domingo, 12 de dezembro de 2021

A árvore

 

A árvore

 

Tenho que desmontar a árvore!

Caramba, carambola, difícil desmontar o nem montado.

Tem o lado bom, acordei cedo. Era madrugada, estava escuro, não porque nem tivesse amanhecido, era porque eu estava matutando de olhos fechados.

Nem sei se buscava algum alívio, apenas acordei de repente.

O curioso é que, no sonho interrompido, acontecia um encontro de pessoas que há um bom tempo não vejo reunidas. Na vida imaginária, então, bota um bruto de um tempão, já roçando o inalcançável.

A aurora deu-se por piados, grasnados, grunhidos. O suspiro triste, coube a mim soltá-lo.

Precipito-me, acho que a fantasia rola solta como taco solto produz ruídos numa sala vazia.

Peraí! Que não consigo me recordar de como foi a mudança, sequer lembro quem arrumou poltronas, sofás e os badulaques no novo lar.

Taco solto num piso novo, todavia, não bate direito com o desejado de uma casa recém-construída.

A cabeça assoreada de entulhos contraditórios ou confusos sugere que o vazio da sala soa como oco e o que está oco pode ser ocupado e ocupar é preencher e algo preenchido estimula e os estímulos fazem com que eu queira conviver, pois, convivendo, minha pessoa tem a sua cara refletida, entre a TV e a janela, no espelho falso de Magritte.

Formou-se a meia-lua com as poltronas por nós ocupadas.

Dona Marinalva, que foi a professora que me pôs no caminho suave do alfabeto, nem sei se segue assando a tentadora torta de atum que, ô encontro bom, eu ia comendo feito um morto de fome.

Como gostamos de ler crônicas, Luisinho e eu trocamos bombons: ganhei Vento Vadio; dei O espalhador de passarinhos.

Embora a cereja que não poderia faltar estivesse presente, ter Nina, a gata, lagarteando sobre Os sabiás da crônica no tampo da mesinha é o sinal de que a realidade se põe incômoda quando ilusória.

Porque fajuto de tão sedutor, o onírico do mundo polariza.

Tanto dou trela ao que se oferece como falso, algo tosco, farragem, miscelânea, uma mistureba de coisas banais com ostensivas raízes no extraordinário, que salivo.

Pode-se pensar que o sortido tem lá a sua gloriosa desimportância, certo sabor a marmelada de chuchu. Talvez facilite a compreensão do que vive, como se atropelamentos, acarretamentos e descarrilamentos armassem o chão, o corriqueiro do cotidiano.

Baixo a bola, e abro a janela.

Deixando de chupar a manga azeda do desespero, percebo: tenho que buscar oxigênio no instante em que vivo.

Entretanto, viver implica renovação.

Considerando este seis de dezembro como dia de são Nicolau: com pedaços de palha seca de milho, a cestinha é a manjedoura; a arvoreta de papel com uns dez centímetros de singeleza dá um toque artesanal; dois bumbinhos dourados estão desgarrados; comparada aos demais elementos, a bolona vermelhona fica bem sobranceira.

Neste cantinho redecorado do meu coração ateu, faz Natal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Uma gracinha

 

Uma gracinha

 

O bebê está botando coisas na boca. Tudo em que vai pondo a mão vira um treco passível de divertido abocanhamento. Tudo mesmo, sem exceção, seja um objeto delicioso como um biscoito ou uma bugiganga asquerosa como um pente.

A criaturinha, de repente, tira aquele som batuta do troço cheio de dentes. Um bocado batuta, tanto que ela ri dengosa.

Babando, e repetindo o achado daquele som. É conquista travessa que não dá sentido algum ao mundão ao seu redor, mas que dá motivo pra rir à beça, isso dá.

E esta fofurinha bebê ri, ri, ri. Escandalosamente ri, tão feliz da vida, uma pequena fonte de criatividade a experimentar-se inventora a fazer do pente de plástico uma harpa nas mãos de uma Godelieve Schrama tocando À l’espagnole de Andre Caplet.

Que diabo eu tô fazendo?

Era pra eu ter lido uma crônica, cuja leitura foi indicada por jornalista a quem levo a sério porque escreve em jornal impresso, e não vou ficar com picuinha com nenhum dos nossos profissionais de imprensa.

Como não faço biquinho sequer quando deixo de lado o que deveria ter feito por prazer, se não li o cronista sugerido, fiquei maravilhado ao ler uma resenha crítica musical; e mais ainda, ouvindo Divertissement!, disco gravado pela c/o chamber orchestra, assim em minúsculas, que dispensa maestro regente ou músico condutor.

Estou pisando em ovos. Melhor seria parar, todavia não paro. Ando selvagem de tanta alegria.

Anárquicos gozadores, meus neurônios acalantam a menininha em fraldas que faz uma música adorável com o pente de bolso achado no chão da sala empanturrada de adultos bem passados.

Putz. Quero mais é me divertir feito bebê.

Na vida ideal, a diversão impediria o mundo de produzir desgraças em série. Nada disso acontece; por obra do riso, só bem-estar.

