas, as lágrimas da irmã foram tão comoventes quanto às da menina emocionada com a primeira hóstia.

Menina?

Era uma adolescente dos seus doze anos, que nem viera pedir-lhe a benção. Ela era uma rebelde, pois as primeiras espinhas mostravam as perturbações que apagavam a garota que fora tão meiga, tão doce. A antiga menininha educada que ainda ontem não se negava a mostrar respeito pelos mais velhos, tal pessoa adorável não existia mais.

E ele não era apenas alguém mais velho, era o pai da sua mãe. Ela demonstrava despeito não só pelo avô, também, e principalmente, pela mãe. E mãe alguma merece ser afrontada de tal modo, ainda mais por uma guria de aparelho nos dentes.

Pra quem nem se dignou a mandar o recado de que não iria à igreja, era absurda e arrogante a cobrança de quem dispensa o remorso.

Educadas por uma pessoa que nunca vestia a carapuça de mulher afável que a tudo aceita sem questionar os porquês, as irmãs trocaram olhares de gente zombeteira que sorri diante de quem pede reverência automática em vez de entendimento amoroso.

E a adolescente despudoradamente rebelde estava no colégio, pois era dia de aula. A insurgente só faltava quando a febre, a tosse e a dor de cabeça eram maiores que a sua vontade de ir à escola.

O homem daria jeito naquela irresponsabilidade: todos os dias, com sol ou chuva, diante da igreja, soltaria um pombo às três da tarde.

Nem todos os caretas são carolas, porém, dos primeiros, estes são os mais chatos, porque não perdem a oportunidade de humilhar quem entendem os mais estúpidos dos sacripantas, os energúmenos.

Mas os elegantes rotulavam de pitoresco aquele protesto, Silviano de San Thiago, todavia, nada tem de doido ou extravagante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2022.

domingo, 9 de outubro de 2022

O mundo dos sonhos

 

O mundo dos sonhos

 

Depois de outra jornada com mais tarefas que mãos, queria dormir.

Como seis horas mais tarde teria outro dia com menos alegrias que aborrecimentos, que eu caísse no sono o quanto antes.

O mundo não tem que atender minhas expectativas apenas porque prefiro muito mais rir a engolir a seco de vez em quando.

Nem a realidade condiciona os acontecimentos pra que à minha voz sobrevenha uma rouquidão cavernosa nem levo uma vida muito louca para gargalhar com o pastelão da torta na cara.

A minha cama é firme, mantém os quatro pés pousados no carpete de madeira. Nela eu me deito quando estou cansado, com sono ou pra uma escapadinha das palhaçadas do cotidiano.

Por que não conseguia dormir?

Sem que a luz da rua invadisse o quarto pelas frestas da veneziana, era certo que a escuridão estava brincando comigo.

Uma luzinha me fez correr as cortinas para que o breu cortasse no nascedouro a tolice de me transformar num insone só pela suposição de que era noite de lua cheia.

Quando estou exausto, irrita-me ficar acordado.

Se há no mundo lugar melhor pra pensar na vida, desconheço outro que me cative mais que a minha cama. Mas no quentinho das cobertas, avesso a seguir pensando no que fiz de bom ou nos erros que poderia ter evitado, o que eu mais precisava era roncar.

Ainda que não houvesse claridade alguma, o sono não vinha.

Não vindo o sono, a impaciência tornava exasperante o diálogo de mim comigo. Enclausurado na ideia de que deveria estar dormindo, eu sabia que deveria ter necessariamente adormecido.

Estúpido foi confirmar que a escuridão a me envolver deixava ver o quanto estava escuro. Já o teto, podia senti-lo mais baixo.

Não apenas o teto. Como não conseguia vê-los, também os móveis davam a sensação de que espreitavam.

Ora, tudo seguia no lugar de sempre: a natureza morta continuava parada; quem estava irritado já se exasperava.

A cabecinha fazia do quarto um lugar desconcertante, um casulo do qual sairia o mesmo apesar de um tanto mudado.

