Tenho
que desmontar a árvore!
Caramba,
carambola, difícil desmontar o nem montado.
Tem
o lado bom, acordei cedo. Era madrugada, estava escuro, não porque nem tivesse
amanhecido, era porque eu estava matutando de olhos fechados.
Nem
sei se buscava algum alívio, apenas acordei de repente.
O
curioso é que, no sonho interrompido, acontecia um encontro de pessoas que há um
bom tempo não vejo reunidas. Na vida imaginária, então, bota um bruto de um
tempão, já roçando o inalcançável.
A
aurora deu-se por piados, grasnados, grunhidos. O suspiro triste, coube a mim
soltá-lo.
Precipito-me,
acho que a fantasia rola solta como taco solto produz ruídos numa sala vazia.
Peraí!
Que não consigo me recordar de como foi a mudança, sequer lembro quem arrumou
poltronas, sofás e os badulaques no novo lar.
Taco
solto num piso novo, todavia, não bate direito com o desejado de uma casa recém-construída.
A
cabeça assoreada de entulhos contraditórios ou confusos sugere que o vazio da
sala soa como oco e o que está oco pode ser ocupado e ocupar é preencher e algo
preenchido estimula e os estímulos fazem com que eu queira conviver, pois,
convivendo, minha pessoa tem a sua cara refletida, entre a TV e a janela, no
espelho falso de Magritte.
Formou-se
a meia-lua com as poltronas por nós ocupadas.
Dona
Marinalva, que foi a professora que me pôs no caminho suave do alfabeto, nem sei
se segue assando a tentadora torta de atum que, ô encontro bom, eu ia comendo
feito um morto de fome.
Como
gostamos de ler crônicas, Luisinho e eu trocamos bombons: ganhei Vento Vadio;
dei O espalhador de passarinhos.
Embora
a cereja que não poderia faltar estivesse presente, ter Nina, a gata,
lagarteando sobre Os sabiás da crônica no tampo da mesinha é o sinal de que
a realidade se põe incômoda quando ilusória.
Porque
fajuto de tão sedutor, o onírico do mundo polariza.
Tanto
dou trela ao que se oferece como falso, algo tosco, farragem, miscelânea, uma
mistureba de coisas banais com ostensivas raízes no extraordinário, que salivo.
Pode-se
pensar que o sortido tem lá a sua gloriosa desimportância, certo sabor a marmelada
de chuchu. Talvez facilite a compreensão do que vive, como se atropelamentos,
acarretamentos e descarrilamentos armassem o chão, o corriqueiro do cotidiano.
Baixo
a bola, e abro a janela.
Deixando
de chupar a manga azeda do desespero, percebo: tenho que buscar oxigênio no
instante em que vivo.
Entretanto,
viver implica renovação.
Considerando
este seis de dezembro como dia de são Nicolau: com pedaços de palha seca de
milho, a cestinha é a manjedoura; a arvoreta de papel com uns dez centímetros
de singeleza dá um toque artesanal; dois bumbinhos dourados estão desgarrados; comparada
aos demais elementos, a bolona vermelhona fica bem sobranceira.
Neste
cantinho redecorado do meu coração ateu, faz Natal.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de dezembro de 2021.