Juras
de artista
O telefone tocou logo cedo. Preocupada
com o dia seguinte, Leonor não o desligara ao deitar-se. Uma vez que o filho
estaria na cidade pro festival, o celular soando antes das sete não a
sobressaltou.
Ele chegaria na hora do almoço.
Se não ousou avisá-la que não tiraria a
pestana da tarde, pediu, se não desse trabalho, aquele frango que ninguém mais
sabia fazer.
ꟷ Santo Cristo!
Fernando pensou que agradaria à mãe se
pedisse o prato preferido da irmã, frango com batatas, pois foi o que comeram
da última vez que almoçaram juntos.
Ela mordeu os lábios para não discutir
pelo telefone, pois fazia vinte anos, desde o enterro de Juliana, que estiveram
à mesa.
Quando soube que Juliana adoecera,
Leonor ficou muito irritada.
A filha merecia era cinta, mas o
tratamento estava num estágio em que havia náusea, fraqueza e não apenas
aparência de gente doente. Ainda assim, deu-lhe a bronca que entendeu bem dada,
daquelas com cobras e lagartos a um passo do imperdoável.
Outra vez Juliana ouviu calada, porque
era um jeito de defender-se. Que soltassem o verbo, gritassem, xingassem, até
trocassem sopapos. Fosse quem fosse no buchicho, ela nunca foi de altercações.
Confrontada com o silêncio, Leonor
rangia os dentes.
Reconhecendo o ruído, imediatamente ele
falou que estava sendo um baita sucesso a temporada em Minas, e contou que
fazia três anos que a sua cambada circulava por Furnas.
E o herdeiro do circo disse que a turnê
passou por Alfenas, Carmo do Rio Claro, Conceição da Aparecida, São João Batista
do Glória, Boa Esperança, Muzambinho, Nepomuceno, Formiga, Três Pontas, Fama, Lavras
e Varginha.
Sempre séria, a ela nem ocorreu fazer
piada com o ET.
Leonor sabia que aquilo era mentira,
coisa decorada, papo de quem procurou no Google. Seria verdade se tivesse
vivido na realidade. Mas, ele teve a quem puxar, e como puxou.
Mesmo sem saber se também viriam os
netos, faria brigadeiro.
E há tempos não passava horas na
cozinha. Queria que as crianças comessem o quanto aguentassem. Ela
experimentaria uma colherada, poria mais açúcar. Experimentaria outra, colocaria canela em pó. Para que os doces ficassem perfeitos, precisaria prová-los.
O que tivessem ouvido a seu respeito era
reversível, porque o papel de avó quituteira poria abaixo o de megera
rancorosa.
Não era ódio, raiva ou rancor. Sofria de
amor em demasia.
Fernando não teve coragem de falar o que
os seus netos faziam no circo. Ele sequer falou os nomes dos meninos.
Ela sabia que os gêmeos eram Flávio e
Fábio, eram palhaços desde o berço, tinham os olhos verdes como o avô, eram
loiros de quase dois metros, eram felizes na estrada, tinham no sangue a
anarquia libertária dos artistas da família.
Ela também tinha laços com os rincões de
Itália e Espanha, só não gostava de brigadeiros, quindins e algodão doce.
De fato, é pipoca que Leonor adora.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de setembro de 2022.