Vivo, e não sou indiferente ao que vivo.

Se o tempo existe pra asseverar que o caráter faz o destino, não o contrário, lutarei quando for preciso, arrancarei do flanco os aguilhões, confrontarei quem me passa para trás na fila.

Quero respeito, mas fraco, covarde, ingênuo, não levanto a cabeça, não ergo a voz, não esbravejo nem esperneio, não sacaneio, nada faço por mim que me proteja dos outros, que me alie aos vulneráveis, a mim me aproxime de quem também é passado pro fim da fila.

Quem chega depois de mim, esse é chamado à frente. Quem passa à frente chama quem chega outra vez depois de mim, isso deixa a fila bem maior à minha frente.

Em pé na fila, meus pés me incomodam, minhas canelas formigam, flexiono os meus joelhos, endireito a minha coluna, meus olhos pedem colírio, urgente é ter o que não tenho.

Quero me livrar do que tarda a passar, hei de alvorecer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2022.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Possesso

 

Possesso

 

Se nunca disse, já deve ter escutado alguém dizer “não posso ouvir o nome daquela desgraçada”, porque a essa maldita estão associadas reações, no mais das vezes coléricas pelos transtornos que a menção evoca, que nem lhe ocorre amenizar o tanto de “ódio e nojo àquela filha de uma figa”.

Não julgo a pessoa pelo excesso de bile que o fígado produz, pois não sou nem quero ser juiz. Não alimento o engano de achar que tenho cabeça boa, ajuizada, no lugar, centrada.

Reconheço que eu sou um sujeito esquentadinho. Como resistência de chuveiro, esquento fácil. Viro uma coisa difícil de engolir, tanto que muita gente sabe o meu nome e há quem invente codinomes, dos mais apropriados até os bizarros.

No tempo que eu não fechava a boca sequer no minuto de silêncio, os professores me chamavam de Chacrinha.

Eu achava o máximo que houvesse algo comparável com o Velho Guerreiro. Como era uma criança magra, eliminei o barrigão. Pela voz fininha de menino tímido, não podia ser a buzina. Continuei Chacrinha mesmo sem saber por quê.

Loiro aguado de cabelão pelo ombro, virei Vanusa.

Por que tem ouvido, adolescente escuta?

Eu ouvia. Talvez fosse pra ser ofensivo, mas eu ouvia sem me irritar com os adultos mais babacas. Entre nós, os meus amigos e eu, ríamos da venerável autoridade que professor possuía na sala de aula.

Sei lá o que acontece comigo quando recordo um ou outro nome.

Lembro-me das roupas, dos gestos, dos tiques, muita coisa me vem à mente, menos a voz. Imagino a lousa cheia de lição, visualizo a figura de régua na mão, e nada da voz querer revelar-se.

Quando dou com antigos mestres, eles ainda me são estranhos.

Passaram-se os anos. Foram-se as décadas. 20 virou 21.

Hoje, escarro quando não estão vendo ou tusso. Aprendi que minha garganta livra-se de incômodos com tossidinhas ou expectoradas sutis.

De todo modo, procuro passar despercebido.

Cultivo a invisibilidade porque eu gosto de andar por aí sem que me identifiquem. Mas é difícil sair à toa, pois muita gente sabe meu nome; e tem um pessoal que inventa alcunhas como se isso me irritasse.

Caramba, não cuspo fogo se me chamam de Dodói.

Sem dúvida, minha gastrite é folclórica.

Não vou a almoços imperdíveis, pois churrascos são marcados por gente que consegue comer até duas fatias de uma quatro queijos com borda recheada. O quê? Meus sábados só acabam comigo lambendo os dedos.

Muitos me acusam de misantropo enrustido. Se estivessem no meu corpo, saberiam que sofro um bocado depois de uma calabresa assada em forno à lenha.

Pode até ser que eu lhes pareça um bom de bico, mas não mentiria a queimação que realmente me tira do sério.

Doido, eu?