Um bem-estar em minha cabeça, tão repleta de minhocas a adubar culpas, à espera do próximo salvador da pátria, que me tire os pecados endiabrados que me fabricam o andar ligeiro, seja devagar como quem lambe um pirulito, seja chupando sorvete sob sol a pino.

Ligeiramente imbecil, entendo que, indo morro abaixo, não estou na banguela, não vou em ponto morto e não quero puxar o freio. Prefiro ir na maciota, na corda bamba de galochas, tirando fina da tinta fresca e passando ao largo de bocomocos bocós.

À cabeceira, o poderoso paizão vai dizendo como a banda deveria tocar, mas a nora encrenqueira refuta-o, ponto por ponto.

Sem fazer careta, a mulher do pai vê-se forçada a abrir outro vinho, que não para de multiplicar-se.

Um dos genros, talvez o menos interesseiro, esse não diz nada que contrarie as concordâncias generalizadas que sua cabeça pontua. Ora a favor da guerra contra os mosquitos da dengue, ora a favor da venda das estatais que tiram o couro dos homens de bem deste país.

Santo! Santíssimo!

Sem nunca antes ter andado, a bebê dá a primeira engatinhada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2021.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A caixa

 

A caixa

 

Por favor, um instante.

Quando a vida cobra de mim mais do que aguento oferecer, então, a um passo de chamar urubu de meu louro, o jeito é pedir água, ter um momento para desfrutar da paz.

Ninguém gosta de gente que sai dando patada e depois se desculpa com a cara de pau de sincerão. O honesto ousa chorar pela bezerra; e fica um amorzinho depois de ter tomado um café, chupado um sorvete, enfiado o bigode do chope no enfezado de tanta brabeza.

Só um segundo, por gentileza.

É que preciso espraiar um tanto, que não sou maledicente pra jogar nos ombros dos outros o sarrafo que tomo no lombo quando contrario quem não suporta ser confrontado.

Não barganho comigo alguma decência, escolho a firmeza que não aborreça. É, não escarro de volta quando cospem em mim.

Espelho, espelho meu, antes eu do que você.

Como não conheço a mágica de engolir a seco, pra não tripudiar na mesma moeda dos prepotentes, busco sentir no rosto a brisa das ruas, quero ouvir o burburinho dos sonhos ainda não atendidos ou opto pelos abraços que o acaso acabe por me presentear.

Quando faço conta de ser agraciado pela sorte, roo as unhas. É que a demora parece maior que a minha fibra de valente. É que a coragem que julgo expor nos dentes cerrados vira confissão.

Pra não acabar maluco, já que tento me equilibrar meio doido, meio são, vou ao léu dos passos, desacelerando a cabeça agitada.

E tem rolinhas zanzando na calçada, curto observá-las. Graciosas, não ficam irritadas com a cegueira de humanos azafamados.

E vejo vira-latas cheirando uns aos outros; aí, fico na minha.

Putisgrila! Qual é a minha?

Quando fico cheio de grilos, tiro a viola do saco e vou gastar sapato de loja em loja, salivando, calçando, vestindo e experimentando tudo o que não me serve, não me agrada, não me convence a ficar longe do sol, que a tarde é uma criança, criança que gosta da gente embalada.

Viva! Vida que me faz desarvorado. Viva! Minha vida de coqueiros, palmeiras e outras pupunhas, quero cantá-la à toa, destoando, errando letras e cifrões. Me permita, ó vida, que me perca a caminho de casa.

No entanto, peço licença pra lamentar os pares de tênis espalhados debaixo da cama.

Será sinal da ziquizira dos infernos?

Que o silêncio seja quebrado, que sua quebra me estimule a pensar fora da caixa, pois na caixinha guardo as receitas, as bulas e restos de remédios, os vencidos e os válidos.

De verdade, no centro da cachola rego a flor dos desejos dando-lhe um toque pra que não murche nem seque. E como preservá-la viçosa, potente e vigorosa que nem aspirina consiga atingi-la?

Como não finjo que sou idiota, não avivo o fogo nas tripas comendo o que sobra da calabresa quatro queijos.

Além disso, não preciso de mais uma caixa, até porque não traria outro tênis pra ficar pegando poeira com os quatro pares, todos pretos, do mesmo modelo, da mesma marca. Que troço mais doido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2021.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Objeto de consumo

 

Objeto de consumo

 

A mesinha em que escrevo está rangendo. De uns dias para cá, as juntas também deram de bambear, de parecer que estão folgando um tanto a cada dia. Tem bicho comendo-a por dentro.

E pelo jeito está roendo sem cessar. Pela sobrevivência a qualquer custo. Pelo instinto de permanência da genética da espécie.

Digo à guisa de explicação científica, uma vez que julgo apropriada e coerente a ciência que divulgo. Sem medo do ridículo, pois a entendo lógica. Sem que esteja conforme ao que o animal faminto possa trazer na fisiologia, está de acordo com o que pondero.

Isso é o óbvio, tão óbvio, como pensador aldrabão a defender ideias radicalmente estapafúrdias, parece dispensável dizê-lo, todavia minha estupidez traça tramoias com fala adocicada.

