As
capicuas
Arrancaram-me um dente, mas não sinto
dor.
Quando ainda o tinha na boca, evitava
bebida gelada, rango quente e falar com empolgação. Embora vazia, a boca torta
sorria.
Não imagino o horror que seria sofrer
alguma disfunção neurológica que me tornasse insensível a dores. Tal condição
não me paralisa, pois o dente foi arrancado na semana passada.
Dente é torrão de areia mascado como
chiclete?
Para me desembaraçar da ansiedade, procuro
controlá-la. Como se as complicações fossem um dente a doer sem mais nem menos,
corto pela raiz a ideia da goma perdida do tutti-frutti açucarado.
A dor que poderia sentir acaso me
distraísse, dela não guardo maior pavor que o momento da extração. Porque houve
calafrios e apertei os braços da cadeira, pela aflição que eu poderia ter
sentido.
Não senti, não sinto e não sentirei,
pois acredito que a antecipação da dor faz muito para me convencer a parar com
refrigerante, balinhas e bolos. Só preciso confiar em mim quando apresentarem
bandejas de brigadeiros ou uma mesa coberta por copos de tubaína.
A semana passada mostrou-me a fortaleza
que sei que posso ser: o dente extraído foi pro lixo, eu não o pus embaixo do
travesseiro nem o joguei no telhado.
Se acreditasse na força dessas coisas eu
as faria sem pestanejar. Contudo, não é porque não sou supersticioso que
debocharei de quem as faça. Sou simpático a simpatias que não atormentam
ninguém.
Aliás, agora me lembro.
Há duas semanas, outro dente foi
subtraído a esta minha boca que tanto devora doces.
Da cadeira, observei os objetos, notei
números e notei também que havia dezenas repetidas. Essas que se repetiam eram
capicuas.
Mas as dezenas, aquelas com as quais não
me importei de levar na cachola atulhada de fios soltos, elas mereciam outro
olhar, a visão de que eu poderia torná-las a senha para um futuro menos escuro.
Se nas últimas semanas o futuro
iluminado não me comovia, outro dia, nesta passada quarta-feira, não senti a
agulhada na gengiva, senti pulsante o pensamento de que voltaria a sentir dor
quando o efeito da anestesia passasse de vez.
Ontem, depois de terem-me extirpado mais
um dente, o terceiro em quinze dias, estava parado na calçada, não era hora
para esquecer as capicuas que li nas plaquinhas.
Queria apostar, mas eu lembrava das
agulhas, das pontas finas das agulhas, lembrava as agulhadas. Cáspite! Eu queria
aqueles números, os que o otimismo identificou como os duplos da sorte.
Não me queria abatido, frustrado pela
memória fraca, entrei na fila e nela fui avançando, senha após senha.
A tarde estava linda, tinha sol dourado brilhando
no céu anil, mas o tempo fechou. Virou em chuva o que era esplendor.
Fulano falou:
ꟷ O Cara Lá De Cima devia ter vergonha
de pregar peça na gente honesta que sai de casa sem sombrinha.
Beltrano emendou:
ꟷ Pedro, o aporrinhador? Esse eu não
conhecia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de outubro de 2022.