A cachola segue ligada ao tronco pelo pescoço, por isso não chupo manga quando assobio.

A careca brilha pela pele oleosa, não porque passe babosa.

Não acredito que me achem virado num Dodói Doido, grilo da cuca!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2022.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Criancice

 

Criancice

 

Quando a campainha alertou qual era minha circunstância, que eu estava distraído para o mundo pelas tentações do celular, assustei-me que o palavrão foi mais defesa inútil do que ataque boçal.

Com o pastel à porta, desamarrotei roupas e rugas com a sacudida que sei providencial. Se bem que o pigarro foi para aliviar a garganta, não um recurso costumeiro de pessoa acomodada.

Tinha que me recompor para não ser visto amarfanhado na euforia de paspalho, porque eu estava babando com as minhas sacadas. Sim, gente esperta também zanza por gráficos e tabelas na perseguição das relações misteriosas que inventam a realidade.

O rapaz que entregava os pastéis percebeu meu esforço de mostrar uma carinha simpática, pois eu não estava muito a fim de compartilhar um tostão da minha riqueza interior.

Nem um pouco miserável com as ideias estapafúrdias, eu brincava como criança. Juntava voto envergonhado com voto mentiroso, antevia estradas íngremes, vislumbrava poços sem fundo, temia pelo equilíbrio mental de gente afim ao meu gênio.

A minha alma tem uma queda pelo sossego, um fraco pela paz, tem forte tendência a pedir abraços a quem dá um passinho atrás logo que me vê ansioso por um chameguinho o mais espontâneo possível.

Tolo carente de beijinhos, fingi que não me acanhava de oferecer a face a quem não a aceitava tão oferecida.

O moço era neto do doutor Zequinha, o dentista do grupo escolar.

Zequinha cujas brocas lapidavam dentes como pedras brutas, putz!

Por lembrar a maestria do avô, pedi notícias do pai.

Outro Zequinha, outro dentista, e outro partidário de tratamento sem aplicação de anestesia. Pois é, as pessoas têm que conhecer a dor pra valorizar as verdadeiras agulhadas da vida.

Vertiginosa feito ferroada, a gengiva latejou que massageei o rosto de tal maneira que o moço não notasse meu desconforto. Acho até que ele entendeu que eu queria puxar assunto.

ꟷ Isso de entregar pastel é coisa temporária. Só estou ajudando um amigo. Assim que conseguir uma bolsa, volto pra faculdade de odonto. Porque o senhor sabe como é, isso de virar dentista é tipo uma tradição da minha família, né? E quem tem cabeça boa tem mais que se inspirar nos bons exemplos, principalmente quando eles têm o mesmo sangue que eu tenho. E com o sangue não se brinca de jeito algum.

Não tive tempo de falar o que fosse, já que ele, montando na moto, ficou grato pela gorjeta que achou merecida pela rapidez na entrega.

Em tempos bicudos não dá para ignorar um realzinho sequer, mas fiquei sem saber quanto era meu troco, pois o rapaz virou um cisco mal lhe entreguei o meu suado dinheirinho.

Ainda por cima, o fanfarrão fez o desaforo de buzinar sem ao menos olhar-me a gesticular como idiota no meio da rua.

Gritei. Pedi que parasse. Sem mais o que fazer, chorei de raiva.

Como fui tonto!

Ninguém ouve direito quando usa capacete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2022.

domingo, 2 de outubro de 2022

O sol, o sal, o sim

 

O sol, o sal, o sim

 

Como pessoa a quem não se afiance responsabilidade pelo que diz, tendo adiantado que só no sábado estaria livre para vir, Luisinho veio na sexta-feira.

Soube que o fim de semana seria chuvoso o tempo todo, antecipou a vinda.

Ele poderia ter avisado que chegaria na hora do almoço, porque eu sequer havia preparado comida para mim.

Comeríamos salada. E beberíamos groselha.

