terça-feira, 20 de setembro de 2022

Juras de artista

 

Juras de artista

 

O telefone tocou logo cedo. Preocupada com o dia seguinte, Leonor não o desligara ao deitar-se. Uma vez que o filho estaria na cidade pro festival, o celular soando antes das sete não a sobressaltou.

Ele chegaria na hora do almoço.

Se não ousou avisá-la que não tiraria a pestana da tarde, pediu, se não desse trabalho, aquele frango que ninguém mais sabia fazer.

ꟷ Santo Cristo!

Fernando pensou que agradaria à mãe se pedisse o prato preferido da irmã, frango com batatas, pois foi o que comeram da última vez que almoçaram juntos.

Ela mordeu os lábios para não discutir pelo telefone, pois fazia vinte anos, desde o enterro de Juliana, que estiveram à mesa.

Quando soube que Juliana adoecera, Leonor ficou muito irritada.

A filha merecia era cinta, mas o tratamento estava num estágio em que havia náusea, fraqueza e não apenas aparência de gente doente. Ainda assim, deu-lhe a bronca que entendeu bem dada, daquelas com cobras e lagartos a um passo do imperdoável.

Outra vez Juliana ouviu calada, porque era um jeito de defender-se. Que soltassem o verbo, gritassem, xingassem, até trocassem sopapos. Fosse quem fosse no buchicho, ela nunca foi de altercações.

Confrontada com o silêncio, Leonor rangia os dentes.

Reconhecendo o ruído, imediatamente ele falou que estava sendo um baita sucesso a temporada em Minas, e contou que fazia três anos que a sua cambada circulava por Furnas.

E o herdeiro do circo disse que a turnê passou por Alfenas, Carmo do Rio Claro, Conceição da Aparecida, São João Batista do Glória, Boa Esperança, Muzambinho, Nepomuceno, Formiga, Três Pontas, Fama, Lavras e Varginha.

Sempre séria, a ela nem ocorreu fazer piada com o ET.

Leonor sabia que aquilo era mentira, coisa decorada, papo de quem procurou no Google. Seria verdade se tivesse vivido na realidade. Mas, ele teve a quem puxar, e como puxou.

Mesmo sem saber se também viriam os netos, faria brigadeiro.

E há tempos não passava horas na cozinha. Queria que as crianças comessem o quanto aguentassem. Ela experimentaria uma colherada, poria mais açúcar. Experimentaria outra, colocaria canela em pó. Para que os doces ficassem perfeitos, precisaria prová-los.

O que tivessem ouvido a seu respeito era reversível, porque o papel de avó quituteira poria abaixo o de megera rancorosa.

Não era ódio, raiva ou rancor. Sofria de amor em demasia.

Fernando não teve coragem de falar o que os seus netos faziam no circo. Ele sequer falou os nomes dos meninos.

Ela sabia que os gêmeos eram Flávio e Fábio, eram palhaços desde o berço, tinham os olhos verdes como o avô, eram loiros de quase dois metros, eram felizes na estrada, tinham no sangue a anarquia libertária dos artistas da família.

Ela também tinha laços com os rincões de Itália e Espanha, só não gostava de brigadeiros, quindins e algodão doce.

De fato, é pipoca que Leonor adora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de setembro de 2022.


domingo, 18 de setembro de 2022

Ontem, hoje e domingo

 

Ontem, hoje e domingo

 

Pensei que ontem fosse sábado, mas estava enganado.

Dormi muito mal a noite passada e igualmente a noite anterior, mal à beça. Imagine como estou, bem mais confuso do que ontem. Embora tenha hoje amanhecido normalmente outro domingo, estou mal.

Acordei ainda no dia anterior ao domingo. Nada mais lógico do que estar xarope, ainda pensando na vida que poderia ter vivido. Se ontem fosse sexta e não sábado, embora tenha ido dormir na quinta achando que conseguiria acordar menos exausto.

Zureta, checo no celular qual será o dia de hoje. Não me surpreende a folhinha, ela marca que o dia primeiro do mês foi quinta. Me esqueci de procurar qual é o dia corrente.

Cacilda! Estou condenado a me arrepender de ter acordado um dia antes, ainda no sábado, mas antecipo que Jimi Hendrix morreu no dia 18 de setembro de 1970.

Que inferno! Bem que eu queria ter dormido setenta e tantas horas. Precisava muito ter pulado da quinta pro domingo. Acordaria sabendo que era domingo, e fugiria à desordem de tirar o tempo pelo espaço.

Como fusquinha de encontro ao muro, vejo no telefone que a cama não viaja nos céus. Quero mil e uma histórias, ou a noite seguirá presa na garrafa, ou fora do tapete, ou, muito pior, debaixo dele.

Me custa crer que o domingo será ontem quando for amanhã. Como espero que o futuro venha a ser o amanhã, que o domingo continue no calendário de 2022 um dia antes do dia 19, que será segunda-feira.

Fico mal, pois o país continua à espera. Haverá domingo depois de sábado. Fico doido para dormir a tarde toda. Pelo menos a tarde deste sábado, conforme pus nos meus planos. Decididamente quis, pois para mim: hoje não é sábado, já é domingo.

Sonado, mais essa!, me distraio que é coisa louca.

Quando passo a noite a abrir livro e fechar livro, sem pegar firme na leitura, misturo Lobo Antunes com Saramago, e isso não se faz.

Quando me lembro de que um ao outro se bicavam, este com Nobel e aquele sem, como galos na rinha de egos, sinto que extrapolo.