Não sendo o porta-voz da consciência nem seu boneco ventríloquo, noto com felicidade que um dedo de delírio me deixa fácil.

Por impulso dramático, o louco vem dar uma espiadinha no mundo: a noite está caminhando para a alvorada; constato que faz sol e tenho frio nos pés; me certifico de que o cobertor dobrado ainda cobre minhas pernas, da canela para baixo.

Depois que o meu vô morreu, descobri que ele tinha o hábito de pôr uma coberta dobrada que nem esta minha mania de fazê-lo.

Descontraído, observo: a mesinha deve estar achando graça, pois faz décadas que está no batente.

Primeiro foi bancada para a máquina de costura de pedal que vovó usava para os pequenos consertos e a feitura de roupas novas a partir de moldes. E vários macacões vieram ao mundo por sua indústria.

Com vocação pra sorrisos, quando a elogiavam por seu talento pra luvas e cachecóis, vovó abria o sorrisão caliente.

A vida cortou o fio da meada, e a máquina restou calada.

Assim, propenso a confundir linhas e agulhas com palavras, pus o laptop no tampo que recobri com um tipo de papel colante, cujo padrão arremedava a madeira.

Não vou recorrer à fadiga e ao estresse de insone como impeditivos da clareza, a mesa é: real, objeto de quatro pernas com tampo pedindo outra demão de contact.

Nada de inovar, querer pôr pele de oncinha, porque nem posando de secretária de jacarandá ficaria mais linda, sexy, a miss mobília.

Entretanto, estou aborrecido, querendo contar o sonho que me veio enquanto apoiava meus cotovelos no tampo judiado.

Com quatro cadeiras, a mesa é outra.

O conjunto não se alinha com os polos terrestres. Em vão querê-las dispostas no eixo norte/ sul; não satisfeitas, as cinco danadas dialogam com o noroeste/sudeste e o nordeste/sudoeste.

Parece que tem alguma coisa impelindo à mudança.

Tem alguma coisa impelindo à mudança.

A coisa impelindo à mudança parece um cacto.

Este cacto que impele à mudança parece coisa fora do normal, algo muito sério: a anomalia animal que porta gorro de motoqueiro.

Peste de cacto?

Atesto que não, pois a mesa está possuída por cupim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2021.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Batalha de confetes

 

Batalha de confetes

 

Não foi a qualquer um que ela se dirigiu ao entrar no salão:

ꟷ Fique o senhor sabendo que é o cozinheiro mais competente que eu conheço.

A senhora é muito direta, disse o homem que fritava coxinhas num tacho enorme.

ꟷ Então, continue trabalhando duro para conquistar o topo.

ꟷ Se dependesse da senhora, seria arremessado pro topo.

ꟷ Direto e reto, com direito a postagens laudatórias na internet, pois pessoas como o senhor merecem que lhe puxem o saco.

ꟷ Se a senhora tivesse um, também o puxaria. Então, me contento a invejar sua inteligência. Porém a invejo saudavelmente, que a inveja boa louva a pessoa que trabalha sem trégua pelo melhor de si.

ꟷ O bom precisa que lhe tirem as traves do olho, pois o mundo anda carente da alegria de elogiar quem põe paio no feijão para a boca sentir o gosto de passar muito bem.

ꟷ Só espero que nenhum bêbado venha atrás das coxinhas.

ꟷ Sei, não. Porque nem comem nada, cachaça com fritura vira uma bomba no estômago dos cachaceiros.

ꟷ A senhora tem mente apurada, realça o ponto certo, o ponto que, encurralado no cotidiano, passaria despercebido.

ꟷ O senhor, mestre do fogão, torna simples o que a vulgaridade faz difícil, pois é fácil confundir quem não diferencia o cozido do cru.

ꟷ A pessoa vulgar confunde o cru com os glúteos.

ꟷ O chulo vai ao calão pra trocar nádegas por...

ꟷ É gente que abunda uma anca no quadril.

ꟷ E põe panca de gente cheia de marra.

ꟷ É marra de quem balança a pança como se pintada de ouro.

ꟷ Já suas coxinhas douradas e molhadinhas não são avacalhadas.

ꟷ Eu frito minhas coxinhas no fogo certo, frito-as bem, deixando-as no ponto que agrade ao paladar refinado, cuidando que não mordam a casca dura, intragável, com o rançoso de óleo velho.

ꟷ Quanta sabedoria na cabeça, soberbo mestre-cuca.

ꟷ O mundo instrui a cada dia, a cada hora, a todo instante.

ꟷ E quem é mestre de mão firme não fica cagando regras, regrando o mundo, preso ao mundano da vida, que isso é coisa mais besta. Tão besta, como se a coroa desse majestade ao rei, mas ninguém exibe a majestade que não tem. Pode rir de boca cheia, pois conhece a glória de nunca errar a mão. O senhor engendra o belo. Com mãos técnicas, elegantes, que amoldam, seguras na habilidade, mãos comandantes, que trabalham pelo prazer real, comestível.

ꟷ Só sei que vou do cru ao ponto.