A mistura seria sardinha em conserva. Eu abriria duas latas, porque meu amigo folgazão não chegou só. Acompanhava-o alguém que julgo o mais racional dos meus amigos, Erasmo.

A vida toda Erasmo foi a vareta que é, e com a sutileza elegante de Sócrates pra dar de calcanhar, ele cortou pro quintal.

Fôssemos colher verduras, pois, se resolvêssemos sentar-nos pro cafezinho, passaríamos a tarde a reviver fantasias.

É que, nas tartamudas leituras escolares, nas empolgantes peladas de tênis feito trave e nos degradantes cartões vermelhos às chacrinhas de coroinha, nós fomos meninos de turma.

E nossa patota era porreta.

Íamos comer biju na fecularia ainda que a aula de religião fosse de prova. Deixávamos ruas às escuras com nossas estilingadas certeiras. Uma vez que bem sabíamos que o éramos, éramos fogo.

Mais destrutivas eram as saúvas, porque elas faziam a festa com a horta do quintal. Mas, o que fazer com as daninhas?

Sem economizar no sal grosso, que repeliu de pronto as famélicas cortadeiras, Luisinho, Erasmo e eu cercamos os canteiros de legumes, verduras e hortaliças.

E alface, tomate e cebola foram à mesa como salada.

Luisinho acordou com barulho de água.

Tonto de tanto sonhar uma escapatória à situação constrangedora, ele concluiu que a vizinha tinha deixado aberta alguma torneira.

Mesmo que não fosse lavar roupa, ela tinha o costume de encher o tanque para que o filho se divertisse um pouco, deixando que enfiasse a cabeça na água, estimulando-o que, de fato, mergulhava no córrego que serpenteia além das árvores do quintal.

Suado, preso no pesadelo de acompanhar cada uma das bolinhas da loteria sendo cantadas a ele que tinha um lápis cuja ponta quebrava tão logo se punha a anotar os números, Luisinho achou que estivesse chovendo.

Erasmo cuspiu groselha no prato em que comia: carvalho!

Para quem olha da varanda, o carvalho da direita é uma goiabeira, o da esquerda é uma pereira; e bem no centro está o abacateiro.

Disse que não vingou a macieira que plantei na primavera passada: deu bicho nas folhas, fungo nas raízes e cupim no tronco. Fui obrigado a pagar que a sacrificassem e a sua lenha serviu para uma fogueira no último São João.

Depois de bebermos, comermos, rirmos, chorarmos de tanto rir, nós três, o Luisinho, o Erasmo e esse que conta a você que me lê e a quem você queira ler o que houve antes do sábado, nenhum fez segredo do voto a ser dado no domingo:

ꟷ Pelo Estado Democrático de Direito, sim!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de outubro de 2022.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

A matilha

 

A matilha

 

ꟷ Mestre, tenho feito muita coisa legal pro mundo ficar bacana.

ꟷ Nem me diga, gafanhoto.

ꟷ Pois, eu digo. Quando chove, não ponho boné nem me recrimino se esqueci do guarda-chuva. Pois ando com água escorrendo da testa pro olho sem ligar para chuvinha prazenteira, que nem iria parar só por causa das minhas implicâncias.

ꟷ É gente boa quem aceita a natureza como ela é.

ꟷ Ando na chuva com gosto, mas desgosto de caminhão fumarento na subida do morro. Respeito quem puxa a fila, mas lerdo atrasa todo mundo em estrada sem faixa extra.

ꟷ Desespero de quem se apega a destino sem sentido.

ꟷ Lá bem do alto dá para medir morros, vales entranhados e pastos verdejantes. A minha alegria é saber que águas represadas não negam peixe a pirão, braseiro ou panela de pressão.

ꟷ Também se vê ciclistas que nem minhoca pelo chão.

ꟷ Mestre, a vida são ciclos. Nos dias de semeadura, não há messe. Sem dinheiro no bolso, não fico pelado como quem faz a nudez revelar modéstias. Coloco jornal cortado feito cédulas, encho a carteira até que fique parecida com o bojo estufado de leitoa a ponto de abate.