Não pensei no centenário do Saramago, que será em novembro. E não visualizei o Pepetela e o Lobo Antunes a cumprimentarem-se nas fotos de algum evento.

Nem tanto ao perdão nem tanto à desculpa?

Se li pouco nessa sexta, sem o gosto de ter lido algo marcante, sei que muito me amolo a querer lembrar o que teria posto aqui se o gosto de ter lido não fosse o que mal abri, interrompi e esqueci.

Digo que fiz.

Não sou metódico tampouco original, não dou por origem o mal que me destinam as estrelas. Digo que escolho o que posso ter sentido, ou que houvesse percebido. Porque nem soube que tinha escolhido o que outrora me foi apresentado como escarrado no cuspido, cumpro o meu dever de respeitar direitos.

Mesmo sendo domingo? Sei a razão desse mal? Entre Tancredo e Maluf, sempre sobra o Sarney? Sinto que o Hendrix veio a mim por que não soube me controlar?

É confuso pacas, eu sei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de setembro de 2022.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Em dose dupla

 

Em dose dupla

 

Além de bravas, Malena e Milena eram gêmeas.

Irmãs que não se desgrudavam, sempre que necessário, provavam que se amavam indiscutivelmente, não só nos álbuns da família.

No tempo em que eram moças normalistas em colégio mariano para meninas, resolveram viajar sozinhas. E fizeram rodar o automóvel que o papai comprou-lhes porque a ele alegrava bajulá-las.

E era um veículo potente, caro, trazido de Hamburgo por navio.

Não era segredo que o coronel tinha orgulho de gastar como queria, antes que o governo abocanhasse o dinheiro da venda de leite e queijo produzidos nas suas terras.

Certa feita, durante esse périplo pelo vale do Jequitinhonha, deram uma surra na primeira-dama de um lugarejo que jamais tinha visto um espetáculo tão grotesco, foram verdadeiramente furibundas.

Cidade serena, de arbustos podados, praças e ruas limpinhas, com um povo cuja gentileza pouco indicava ser capaz de revidar na mesma moeda. Só que o troco foi igualmente colérico, e patético, com o veículo das mocinhas atirado em esgoto, e dessa valeta pro ferro-velho.

Se ligaram o ventilador, que aguentassem o fedor.

Como ordem a ser cumprida imediatamente, a bocarra do mandrião fez valer que fosse passado o corretivo nos desrespeitosos do vilarejo, cujo nome provavelmente constava nos mapas, sobre os quais nunca passara os olhos, sequer ao ditar o castigo àqueles vilões.

Fazendeiro que não lia gráficos mas detonava fuças, o pai da dupla mandou queimar pastos, celeiros e peruzinhos carregados de alfafa. O porém é que fossem poupados pernas e braços, que só esmurrassem narizes, todos, os aduncos, aquilinos e até os esbeltos, pois era preciso cobrar àquela gente a bonomia, ao preço da causa justa.

Pagava mal os capangas, por que pedia lealdade acima de tudo?

Sim, cobrava dos cupinchas que mirassem nele a honra do sangue legitimado no sangue. Sem chalaças nem remorsos, pois o herdado ao pai do pai estava ao conforme do não escrito pelo que era sabido.

Sim, jagunço tinha que manter assegurado o silencioso do costume, ou sofreria as punições inevitáveis. Guardasse respeitosa distância do rio invisível, que aí corre a vida por segredos, degredos e vilanias.

Quem da bica bebe na taça a quem não bebe apõe desgraça?

Com a vingança, entusiasmou-se. Fortalecido, temido. Abrigado na hospitalidade energúmena, rechaçado a torto e a direito, ele sabia que não tinha inimigos à altura.

Se nada o fazia melhor, tudo o punha menos vulnerável.

Pra evitar que o amanhã chegasse sem que houvesse legado outro destino, desejava ter meninos que jamais fossem mimados pela gente boa do futuro.

Por esses outros frutos, mais almejou semeá-los.

Entretanto, dizem que o universo desconhece coincidências. Deve ser por isso que Melissa e Marissa vieram a ser gêmeas, e gêmeas em tudo, até nas gentilezas de gente boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2022.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

O tempo passa

 

O tempo passa

 

Senhoras e senhores, a garoa é agora.

Ela não cai calma nem vem mansa, que isso é precipitação de quem se anima a dar espírito animal à natureza inteira. Sei não, acho mesmo espantoso esconjurar demônios de estalagmites.

Numa boa, a garoa cai à toa.

Os pingos vindos das nuvens vão caindo com uma regularidade que a minha mente, tão pragmática, não tem condições de dosar.

Ao ouvi-los algo barulhentos ao baterem no terreno, imagino que a água vá escorrendo pelas telhas, vá formando as gotas.

Pelos sons de certos impactos, separo balde de plástico e cerâmica do quintal. Dou crédito aos ouvidos, pois sei que o chão do lado de fora da janela do meu quarto não é de terra. Se divisasse os pingos batendo em outro material que não a cerâmica, eu estaria alucinando.

Reconheço o que ouço, pois garoa não é nenhuma novidade.

E essa queda me acalma.

E calminho, bem calminho, enfrento a dureza de outra jornada pelas veredas do mundo. Mesmo que me ofendam, não pretendo ofendê-las, pois às boas gentes que acho pelo caminho, a elas quero mostrar-me calmo, bem calminho.

Talião, Talião, não me apraz virar rapaz na multidão.

De repente, entre tantas outras, uma pessoa fala alto:

ꟷ Não tem ninguém que possa me atender?