ꟷ Um artesão... Um artista... Artista al dente, é quem o senhor é.

ꟷ E a senhora é gentil, sempre nobre ao enaltecer o que julga bom. Se o fraco tem um fraco por se mostrar tão pusilânime, a senhora fala certa do que diz.

ꟷ Que posso fazer? Foram meus pais que me ensinaram a dar valor a quem merece. Aliás, quem merece nem costuma ouvir pessoas que dispensam perícia pra identificar o perito bem-preparado. Fazer o quê! Continuarei dizendo a verdade, buscando elevar a autoestima de quem nem se envaidece com os fatos.

ꟷ Quem é grande não se engrandece.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de dezembro de 2021.

 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Chovendo no sapato

 

Chovendo no sapato

 

Direto ao ponto que fica na rodoviária, porque sapatos precisam de graxa regularmente, uma vez por semana. Não sou homem de ostentar tênis em batizado, o que muito me envergonharia. Não fica nada bem padrinho aquém do esperado, que a palavra conselheira, para que não se questione o garbo da autoridade, demanda o rigor de terno, gravata, camisa de colarinho limpo e sapatos apresentáveis.

Convite aceito, quero engraxado o par escolhido pra cerimônia.

Passo pela praça, onde fui desembestado, e tão menino.

No tempo que andava mais descalço do que arrastando chinelo, era eu quem oferecia os serviços batendo escova na caixa, e, como agrado à clientela, o trabalho em dobro de tinta e graxa gerava desconto. Além do mais, divertido era cantar o pano no couro, até ficar um brinco.

Descalço entre descalços, porém com as unhas aparadas, recordo o cerco dos descontentes, pois eu poderia trabalhar no bazar da minha mãe. Todavia, minha prosa era fácil e, por obra e graça dessa lábia tão loquaz, eis que já ia tirando a poeira dos sapatos de meio mundo.

Fui defendido no direito de engraxar, nem que fosse pelo cigarrinho de chocolate e meia dúzia de dadinhos, que isso era assunto meu. Que terceiros trocassem figurinhas com os bons homens da terra.

E essa gente era boa de papo, e boa em gorjetas minguadas.

Pois agora me recordo, chovia há dias e o barro untava tudo que ia cruzando as ruas, pelas alamedas e vielas, por poças e alagados, que todos os caminhos acabavam na Matriz, esse umbigo a fiéis e outros devotos, os trabalhadores com hostilidades a hóstias.

Numa guerra contínua.

Em nome da paz universal, que sapatos, carteiras, bolsas e cintos sejam fabricados com couro bioético, que o engenho humano escolha replicar bovinos, jacarés, cobras e lagartos.

Como não pego em armas nem as vendo, e porque calço sapatos, vou àquele ponto, ao que já não há na rodoviária.

Removido por pessoas que gostam de pisar com firmeza, uma vez que, do salto alto das suas prerrogativas de fino trato, elas dão leis pra que sejam cumpridas a valer, não no sapatinho, que nem aperta o calo.

Tomado de raiva ao ficar vendo latas-velhas atulhadas de sardinhas abatidas, pico a mula.

Passo por um carrinho de churros, o cheiro é fogo; e um de pipoca, já o barulho dá água na boca; mais outro, o de maçã do amor, um dente dói desde ontem.

Surpresa! O carrinho do milho faz parar.

Tem curau, pamonha, tortas doce e salgada, biju, polenta, sorvete, espiga no alho, tem hambúrguer de milho.

A folha de milho, o biju, vem quente da infância.

Experimento o x-milho, e dou nota dez ao sanduba.

Tentado a aprovar a polenta recheada de ricota: é uma pepita!

De repente, o rádio toca Being Alive. Nuvens chegaram que nem vi. Bernadette Peters, do nada? Uma euforia súbita me pega sem chapéu, e penso. O corpo sabe de cor, está chovendo no meu sapato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2021.

domingo, 28 de novembro de 2021

Força maior

 

Força maior

 

Dispensando garfo e faca, devorando o galeto gorduroso, pururuca, felicidade a passarinho, num assanhamento moleque, nutrido por uma gula incontrolável, numa comilança pornográfica, dando adeus à carne saborosa, tão tentadora, caprichada, então, realidade, não estrague os prazeres desse instante fora do tempo.

Gozando não saber o que seja moderação, a boca fica babando, e peço. Quero a alegria de um pedaço de pudim. Quero-a toda, que seja infinita, apetitosamente doce, gostosa, abundante, irresistível.

Faço as contas, posso comer outras fatias, e peço. Quero a balança condicionada à aleivosia de estar tudo bem, que ela não penda contra esta minha álacre destemperança.

Assim, a questão não tem raízes no quanto de grana trago no bolso. É por causa dos açúcares que vão juntar forças com meus triglicérides, tão mais frenéticos com estes olhos muito ávidos.

Não estou com fome, curto a animação. Eu posso comer, quero. Só não mastigo devagar, não engulo devagar, não vivo devagar e sempre: tasco o pudim a colheradas que é uma loucura, deixo que me consuma a parcimônia, abocanho-o.