ꟷ Gafanhoto, cuidado, quando o salário é mínimo, que esse mínimo seja em notas de cinquenta, haja sessenta notas de cinquenta por mês, duas notas por dia, pelos trinta dias de todo mês, que fevereiro também tenha sessenta notas como os demais, e seja a mais nunca por menos, seja pela felicidade como bem lhe aprouver, meu justo aprendiz.

ꟷ Sim, aprendo com sabedoria, é sábio querer do bom e do melhor, até que a morte separe do espírito o que não seja carne.

ꟷ Cuidado, sábio que tanto aprende, o mundo é sujo.

ꟷ Que o mundo sujo se apresente como imundo inocente.

ꟷ Gafanhoto, sei tanto que até aprendo.

ꟷ Eu o defenderei. Blindado na lição, me fingirei convicto que tenho o que falta. Eu terei a vantagem de ostentar prestígio ao tê-lo como se fosse verdadeira honraria levar uma vida em tanto vantajosa.

ꟷ Gafanhoto, ninguém deixa rastro de lama no lamaçal.

ꟷ Mestre, gritarei para que o tirem do pântano.

ꟷ Mas grite que me tirem. Pois se o ignoram, insista.

ꟷ Não desistirei. E gritarei até que um cão comece a latir. E latirá e outro cão latirá e muitos cães latirão e haverá uma corrente do barulho e a madrugada será reconhecida pela cachorrada que não dorme.

ꟷ E haverá alvorada quando uma lâmpada for acesa no primeiro lar e outra residência terá mais uma lâmpada acesa e outra lâmpada será acesa em outra casa e muita gente temerá gatunos atiçando cachorros nos quintais, virão viaturas acionadas e, sem espantar quem ambiciona a gaita que lhes toca, a manhã será tecida por sereias desligadas.

ꟷ Deito cedo e saio antes que amanheça, ignoro o que late.

ꟷ Quem bebe leite e come pão é quem jamais defeca ouro.

ꟷ Mestre, existem madrugadores feitos de ouro?

ꟷ Pra que existem, isso eu bem sei.

ꟷ Eles escondem ossos?

ꟷ Cães! Sempre deixam tesouros na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2022.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Direito de resposta

 

Direito de resposta

 

Hora da janta. Mas, quede que a lâmpada acenda?

Ainda ontem passei pelo mesmo perrengue, e me fiz a mesmíssima promessa, pois me compromissei comigo que resolveria.

Como desmazelos desabonam, reforço a credulidade em mim e vou efetivamente dar jeito na coisa, de amanhã não passa.

Posso culpar a vida contemporânea que torna insuficientes as vinte e quatro horas. Que o dia tivesse mais horas, isso ajudaria.

Não vou calcular quanto a mais seria necessário, pois o tempo que se mede pela produtividade também se mede pela afetividade.

Falo por mim como se falasse uma verdade apreensível a qualquer pessoa, pois puxar sambas à boca da churrasqueira é voar a tarde pra noite. Poxa, quede a Jovelina que está faltando cantar?

Para que o salário não termine antes do final do mês, que os preços sejam pesquisados, seja confirmado o estoque em loja a uma pernada breve, seja a lâmpada comprovadamente durável.

Ter internet no telefone ajuda a encontrar loja, preço e tipo, contudo celular algum põe funcionários socorrendo relapsos com problemas de última hora. Putz, quede emergência durante o expediente?

Se bem que o gás geralmente acaba com o arroz no fogo. Todavia, há que se perdoar quem não tem que se preocupar com botijão trocado quando é preciso. Aliás, não reclamo de barriga vazia, porque lâmpada que não acende é o problema que chateia neste instante.

Ao longo do dia, não fiz da troca de lâmpada um assunto premente. Cuidei do que tinha pra me ocupar. Fiz os serviços que tinha pra fazer. Do supermercado, trouxe pãozinho e leite. Peguei fila, paguei contas e fiz aposta numa lotérica. Parei à porta dos comércios, porque a eleição é papo que não dá pra evitar. Caraca, quede que não se ilumina quem mais precisa de luz nesta hora?