Os pingos caindo, batendo no chão, entendo, a garoa é constante. Sei que poderia calcular o intervalo entre um pingo e outro, mas prefiro sentir o que a garoinha produz em mim. Quero dar paz ao espírito.

Quem há pouco falou alto, a tal pessoa fala alto outra vez:

ꟷ Dá pra alguém me atender logo?

Súbito, vejo nítido o quadro mental que cristalizo na calmaria.

A porta do corredor começou a bater de repente. De repente, nada. Foi quando o vento ficou mais forte que ela deu de bater intermitente.

Nem toda intermitência me desassossega, mas a da porta, sim.

De quando em quando, é isso que me fez sair da cama. Fui à porta, pus um calço e ela parou. Pois se não a calçasse, ela bateria, bateria, eu ficaria assaz irritado e perderia o restinho da noite, porque logo viria o momento de levantar e levantaria contrariado, aborrecido, querendo partir pra briga com quem a mim me dirigisse palavra.

Me virei, a tal pessoa era alguém que eu conhecia.

ꟷ Ninguém vai me atender?

Nem precisei me esforçar. Como sabia muito bem quem era, preferi pensar na porta batendo. O vento balançando a porta, fazendo-a bater sem alvoroço. E foi nisso que me concentrei.

E uma vez calçada a porta com um pedacinho dobrado de papelão, acho prazeroso ficar na cama. Mesmo que não durma de novo, a hora passa que eu nem vejo.

E pensar que algo tão simples produz um bem-estar que a princípio nem eu calculava que fosse possível.

Se não é besteira projetar o vento como corda retesada, mais besta é não tirar proveito dele passando.

Como relógio parado atrasa meio mundo, grita o chato:

ꟷ Que diabo!

Não, não. Nem o diabo é páreo pra tamanha concorrência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de setembro de 2022.


domingo, 11 de setembro de 2022

O pão da vida

 

O pão da vida

 

Dá uma dor de ouvido de madrugada, acho melhor pôr um chumaço de algodão pro ar gelado não aumentar o desconforto. Quando a dor é aguda, irrito-me. Desconfortavelmente irritado, ponho o mundo a esmo. Caçando briga com a pinga ou atiçando rato contra gato, nada de novo acontece sob o sol. Por óbvio, uma dor de ouvido calha-me como farpa se vou à toa na vida, feito folha seca ao sabor do vento.

Que os acontecimentos do dia levem-me pro lado que me for menos conveniente. Para que eu tire algum proveito do ócio imprevisto, que a minhoca sirva de isca a peixe com fome. Que a cada passo, meu olhar, eivado de banalidades, fisgue do cotidiano alguma notícia.

O mundo todo fala muito da grande dama dos chapéus que morreu. Também tenho tanto a dizer, mas resumo: rainha morta, rei posto.

Poderia retomar uma historieta que me propus dar em crônica, mas, por sobrarem em mim inspirações medíocres, engavetei-a.

No causo escondido na cômoda, há um casal que viaja pela Europa. Na vadiação de quinze dias de férias, Eleanor e Osbourne passam por Edimburgo, Dundee, Perth, Inverness, Stirling, Aberdeen e Glasgow.

Acrescento que a frustração do bom casal de americanos do Maine é não ter achado tempo para ir a Skye, pela birita maltada, e Ness, pelo fóssil do lago.

Para dar cabo à anedota, o marceneiro aposentado e a inveterada crocheteira andavam pelos arredores de Aberdeen como se vadiassem por Aberdeenshire. Avistando Balmoral num vetusto castelo qualquer, espiavam-no extasiados. Realmente tocados pela realeza da mansão, inventaram de pedir ajuda. Viram um lorde, não um aspone irrelevante da rainha. E esse descendente shakespeariano de sangue quente lhes vendeu uma autêntica caneca imperial, relíquia dos tempos de César.

Como narrativa chinfrim engavetada, acho ocioso desfrutá-la.

Ocioso mas ansiado, pois o dia não entedia.

Eleitor nervoso com a brasilidade do futuro, assumo o compromisso de trabalhar além das minhas necessidades de burguês. Incluo no voto o custo de dar esperança a quem pede por pão, reclama por casa, tem um cão que nem o chama de seu.

E digo que hoje é sábado e vem vindo um menino mais um cão.

E acho bom dizer que o guri vem latindo pro cachorro e o magricelo late de volta. Entendidos com a tarde mansa, estes bichos brincalhões vêm festivos. Um com outro, ambos inventam de viver em paz.

Ainda que um binóculo desconfie da ordem da calçada, o menino e o cão formam uma dupla bacana de ser acompanhada.

É notório: os olhos do décimo segundo andar põem em dúvida que o cão e o menino têm fome.

Mas dou vivas à vida.

E conto que uma senhora dá pão ao menino e a criança dá do pão àquele cãozinho.

E faço que é sábado e que o sábado não se faz de outro qualquer, pois são ridentes os dentes antes do domingo.

É imperioso que se diga que estou comovido, pois a vida, seguindo serena, dá de ser um riso solto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2022.


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Muito barulho

 

Muito barulho

 

No dia 07 de setembro de 1922, a Rádio Sociedade fez a primeira transmissão radiofônica no Brasil. Cem anos depois, não liguei o rádio, a TV, nem entrei na internet. Por um dia, recusei informações ao vivo, em cores, em língua castiça ou português rasgado.

Passei o feriado a explorar alguns papéis que encontrei numa caixa de papelão. Como havia me esquecido dela, não estava preparado pra avalanche de lembranças. Vi-me aturdido por recordações a cada folha impressa ou papelucho manuscrito.