Apreensivo, chamo pelo garçom, que nem liga pro desespero deste freguês que deseja desgraçadamente um sorvete, um banana-real.

Agora! E não depois de acabar o papinho.

E uma mulher vai de mesa em mesa. E vindo, chega à minha.

Fala e aponta, seu cão fugiu de casa. Já faz dez dias. Caso veja o cãozinho, é favor mandar um zap pro telefone indicado no cartaz. Se estiver com o fujão, ótimo!, avise de pronto e irá buscá-lo conforme for conveniente.

Digo que a vi colando este cartaz, que informa tratar-se de pedido de socorro, pelo desaparecimento de bichinho tão estimado.

A dona do totó perdido nas ruas tem mais pra falar.

No começo, só lhe dou a atenção que a minha educação me orienta à gentileza de agir em solidariedade, que muitas dores nos aproximam, e, uma vez que me apiedo, aprovo a causa.

Gozada a cabeça da gente, né?

Engraçado que não vou ao restaurante vizinho na esquina de casa, prefiro andar cinco minutos pra vir sentar-me neste cruzamento de ruas mais movimentadas, barulhentas, poluídas, e muito perigosas.

Quando a mãe diz que o seu filho mais novo está sofrendo, admito que o vi retirando algo dos postes que vejo da varanda.

Não há de ver que o primogênito foi mordido pelo cachorro quando estava dando uma surra no menor, uma coisa feia que ficou nas duas pernas, mordida sobre mordida. Foi preciso ir fazer curativo no hospital e o seu menino vai tomar vacina antirrábica por seis meses.

Confesso que notei que o caçula ia tirando cartaz por cartaz que o irmão mais velho ia colando de poste em poste.

A mãe arremata:

ꟷ O amor faz dessas graças, o maior quer o cachorro de volta em casa, porque foi presente de aniversário do irmãozinho e o pequenino não quer saber mais de animal que ataca quem ele tanto ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2021.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Vira, vira, vira

 

Vira, vira, vira

 

Aristeu! Aristeu!

Agora já nem me falta essa, ser acordado porque esse tal de Aristeu custa atender quem está se esgoelando debaixo da minha janela.

Ainda que o meu relógio biológico tenha dado duas horas a mais no aconchego do travesseiro, nem dá pra espreguiçar.

Aristeu! Aristeu!

Da cama à janela, faço dois metros num pé. O chão, sólido, nem se desmancha quando pisoteado pelo brutamonte em disparada, uma vez que a elegância paga com o escarcéu a gritaria descabelada a martelar os meus tímpanos de beija-flor.

Colérico, enfurecido, pela boca da janela, aberta num tranco, vomito uma revoada de palavrões cabeludos. E tomo uma lufada ensolarada, porque a energia cósmica que bafeja as coisas todas nem repara neste espírito, de pessoa sentida com o mundo.

Aristeu! Aristeu!

Portanto, faço o diabo pra tornar claro, muito claro, que Aristeu não dará as caras porque está com birra. Nada de ficar com essa balbúrdia dos infernos porque o danado do caipora tem o sangue do cão, e nem surdo não tem como não ouvir tamanha algazarra.

Em termos prudentes, traduzo:

Ê maritaca, maritaca das alvoradas, pare com o alvoroço.

Não é que funciona? Mesmo sem o Aristeu, a escandalosa voa.

Isso de ter jeito pra lidar com bicho é novidade. Talvez eu mude de profissão e vire adestrador. Sem gabolice, devo ter nascido pra isso.

Será que é fácil arregimentar uma clientela grande pra ficar rico e ir morar em apartamento com piscina e churrasqueira?

Chega de casa. Quero um apê que tenha piscina na sacada. Um lar maravilhoso que traga o mundo dos sonhos pro valor do IPTU.

Vou me esbaldar. Vou deitar no solário de jacarandá até que o sol torre os miolos. Chamarei na viola ponteios rasgados até que a alegria espiche o olho pro meu terraço. Beberei aquela água benta pela beleza da cana que nem urubu há de urucar com o bico torto.

Sim, quero muito ir viver num condomínio chique com jardineiro pra cuidar de tulipas, cravos, begônias, rododendros, rosas e samambaias.

Bailarina de vento, samambaia é admirável, leve.

As rosas, essas terão que ser amarelas, que é pra dourar o sussurro da brisa como prenda às samambaias.

Viverei no prédio chamado Fortaleza, que terá um heliporto no topo; os outros seis do condomínio também terão, porque vai ser bom pairar pelo mundo feito gaivota.

Serão sete, é que o número atrai fluidos excelentes, ou a semana não teria sete dias ou o arco-íris não teria sete cores ou a Branca de Neve não teria os sete anões pra protegê-la da Rainha da Maçã ou o sétimo filho não viraria lobisomem ou a independência não seria no sétimo dia de setembro ou as maravilhas do mundo não seriam sete nem as artes seriam.

E pra não errar na conta, brindo às sete dezenas da Virada.

Pois é o que digo, não falto à sinceridade quando falo que não minto que não falto à verdade quando digo que invento.