Cá pra nós, que os radicais não nos puxem pelo pavio curto, só que olhar o céu pra afirmar em quais condições estará o tempo no domingo é coisa que não faço.

Não sei qual é a previsão do tempo pra domingo, entretanto sei que há computadores processando os dados coletados por vários satélites, privados ou públicos, de diferentes tamanhos, com lentes de recursos variados, mantidos em órbita pois são interessantes não só a ufólogos, porém, principalmente, a agricultores, pecuaristas, geólogos, biólogos, ecologistas, ambientalistas, militares, civis e muito mais gente de áreas que nem me ocorre especificá-las agora.

Estou de volta ao meu agora ao qual me volto.

A este presente, de escuridão porque deixei de ir comprar lâmpada na loja que fica a um quarteirão de casa, é por ele que devo responder e responsabilizar-me.

Quede que me faço útil pra enxergar o que janto já que de noite não tem sol mas tem luz vindo da rua?

Como sempre eu faço o melhor que posso, amanhã mesmo vou dar um pulinho na loja. E substituirei a lâmpada queimada, pois com minhas mãos porei a nova.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2022.

domingo, 25 de setembro de 2022

Fraco da ideia

 

Fraco da ideia

 

Durante o noticiário das quizílias que a muitos magoam, deixo sem som o telejornal. Por demais repetidas, as figurinhas de valor garantido fortalecem o que falam com a cara de gente honrada a carimbar futuros melhores, melhor ajustados às esperanças de quem não perde a ilusão de vivenciá-las em breve.

Assistindo a tão valorosos porta-vozes do combate contra verdades putativas, creio ridículo situar aleatórias as conexões protelatórias.

Chafurdaria nos pântanos da apatia se fugisse da responsabilidade de responder pelo que não faço, escuto-os, tanto que a eles interpreto que a mim nem me percebo leviano de tão gaiato.

De modo algum me arvoro um roteirista profissional, me entretenho a adivinhar com quais palavras tantos devotados representantes vão à ribalta enaltecer a minha vulgaridade de eleitor.

Democrata dado a calmarias em copo d’água, não espumo de raiva porque saliva quando é muita até engasga.

E uma algazarra me tira da poltrona. Pela fuzarca, ponho graça que acompanharei o que se desenrola com interesse maior do que sustento por patacoadas políticas. O cínico que espia TV não mofa de quizumba em quintal vizinho.

Ó balbúrdia que fulmina minhas maníacas risadas demoníacas, não fico pasmo quando bisbilhoto camaradas baderneiros, emudeço.

Não vi o patético havido, mas o soube depois.

O filho mais novo da casa ao lado caiu da árvore. Quis salvar o gato que miava desesperado, mas deu com o peito no tronco. Meninão que muitos consideram tapado e não astuto como a irmã de treze anos, ele buscou uma escada pra subir. Mereceria elogios se um abacate não o tivesse abalroado em pleno pulo.

Cáspite!

Com a batida da bunda no terreno e o berreiro histriônico do menino com o galo latejando na testa, mais do que previsível, o sumiço do gato era evidente.

E ninguém fala que o gato está sumido?

A mão amiga da mamãe ampara o meninote.

Alguém sabe onde o gato está escondido?

A lábia mui amiga da maninha diz sem dizer que o franzino rapazote não é pintinho nem frangote, é um galinho muito fracote.

Nisso, todo mundo corre atrás da galinha.

Que galinha?

Preocupado com o gato, o menino não viu galinha alguma.

Chocando ovos no ninho que fizera em um galho acima do gato que miava alucinado, a pobrezinha, a desvalida, tão agoniada com o gato que não parava de miar, a ignorada que sequer piava, esse bicho que espreitava por entre as folhas do abacateiro, pois foi essa fera que veio do nada.