Direto dos anos 80 do século 20, dei com o primeiro cartaz da Rádio FM Totó Ternura, 106,3 MHz. Era o anúncio de que a rádio comunitária entraria no ar no dia 25 de setembro, a partir das 19 horas.

E assim foi.

Em 1985, no dia 25 de setembro, que no Brasil é o Dia Nacional do Rádio, o transmissor da Totó Ternura foi ligado. Bem na hora da cadeia obrigatória de programação oficial da ditadura, a famigerada A Voz do Brasil, os ouvintes passaram a ter escolha.

As cifras furadas do Milagre ou um Clapton pirata em Berlim?

Pôr no ar essa gravação do guitarrista inglês foi de última hora, pois a programação da estreia teve de ser deixada de lado.

O debut seria ao vivo. E haveria a leitura de textos políticos sobre a democratização dos meios de comunicação de massa. Além de serem lidos poemas de poetas conhecidos, faríamos de improviso os nossos. Como passamos o número de um orelhão, as opiniões e recados dos ouvintes seriam lidos na íntegra. Sem nenhuma orientação partidária, comentaríamos a nossa primeiríssima experiência de falar diretamente com as pessoas.

Como rádio feita por estudantes, os equipamentos da Totó Ternura estavam instalados num quarto na moradia dos alunos da USP. A partir do último andar de um dos blocos do CRUSP, a Totó falava pra Cidade Universitária, pro Butantã, pra uma parte de Pinheiros.

Em outras palavras, não tínhamos estúdio com isolamento acústico, e éramos amadores até no microfone de gravador caseiro.

Que peninha!

E britadeiras fizeram o barulhão característico. E operários gritaram sem parar. E a água jorrou com força, porque não foi um cano mixuruca que deu problema, foi a tubulação de uma adutora.

Alguém viu um caminhão com uma antena esquisita. Ele veio e foi. Dali a pouco, voltou por outro caminho. E foi pela marginal. Finalmente, alguém leu DENTEL na lateral do lado do motorista.

DENTEL!

O governo teve coragem de mandar agentes da delegacia nacional de telecomunicações atrás da gente?

Alguém raciocinou: se o caminhão da DENTEL apareceu, não veio por acaso; se o cano estourou bem na hora da transmissão, não havia coincidência; era óbvio, nossos cartazes anunciando a estreia da rádio mexeram com as autoridades.

Outro aluno quis saber: era delegacia ou departamento nacional de telecomunicações?

Putz!

Pelo sim e pelo não, tiramos o Deus da Guitarra do ar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2022.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Ótimo ponto

 

Ótimo ponto

 

A mulher está vomitando.

Horas antes, para que o marido não faltasse à festa organizada por ela, foi preciso contar-lhe os preparativos.

Sem gastos excessivos ou vexatória escassez, que o churrasco não causasse frustrações ou chacotas, talvez uma leve invídia.

Desfeita a surpresa, ele não teria de preocupar-se com a carne e a bebida, teria de ajudar com a lista dos convidados.

Sem boca-livre, viriam apenas familiares. Mas só os parentes cujas relações, apesar das diferenças políticas, continuassem cordiais.

Tais primos e tios estão acostumados com avisos em cima da hora, quiçá um ou outro reclame um pouquinho. E para manter o charme de gente crítica, reclamará quem menos esquece as datas importantes da família.

Também insatisfeitos, porque longe dos celulares, os filhos poderão dormir mais tarde. Como outras crianças virão, que elas corram, pulem, gritem, estapeiem-se, que formem uma trupe com arestas passíveis de beijos curativos e esparadrapos protetores.

Quando a mente se debruçar sobre o estado das coisas, os espetos não serão limpos com o pensamento. Quando a farofinha estiver cheia de formigas, da picanha restará o celofane. Quando o dia seguinte soar o alarme de outro dia, latejará no cérebro a sua voz e não a dele.

Que não se perca que é do aniversariante, sempre dele, do palhaço paspalho pros filhos, do esposo embevecido de breja, jogador no truco da vida, é dele, deste sujeito que erra de raia no instante da inteligência sem astúcia, é dele a cartada vã, o blefe oco, o choque pelo choque, é dele a traição de não procurar alternativa à realidade.

Ao fim e ao cabo, sem arranhões profundos, que o lixo vá pra lixeira, as fotos às redes, e o buchicho dure somente o áudio de um zap.

Ora, o mundo é pau, é pedra, é a saliva que cola.

Como sabe que pode fazer o que não precisa pensar que seria bem capaz de fazer, por estar acostumado a não pensar direito quando está eufórico com a própria independência, ele dá no pé.

Se quem ama ficará pê da vida?

Se diz que ama, pois fique feliz de poder perdoar.

Quem censura toda embriaguez folgazã se decepciona?

Quando partir o último carro, o nosso homem de fala mais enrolada tomará lugar na última vaga. Porque dele é a vontade de curtir só mais um trago do cigarrinho sem filtro que sempre aparece. Porque nele se avolumará a ânsia de festejar com aquele uisquezinho que nunca falta. Porque o devolverão quando o dinheiro acabar, o cartão não passar e o leão de chácara tiver que descruzar aqueles braços musculosamente tatuados. Quando o automóvel voltar da última noitada, será dia.

Nem tanto ao sal nem tanto ao açúcar.

Há quem ache que os comprimidos pra dormir fazem efeito tão logo sejam ingeridos, daí que os abocanhem a mancheia? Ou será idiotice contar carneirinhos caindo no abismo?