Eu não minto. Não minto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2021.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

A alma do negócio

 

A alma do negócio

 

O negócio é o seguinte: não há cara ou coroa que faça a sorte vir cantar ao pé do ouvido de quem está dormindo, nem de olhos abertos.

Incompreensível, você diz, e fecha os olhos pra que o caminhão de lixo mude de ideia a respeito dos domingos e passe bem na hora que está desejando, mas ele não se materializa, nem com sua reza mansa, educada, de pessoa nascida pra ter a dignidade preservada, como um girassol solitário num canteiro de hortênsias.

O lixo, sim, é preciso dar um destino menos desafortunado ao lixo de todo dia, mesmo quando se está dormindo, até de olhos abertos.

Incompreensível, você pensa, e faz de conta que piscar três vezes seguidas fará com que um gás letal fulmine moscas, baratas e os ratos, ainda que continue sendo domingo e o latão tenha se empanturrado a tal ponto que um mililitro a mais dos restos desprezados por pratos e bocas passará à categoria de calamidade.

Até aqui, tudo bem?

O domingo de fato continua igual a tantos outros já superados sem maiores crises, porque, dormindo ou acordado, o filme da tarde é velho conhecido, um companheiro positivo que tem uma mensagem bacana, que é possível manter o astral lá em cima, que a falta de vontade para querer lutar contra o sono é uma capitulação benigna.

Incompreensível, você se lamenta, e trata de indignar-se com a vida que oferece a resignação como um prêmio por bom comportamento, e sai do sofá, vai à janela e não acredita que a montanha de sacos ainda permaneça indiferente ao chorume vertendo ao lado da casa.

Pode ser que na trigésima terceira vez a fedentina nem esteja assim tão nauseante nem a porcaria espalhada esteja mais convidativa às já citadas criaturas, sim, baratas, moscas e os ratos, agora contando com pombos no aproveitamento do que seja aproveitável.

Incompreensível, você parece entender, e tenta acreditar que está entendendo o domingo, como um organismo que produz excrecências ao preservar-se vivo, estando a mente alerta ou sonolenta.

Tudo bem persistir?

O próximo passo seria aceitar que os cavalinhos bem-informados relatassem os pormenores cafonas de outra rodada concluída dentro do combinado, com lixeiras destroçadas por bêbados uniformizados e puladores de catraca implorando pra que o domingo nunca termine.

Todavia, é na segunda-feira que a alma precisa estar nova e pronta pra outra, pro batidão de ganhar dim-dim, como quem ganha mais vida pro novo tempo que ainda não veio.

Afinal, na semana que começa, o corpo tem que estar preparado, a mudança da água pro vinho há de surgir a alcoólatras e regenerados, porque o jogo não para, não pode parar e nem se espera que pare bem no instante da sua vez.

Incompreensivelmente, para você, o celular não tem sinal, o ônibus não vem vazio, o crédito jura ser muito especial, e, não sendo elevador pra travar sem luz, o girassol do subsolo sobe pro sol.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2021.

domingo, 21 de novembro de 2021

No gatilho

 

No gatilho

 

Passou a raiva?

A pergunta está mal formulada. Do ponto de vista de quem se acha vítima, e não algoz, há uma inversão de papéis. E este comportamento ocorre a bel-prazer, sem que haja uma divisão de assuntos importantes sobre os quais se deva marcar território e os demais, secundários.

Achando que percebe o que está acontecendo, o olhar é de quem está a fim de continuar a conversa, uma vez que esta parte, a humana, deseja entender o que tinha acontecido. Pois é preciso situar-se, para evitar um novo ataque, uma outra investida contra a mão que só quer fazer carinho, um cafuné gostoso no cocuruto do seu bichaninho.

E que bichinho mais traiçoeiro, com sobressaltos violentos, que não sabe o quanto é amado. Até parece que não quer retribuir o amor.

De onde vem este ímpeto agressivo? Virá da natureza felina? Ou é por assimilação do dia a dia caseiro?

Verdadeiramente sem nenhum aviso, o bicho pula em quem esteja querendo fazer um agrado. E salta: já unhando, já mordendo. Como se desse um clique na sua mente, usa garras e dentes para defender-se do amor que recebe.

Gato não fala, mia. Mia e olha. Encara e serpeja a cauda.

Se falasse, é bem provável que estivesse dizendo o quanto se sente constrangido por ter seu nome escrito de maneira tão chumbrega, em letras douradas no interior de um coraçãozinho kitsch, como se o selo real na parte superior da cestinha tivesse que paramentar um forninho de pizza bizarro, horroroso, uma imitação vergonhosamente vulgar de uma casa de joão-de-barro, ainda mais sendo feito de pano aveludado, brilhoso, de um azul quase roxo, violeta, mais para cor da morte.

Chega de carícias, pois é ridículo o rei dos animais ser tratado como um brinquedo, um bibelô, sendo a joia que é. Ia dizendo a cauda.

A raiva não é a tônica deste dueto capenga, um duelo muitíssimo descalibrado entre a plebe e a realeza.

O lado humano do vetor cisca ao redor da fera, numa insistência de subalterno, de serviçal, de vassalo em busca de uma benção, embora prontamente ignorado, acintosamente desdenhado, ou pateticamente insignificante.