Tendo voado para lá do muro, a galinha sem ovos de ouro tem valor pelo que bota. É por isso mesmo, caraca, que eles gritam atrás.

Sem disfarce, sucumbo ao disparate: sorrio.

Melancolicamente, observo que guardo pra mim o que tanto me faz sorridente.

O trapalhão passa num tropé. Penso, assim não digo:

ꟷ Ô imbecil, qual é a cor da galinha carijó quando foge?

Ele não capta o meu pensamento nem mesmo a galinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de setembro de 2022.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O espantalho

 

O espantalho

 

Vestido com a camisa do seu time, está na rua. Duas horas da tarde de mais um dia útil, por outra das tantas ruas da cidade, vai a esmo.

Percebe os olhares, tenta lê-los. Parecem aborrecidos.

Como se todo mundo estivesse incomodado com o tanto de serviço que se acumula em cima da mesa, ainda assim, toma sorvete.

Sairá do banco depois de acabá-lo. Comerá a casquinha. Lamberá os dedos. O guardanapo virará uma bolinha, arremessada a um metro e meio da lixeira. Errando feio, levantará pra jogar o lixo no cesto.

Cansaço mental é novidade que ninguém acalanta. Que chega aos poucos, sem fazer fanfarra, vai ganhando peso, tornando pesado o que não tem forma nem localização precisa.

Pra desanuviar-se, faz bem dar um rolê.

Como não fuma, rói a unha. Porque está cedo para cerveja, masca chiclete. É óbvio, faz bola. Gosta de tê-la feito. Pra estourá-la, faz outra. Desgruda do rosto os restos da bola. Cava caca da narina. Dá peteleco na bolota. Se não fuma, por que pigarreia? Não entende.

Passa pelo carrinho de pastel, e para.

Volta que nem pensa ao pedir um pastel frito na hora.

ꟷ De pizza acabou.

ꟷ Tem de carne?

Um menino joga um pedaço de pau. Um cachorro corre pegá-lo. O menino atira-o outra vez. O cachorro trá-lo de volta pro menino. O pau está babado. O cachorro late. O menino ri.

ꟷ Cara, você não tem uma nota menor?

ꟷ Me veja outro e inteire o troco com chiclete.

O homem com o dez às costas nem percebe que está rindo. Morde e ri. Rindo alto, o homem nem nota que está comendo de boca aberta. Ele mastiga enquanto ri. Espalhando farelos, ele gargalha.

ꟷ Também quero um copo de garapa.

ꟷ Pequeno, médio ou grande?

ꟷ O maior que tiver.

Olhando pro homem no carrinho de pastel, o menino atira outra vez o pau. O cachorro vai, pega e traz de volta o pedaço de pau.

O cão late. O homem ri. O menino gargalha.

A gargalhada do outro lado da rua faz com que a mãe corra pegar o menino. Mesmo no colo, o travesso ainda consegue atirar o pau para o cachorro ir pegá-lo mais uma vez. A mãe sequer sorri.

Ouvindo a mãe que ralha com o filho, o cão ignora o graveto atirado. Ele pula a mureta, e vem latindo pras bandas do barbudo.

O cachorro poderá atacá-lo? O homem para de gargalhar na hora.

Já que o homem cuida apenas da garapa com o pastel, o cachorro recua. Sem parar de latir, o bicho pula de volta pro quintal.

Que cara mais esquisita a dessa mulher!

O moço do carrinho não responde, pois está concentrado, tem que fritar os pastéis que as duas mulheres acabaram de pedir-lhe.

Na sua opinião, ele não fez nada de errado. Só achou engraçada a risada do menino. Como tem gente de mal com a vida. Então, a pessoa que está de bem com o mundo, então, ela não pode nem rir à toa?

Ninguém respondeu nem deixou de franzir a testa.

Dando-lhe os chicletes, o rapaz estranhou a camiseta.

De peito estufado, beija o escudo três vezes e tasca:

ꟷ Bá! Deus me livre de ser tricolor!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de setembro de 2022.