Ora, ridículo é passar mal depois de ter bebido tubaína.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2022.

domingo, 4 de setembro de 2022

O violão do Martins

 

O violão do Martins

 

À espera de que o bar fosse aberto, o freguês de todos os dias corre ajudar o dono a descer mercadorias do carro. Sorrindo, ele sabe quem é que sempre pede a primeira dose, a que é bebida de um gole só.

Encontrar o Martins bebendo sozinho é fácil, difícil é vê-lo tocando violão sem que esteja bêbado.

Discreto, ele vai ficando bêbado sem que os outros o percebam já alegrinho. Ainda que beba a metade de cada dose que peça, ninguém o valoriza pelo silêncio de gente que não abre a boca quando não tem nada de novo a acrescentar.

Quando pigarreia, ajeita-se na cadeira, penteia-se, acerta o chapéu, levanta-se, embora pare de repente porque é preciso ajeitar a peninha do chapeuzinho de feltro, nem parece um bêbado.

Se realmente estivesse bêbado, não sentiria que está transpirando mais que o normal. Em todo caso, lava o rosto antes de urinar.

Se evidentemente estivesse bêbado, não lembraria que traz lenços consigo. E quando passasse a usar os do bolso esquerdo, nem saberia mais que tem que se enxugar com o menos úmido.

Enxuga-se com o primeiro que acha nos bolsos.

Sóbrio ou embriagado, o Martins sempre tem muito cuidado com o chapeuzinho de feltro, porque ele se vangloria de ter sido presenteado por um alemão.

Uma vez, durante um dos jogos do mundial, antes de vê-lo bebendo cerveja como quem bebe ouro líquido, um louro de sotaque carregado falou que era seu fã.

Será sábio dar valor à cerveja que vai mijar dali a pouco?

Supostamente bêbado, aprumado o chapeuzinho bávaro, engolido outro dedo da cervejinha estupidamente pilsen, o Martins solta:

ꟷ Skol! Skol!

E dá gosto ver o Martins enchendo a boca quando resolve brindar, uma vez que ele nem desconfia que a língua de Hamlet não é a mesma dos comedores de joelho de porco.

Quanto o Martins aguenta beber?

Contam que o dono do boteco teria separado as garrafas que o seu freguês tão fiel bebeu. Especulam que quatro caixas foram empilhadas à parte. Especula-se que nem teria sido o recorde que o Martins bebera sozinho, uma vez que ele esvaziava garrafas sem a ajuda de ninguém, pois ai daquele que ousasse pedir-lhe um dedinho.

Saúde, Martins, saúde!

Mas, quando foi a última vez que o Martins apareceu?

Foi no dia de uma partida complicada, um clássico, um embate que começara antes do apito, com os torcedores se digladiando longe das câmeras que monitoram o centro.

E era o Martins de sempre, que ajudou a descarregar o carro, bebeu a sua pinga numa golada, pôs o violão atrás de si e foi bebendo cerveja como se aquele domingo estivesse fadado a ser igualzinho aos demais domingos.

Com o bar entupido, com gente em pé, o Martins teria ficado irritado quando insistiram que boteco é lugar para falatórios paralelos.

Uma vez desaparecido o dono, foi aberto o estojo do violão e foram achados santinhos, apenas santinhos de candidatas, sem nenhum pra presidente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2022.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Laranja à vista

 

Laranja à vista

 

Depois de ter virado a noite bebendo vinho, quem diz que se lembra da mosca pousada na maçã não mente, imagina.

Como a maçã continua na fruteira mas a mosca sumiu, é preferível omitir a lembrança ou supor fora da cena um sapo.

Se ninguém ouve coaxos, fale-se de samambaia.

Haverá quem não molhe as suas plantinhas?

Tem quem goste tanto de planta que a trata como gente. Cuida tão bem que conversa com avencas como se lhes segredasse paixões. Mil vezes o coração arejado por muxoxos do que cravejado de rancores.

E rancorosos arrancam o trigo, lamentam manhãs sem pão, ralham que falte macarronada à mesa. Pôr sódio no joio é dar joia ao ódio.

Mas joia, joinha mesmo, é ligar o rádio.

Dá pra mudar a estação quando a música não agrada.

Dá pra dançar até a boquinha da garrafa.

Dá pra esquecer um pouco que o ano passa voando.

Dá pra gostar de setembro, porque setembro é o mês das flores.

Dá pra cantar avencas, ir a viveiros, comprar samambaias.

Dá pra deixar pra amanhã o que tanto aborrece.

Que amanhã o turrão continue turrão por outro minutinho.

Que amanhã o bruto dê um murro no espelho.

Que amanhã o chato vá ver quem está na esquina.

No cruzamento da alameda com a avenida, há automóveis que não precisam dobrar pra lá ou pra cá. Outros dobram, porque na floricultura que fica na avenida dá pra pedir orquídeas, mas cravos, nunca.

Quem não dirige, vai de táxi ou pede carona. O dinheiro é mais bem gasto com aulas. E quem aprende a podar vê vídeos que indicam qual a melhor época pros cortes e informam quando colher os frutos.

Banzai, bonsai.

Se laranjeira num vaso dá frutas na sala como árvore em pomar de fundo de quintal ou fazenda com pista de pouso, vou a pé à quitanda.

Não guio carro, não piloto moto nem patino, só que eu chego aonde laranjas são vendidas às dúzias, por peso, a dinheiro ou no cartão.