Talvez merecesse mesmo a repugnância, e tão somente um miado expressasse o estado da alma daquela criatura sem dono, indomável, dada a um humor mefistofélico pela castração não autorizada.

Pra que não reste dúvida: o gato exerce a função de soberano.

Senhor, um narcisista em tudo.

Se gato conhece a maldade, aquele indivíduo fofinho, rechonchudo, é um ser bastante perverso. Ou melhor, um gozador de perversidades a regozijar-se, pois nem se esforça transmitir os sentimentos de rei que ronrona à pessoa que ri e graceja à toa.

E por causar perplexidades em quem tanto o ama, mima, idolatra e adora feito criança, regozija-se.

Zuretinha da silva, acha graça rosnar pro gato.

O gato no gatilho deita e rola sobre o tênis, pois, quando um quer, um já faz a fuzarca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2021.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A banalidade

 

A banalidade

 

Dessas duas, qual? Remexo os apegos à convivência com pessoas divertidas, que conseguem me fazer rir dos meus pequenos exageros de menino grande a pedir cuidados, ou divirto aquelas que gostam de relaxamento sem frescura.

Querendo esquecidas suas feridas tantas vezes latejantes, lutando não serem arranhadas de supetão ou levemente resvaladas, há essas que tocam a vida sem apelarem à procrastinação, como método, como se o muito bem explicadinho aliviasse o sofrimento.

Entre o dedo na ferida e a roçadinha na casca, o coração palpita.

Isso satisfaz a criança afeita a gostosura de usufruir das oferendas do mundo sem exigir que haja sentido no que lhe é apresentado, eis a surpresa da vida: dar-se por casual, irrecusável, cuja necessidade está em ensinar uma dura lição.

Aliás, nem preciso entender o que me fere, fico ferido.

Quero que continue, mesmo que me seja doloroso experimentar um instante de aprendizado intransferível, incomunicável, tão íntimo. Terei como aguentar, acaso prossiga acreditando que a dor ensina o que for difícil de apreender. Se hei de sabê-lo, é por vivê-lo.

Conservo-me lúcido, capaz de rir e de chorar, longe do tudo ou nada que pede utilidade às alegrias desatinadas.

Não se trata de sempre obter vantagem, trata-se de viver. Sem essa de medir a dor pelo positivo que ela possa produzir.

Xô, Auguste Comte, xô!

Seu Rodrigues, relaxe. O importante é que o amanhã dessa cirurgia chegou no momento certo, quando o dinheiro estava na mão e a areia virando pedra inflamava. O anedótico da vida.

Adeus, espontaneidade. Isso de controlar a dor é difícil, pois o corpo estranho causa incômodo, cólica, um mal-estar porreta.

Já para fora de uma vez, já!

Como uma fatia de muçarela é a dose fora do limite do suportável; esse queijinho bem digerido ultrapassa o tolerável; é além do razoável; esse volume aumentado, trabalhado, arredondado; os cuspes da areia são a dádiva estranha que provoca a reação.

Reagir é a videocolecistectomia? Pra ontem.

Tsc tsc. Metáforas não inflamam as entranhas. A bile existe, é real e tira o sono de quem baba por um torresminho.

Depois da intervenção, compartilho a experiência: sinto a novidade que permanecerá incicatrizável em mim.

O simplório confunde a sua compreensão de mundo com a dor de estar vivo, e os problemas somem dizendo os nomes.

O truque do esperto está em tornar inteligível o pouco lógico, porém querer que todo mundo chore com o êxodo é primário. Afinal, os outros não sofrem por aproximação.

O inteligente da tarde dá passagem ao ora pro nobis que tanto pede o imediato da tradução, pra que assim o elo do universo com a vesícula já extirpada vá além do sentido.

Amém nós tudo, que amamos revelar essa amizade eterna novinha em folha que tanto nos faz bem, um bem danado.

Tenho os furos, fui operado. Tenho a pedra, chamo-a pérola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de novembro de 2021.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cara normal

 

Cara normal

 

Se prometi acolher mudanças depois de vacinado, mantive a minha recusa de virar caçador de passarinho só porque apareceu esse bando barulhento desejoso de estorvar o pouso das doses no braço.

Continuando desdenhoso de arapucas, bem ou mal camufladas, fui obediente ao calendário estabelecido pelas autoridades, e o crédito foi só às que fizeram soar os gorjeios das aves de bico acutilante.

Duplamente bicado, porém, permaneço fiel ao uso da máscara em público. Pode ser que a estabilidade esteja associada à produção dos anticorpos, mas nem irrita mais esse recurso, já que adotei um modelo, descartável e baratinho, com um metal que permite ajustar a borda no nariz, e meus óculos deixaram de retratar-me um bufante.

E este senão, a ansiedade, ainda testa a minha nova carapaça.

Convencido a abandonar as mil caretas antes de ostentar o sorriso gentil a quem me queira de volta à normalidade de cada dia, aceitei de pronto o convite para ir a um aniversário.