Quando dá, caminho sem me preocupar com cães que me seguem por razões que me são desconhecidas. Talvez porque eu seja um cara simpático e não os tema. Quando um cão ou outro esteja sarnento, sou forçado ao passa-fora previdente.

Às vezes espero a chuva diminuir, porque, esforçando-me para não temer tombos, costumo escorregar uma vez ou outra.

No verão, ainda que o sol de rachar não me parta ao meio, vou bem cedinho para poder escolher meia dúzia das laranjas mais bonitas, mas da variedade em promoção. E eu sempre pago em dinheiro.

Sou vivo, tomo suco no almoço e na janta. Se pensasse na saúde, sequer o adoçaria. Como eu acredito nas maravilhas que dizem sobre vitamina C, tomo laranjada todos os dias.

Há tempos, nem me recordo se foi num consultório médico, li que o corpo humano retém a quantidade de vitamina C que precisa, a sobra sai na urina. Em outras palavras, tal substância tão necessária pra algo de suma importância sai poucas horas depois da sua ingestão. Ela não dura mil anos nem mesmo uma vida, muito menos cem anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2022.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Sorte danada

 

Sorte danada

 

Aproximam-se as eleições, a pressão aumenta.

Dou um tempo na esquina. Entregam-me santinhos. Bandeiras são agitadas. Como não vou decorar todos os números, salvo no celular os que digitarei na cabina de votação. Alertam que telefone está proibido, mas consultar cola está autorizado. Com tanta pressão, tenho certeza de que a minha cabeça vai dar chabu na hora do voto.

Parado na esquina, percebo que o mundo não está nem aí se estou perdido. Mas não vou negar que me embanano com tantas ideias que jerico não tem. Mesmo que o burro não as tenha, eu me preocupo com o que tem importância, relevância e dá ânsia.

No tocante à saúde?

É hora de pagar para ver quem enfrenta essa gente que traz garrafa vazia para quebrar na cabeça de quem está na praça pedindo à banda que vá tocar onde judas perdeu as botas.

No que tange à educação?

Não adianta arrancar os cabelos, arrancá-los não a fará passar de vez. Corre-se o risco de a onça parar de beber água e vir para cima de quem não tem jogo de cintura para capar o touro à unha. Sem falar que tocar dobrado não enche a pança de ninguém, enche o saco.

Pra falar com segurança?

Sinceramente, a verdade seja dita: saco cheio explode quando mais se recomenda pôr o coração na ponta do lápis.

Sim, sempre é bom pôr na ponta do lápis: custa votar?

Sem dúvida, que perereco é fazer a graça de botar o bloco na rua. E faz melhor negócio quem se dispõe a vender o berço esplêndido pra quem nunca cai do cavalo quando o circo pega fogo.

Embora eu não entenda o prometido, não quero que me adulem por minha estupidez, pois sufragarei como sufragam quem faz por onde.

Onde judas bateu com as botas é que não será.

Prefiro dar mais um tempinho na esquina. E não param de entregar santinhos nem de agitar bandeiras.

Viro estátua, que tudo vê, tudo ouve, e só não xinga. Pois não quero que tudo o mais vá pro inferno nem volte de lá.

É fogo cuidar da vida? Putz! Bota fogo nisso.

Tão perturbadora é a tragédia que a moça que normalmente vende flores está panfletando por um sanduíche de mortadela.

E com ela me solidarizo, pois ninguém merece ficar sem comer nem que seja um sanduíche de mortadela.

O rapaz que tira a sorte com o seu periquito adestrado não conta o que fez com o realejo. Pedindo que reeleja o homem íntegro que nunca desiste de lutar pelos legítimos indefesos, ele não tem papas.

Se eu sabia que sou um deles? Compreenda que é.

Compreendo. Que eu vote pela liberdade. Que meu voto garanta a igualdade. Que é direito beber água que passarinho não bebe.

Nada do que foi deixa de voltar?

Sim, a natureza não esquece. Se ninguém lembra, ela traz à mente o ar onde cantavam sabiás, voam urubus e zunirão balas.

E a chaga dói onde o calo canta, o folgado aperta e o drama da vida cai bem no olho cobiçoso do homem que não arregaça à toa a manga da camisa. Canoa a canoa, ele sabe com quantos jequitibás se monta um esquadrão. Que sorte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de agosto de 2022.


domingo, 28 de agosto de 2022

Gente fina

 

Gente fina

 

Dói-me a face direita do rosto, suplico ao dentista que me atenda o quanto antes. Se a dor está de fato insuportável, que eu vá agora. Sim, de fato, preciso ser encaixado assim que possível, porque sou eu quem está sentindo esta dor terrível.

A radiografia mostra infecção. É prescrito anti-inflamatório.

Fiz o certo, pois cabe a especialista dizer qual é o problema.

Como a inflamação está acima da gengiva, provavelmente causada pela friagem das madrugadas, e para que o dano seja sanado, eu tome o remédio respeitando o intervalo entre os comprimidos e evite gelados e comidas quentes.

ꟷ A dor sumirá de pronto.

Como prudência recomenda discrição, não falo dos gargarejos com antissépticos alcoolicamente refrescantes depois das refeições.

Ainda que tenha consciência de que alívio é bom, não me vanglorio do abuso desta bondade.

ꟷ O estrago acabará em três dias.

Modesto, até porque ouvir elogios me acabrunha, também não digo que a semana foi de maçã dolorida coberta por capuz de blusa apesar dos trinta graus.

Já que as circunstâncias me fazem sensível à cautela, lembro o que preza aos físicos: entre gelados e quentes, há o morno.

Como a natureza visa ao equilíbrio, terei paciência: entre extremos de prazeres e sofrimentos, o meridiano é um intervalo de momentânea indiferença.

Mesmo que a sabedoria me falte, pela desagradável experiência da dor, agradeço à termodinâmica por este princípio tão simples. Sensato, compreendo que preciso suspender sopinhas e pudins ou sofrerei.

ꟷ O retorno fica pro dia anteriormente marcado.

O dentista fala devagar. Ele olha de modo sereno enquanto fala, até parece que estuda o efeito da sua fala sobre quem o escuta.

Penso que ele fala pausadamente para que suas palavras ganhem um acentuado sentido moral. Desconfio que ele, só de examinar minha boca, saiba que não dispenso goiabada depois do almoço. Ao imaginá-lo me censurando por meus caprichos, não fico nada contente com sua arrogância de gente sabichona.

Se açúcares fazem realmente um mal danado, não o refutarei pelos conhecimentos que o orientam. Que ele viva consciente e abstenha-se de um docinho. Quem sou eu pra criticar sua visão de mundo, mas da minha dieta cuido eu, caramba.

Até porque não sou de comer com os olhos, e já me é bastante bom um pedacinho mínimo. O que me satisfaz, entretanto, é não dar com a língua nos dentes, pois não lhe conto que gosto tanto que almoço duas vezes. E a cada prato lambido, ganho uma nesga de goiabada.

ꟷ Romeu e Julieta?

Como gente fina, elegante e muito sincera não conta garganta nem com a faca e o queijo nas mãos, não me dói nada fechar a matraca.

Não sou obrigado a reconhecer que ando comendo além da conta. Sei, a minha barriga está uma bolinha. Mesmo fora do peso ideal, não tenho cabeça pra balança desajustada. Tenho andado devagar pra não passar mal de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2022.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Urgente urgentíssimo

 

Urgente urgentíssimo

 

Estou animado. E minha animação é decorrente de um desejo que jamais imaginei que teria: quero escrever um roteiro.

Assumo a responsabilidade de preservar a sobriedade. Não quero virar personagem que se mete como se tivesse o direito de dirigir o que se há para contar. A história é minha, logo não desistirei de contá-la do jeito que é meu dever de contá-la. Não vou me entusiasmar a ponto de perder o foco. Direi apenas o que tenho a dizer, mais nada.

Feitas as devidas ressalvas, antes que a realidade conseguisse me ludibriar, já que estou bastante seguro da minha determinação pra agir dando pulso firme ao comando, digo que o mundo não me convence a esquecer qual o rumo da prosa que espero pegar.

Eu assistia a uma série sem outra disposição que não fosse passar o tempo depois de outra jornada fatigante contra os infortúnios do dia, quando o assassino disse algo que me foi surpreendente. No ápice da tensão, livrando-se das tibiezas que o apequenariam, o facínora disse que o fracasso do ídolo motivou-o a tornar-se seu próprio ídolo.

É óbvio! Não é vilão quem não recua do repugnante, é antagonista; e antagonistas são heróis negativos.

Tal ideia não me pegou de imediato, foi preciso que a torneirinha do filtro quebrasse. Ela quebrou na minha mão. Acontece, porque objetos de plástico acabam quebrando depois de anos de uso. Faz tempo, sim, tanto que nem lembro se tive de trocá-la. Acho que a torneira que agora está quebrada deve ser a mesma de quando o filtro foi comprado.

Minto; ou melhor, manipulo. E ajo assim para dar coerência ao que evidentemente não tem nem um pingo de ilusionismo trapaceiro.

Uma torneira quebrar não me faz avaliar que eventos fortuitos são obras do acaso. Penso que enxergar com lucidez não me desmascara, pois me esforçar como tapeceiro amador é apenas outro truque.

Sim, amo conectar o que aparentemente está solto. E o fio forte que me ajuda a fabricar o tecido do que digo é a linha do pensamento.

E conto comigo para deixar de ser odioso, outro procrastinador que não se envergonha de lidar mal com a realidade.

Como me considero uma pessoa instruída no amor às boas coisas da vida, escolho bem as palavras pra que o texto não me contradiga.

O que topo fazer?

Com a torneira quebrada, usei uma concha pra encher uma jarra, e perdi tempo. Deu vontade de tomar água da pia, todavia não bebi.

Me recuso a beber água que vem da rua. Peraí! Não é nada disso. Que bobagem! Água encanada vem da caixa. Mas a caixa d’água deve estar suja. Nem sei quando foi a última vez que ela foi limpa.

E já que não me quis (como tampouco agora me quero) tão odioso, tomo a seguinte decisão.

Como a convicção é uma dádiva a quem pode transformar o mundo, como não posso ficar sem beber um litro e meio de água por dia, peço que venham entregar um garrafão de água, mas que seja da mais pura e cristalina fonte mineral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2022.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Pestanas ardentes

 

Pestanas ardentes

 

O homem que veio entregar o que comprei pela internet usa crachá com foto e nome completo. Como não o reconheço, ele diz que fomos colegas de escola. Vendo que continuo sem me lembrar dele, é o nome da professora do terceiro ano primário que confirma que estivemos na mesma classe em 1973.

Cinco décadas depois, ambos mudamos.

E a minha memória mudou para pior, porque não guardo lembrança das vezes que teria ido à sua casa pra fazer trabalho em grupo.

Eu era novo, bem novinho, tinha apenas nove anos.

Assim tão criança, acho improvável que minha mãe tenha permitido que andasse sozinho pela cidade, mas me convenço a não corrigi-lo.