Cadê cabeça pra cervejinha descer belê?

Não bastasse ter chegado quando o pai descarregava um bolo com aquele formato anatomicamente muito aparentado à serpente eriçada do famigeradíssimo Jardim das Árvores Sagradas, estava envergando a Bocarra dos Stones.

Como complemento: as lentes espelhadas davam bandeira de que fumara uma erva natural e falar enrolado em câmera lenta era sinal da minha velha infantilidade.

A cara da mãe dizia tudo; entendi que se ficasse no meu canto nada de ruim poderia acontecer.

O garotão que estava comemorando cinco anos achava o máximo a Blue Origin ir ao espaço sem explodir toda vez que voltava pra casa; já imaginou como deve ser surreal dar um barro na gravidade zero?

A irmãzinha mais atirada quis saber por que eu não estava falando direito; achando que estava bonito no pedaço, sorri.

Como era um cara legal às pampas, o avô veio conferir se eu estava bebendo o presente que trouxera pro seu neto.

Exaltei-me e ri alto, saracoteando-me todo.

Ao lado da geladeira, formou-se a comissão.

Pra ir atrás de mais uma, entornei a latinha.

Na maior paz do mundo, o meu amigo, pai do menino louco pra ver as velinhas virando as labaredas escapulindo do foguete, encheu uma sacolinha com as latas que restavam e, numa cortesia sem igual, botou outra meia dúzia, mas das suas, muito estupidamente geladas.

Diante dessa demonstração evidente de amor, não conseguiria me conter mesmo se pensasse nisso.

Soluçando e lacrimejando, fiquei tentado a abraçar um pessoal tão bacana, gente que nem me viu entrando no carro porque era óbvio que colocaria o cinto de segurança, travaria a porta e partiria numa boa, na torcida pra achar um boteco.

Como ainda não sei resistir à ideia de homenagear toda pessoa tão humana, mandei várias mensagens. Ficou faltando dizer que o telefone e eu temos seguro contra poste metido a assanhado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2021.

domingo, 14 de novembro de 2021

O cronista cochilando

 

O cronista cochilando

 

Quando o cronista está pensando na vida, sua mente não se sente apta a controlar a velocidade do derretimento da pedra de gelo no suco de manga. Mais rápido ou mais devagar.

Se apressado, matando em três goladas, o gelado sensibilizaria os dentes, que padeceriam o incômodo da temperatura tão baixa.

Se demorasse, ficaria ruim de beber, esquentaria, mas não iria virar um tição pegando a acordar-se em brasa viva. É claro que não.

Entre o noroeste e o minuano, ache-se a brisa ideal, de acordo com as predisposições a tomar o suquinho: no conforto da poltrona ouvindo hits dos velhos tempos ou confrontando juventudes desconfinadas nas calçadas muvucadas.

Cronista, não calce as galochas de aporrinhador que não se manca ao brindar neuroses corriqueiras como nevroses excedentes. Exposto ao bafo de um verão permanente, faça-se aragem das primaveras.

As suas mãos ficam meladas quando descasca a fruta. Por querer aberta a caixinha, tem tesoura numa gaveta do gabinete. Com o suco já adoçado, não esqueça o açúcar em cima da pia. Como não liga pros impostos incidentes, beba. Queira ao menos o carbono calculado com a semente fora de todo mar de fogo.

Como cachorro lambendo o chulé? Melhor não, nada de desejar-se satisfeito, porque um dos passatempos do mundo é contradizer.

O que tem contra você? A estrada é longa, cheia de curvas, corta a floresta de árvores centenárias. Como nem desconfia dos quilômetros rodados, é preciso ter acostamento para que o motor seja resfriado. E quando não sabe mais o que não sabe, funde a cuca. E quando acha que sabe o que fala, a língua desenrola o silêncio. Acalme o facho.

Sem bússola nem facão, perca-se. Ou corte por atalhos, só evite os pastos onde vacas regurgitam a mansidão das tardes modorrentas.

Tem dia bom para viver em paz? Não há paz que pasteurize o leite apenas com o olhar. Pro dia bom que pareça com domingo? Que haja o que faça querer o parmesão no espaguete.

Pratique a esperança de superar tantos desejos desesperados.

Entre a aurora do sono e o anoitecer do sonho, houvera as histórias da madrugada. Entre este crepúsculo e aquele, aconteceu uma porção de coisas. Entre o que supõe ter ocorrido e o que poderia ter lembrado, aprofunde alegrias, narre outras dores.

Você até quer negar que gosta de tirar uma pestana no sofá. E daí? O mundo continua exalando suspiros, lágrimas e muitas lorotas.

Cronista, dê ouvidos à razão e não se divirta somente trabalhando. Você não é formiga e não se ocupa de querer ser uma. Embora goste de grama seca e terra molhada, não cava tocas.

Ressabiado, talvez esteja comendo manga. Sobe o cheiro da fruta recém descascada. Acha macia a carne da manga.

E essa ambulância que passa rasgando?

Por via das dúvidas, constata que os ruídos da mente não mancham o escrito da camiseta: amor da minha vida, eu sou mesmo exagerado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2021.