Trabalho em grupo no terceiro ano?

Naquela época, minha timidez era muito grande. Eu não falava nas aulas. Mal erguia a cabeça. E quando olhava na direção da professora, mirava um ponto na lousa. Mesmo que nada estivesse escrito na lousa, me fixava na ideia de não ser constrangido a falar.

Pois eu não falaria aos demais alunos, falaria à professora.

Muitos colegas falavam errado. Muitos da turma faziam feio porque queriam responder primeiro. E a maioria vivia errando as lições.

Sempre séria, a professora corrigia tudo. Mesmo o menor dos erros lhe era estridente. E tudo merecia ser comentado de modo sério, a voz firme, com gestos comedidos, os olhos nos olhos da gente.

Se todos tínhamos que tomar cuidado pra não dar vexame, eu temia me afobar e passar vergonha na frente da classe. Porque não admitia ser como eles, que cometiam erros bobos.

Eu não era como os outros. De jeito nenhum faria besteira na frente de um bando de bobocas. Como era esperto, tinha que manter os olhos no caderno ou o abismo me engoliria.

Era um cacoete, algo imediato que me tornaria invisível.

Em vez de me interessar pelo que acontecia na sala, escancarava a perturbação: cabisbaixo, eu desenhava.

Era natural. Não imaginava que fosse uma atitude afrontosa.

Como sempre respeitei quem precisa ser respeitado, não seria em criança que desafiaria uma professora.

Fui chamado a responder sobre o que nem tinha ouvido.

Fiquei paralisado. Tinha que falar alguma coisa, mas não qualquer coisa. Tinha que acertar. Nem poderia gaguejar. Queria ter sumido.

Àquela vez, naquele distante ano de 1973, surpreendido rabiscando enquanto todo mundo prestava atenção na aula, a professora pegou o caderno, viu o meu desenho e, mesmo que ainda estivesse inacabado, recusou-se a exibi-lo à classe toda.

Quando acho que vou me sair bem, sou desastroso.

Porque à minha porta veio bater esse entregador de livros que nem sei dizer quem seja, só agora me recordo do soberbo homenzinho de palitos por mim esboçado num caderno que não guardei.

Sem ninguém pra me reprimir, imploro que compreendam:

ꟷ Senhoras e senhores, quem poderá acordar no adulto tagarela a criança tartamuda que teima permanecer esmaecida?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de agosto de 2022.


domingo, 21 de agosto de 2022

Aggiornamento

 

Aggiornamento

 

Bendita seja a quarta-feira.

Se a segunda pressupõe que não seja queimada a agenda de mais uma ferrada semaninha, a quarta é canário cantando.

Ainda que o despertador insista em martelar nos tímpanos que hora certa é a que está programada, tem gente que não enrola para sair da cama, porque sabe que ela existe.

Sabe, sim, que a quarta não falha por bagatela, ela é porreta.

Mesmo numa segunda braba, levanta e toca em frente. Pois é difícil, bem difícil, apagá-la. Como a cachola sabe que a quarta tem realidade, nem é preciso agendá-la nem ficar surdo ao seu chamado.

Não há de tardar a quarta que vem.

Ainda que seja razoável pensar que a sua existência não torne leve uma alma ancorada em compromissos inadiáveis, não se há de ignorar a boa ideia que é o canário cantando no coração do cotidiano.

Não o ignorando, também é lógico imaginá-lo num lugar aprazível, que lhe seja aconchegante. Sim, projetá-lo em um ipê amarelo não tem nada de prepotente; aliás, tal pensamento revigorante é bem bom.

Afinal, amarelo é cor que apazigua, serena, faz suportável a chatice de feira, feira, feira, por cinco vezes, a feira é feira. E ninguém é feirante o tempo todo, e é bem bom um sossego de vez em quando.

Canário cantando em ipê amarelo, pouco há que se lhe compare.

Mal comparando, insuportável é a quinta-feira a quem vai à padaria pelo café com pão. Não um qualquer a outro qualquer. Tal par supimpa: o café está adoçado e o pão vem da chapa.

Todavia, maldito e autoritário, o resultado do futebol azeda a média. Negando o direito de passá-la batida, que a quinta-feira fosse rotineira, na mesa ao lado, porém, comentam o jogo, elevam a jogaço a partida da noite passada. E tchau, tchau, mavioso canarinho da terra.

Se a quinta já era, não se negue à sexta o desejo de um futuro mais suingado. No salão, ergam-se canecas de chope. Pelas mesas, bailem as bandejas. Entre pessoas extrovertidas por natureza e as bailadoras por golinhos e golinhos de felicidade, cantem, encantem-se, vibrem de tanta alegria. Não seja administrada com moderação, porque sexta boa pra valer não acaba quando termina, dá ressaca.

Como corvo aborrece o sábado, que a biriba no boteco fique adiada pro dia seguinte ao dia seguinte?

Quando urubu bica o domingo, deveria ter tomado banho completo, deveria ter lavado atrás da orelha e passado bucha embaixo do braço, pois trocar de roupa, pôr nova cueca e outras meias, que assim nem o canário barra a brisa nem as folhas param no galho?

Amanhã, belo amanhã, pelamor!, venha, voe ligeiro, e voe pelo céu, é anil o céu à luz do sol.

Pessoal que sustenta que sábados e domingos tiram o estresse dos engarrafamentos nas ruas com o congestionamento em idas e voltas pelas estradas, perdão pela perspectiva?

Agora, agorinha, no meio deste instante, não grassa às cinzas outra semente, pulsa, que a feira farte, já.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2022.