A
banalidade
Dessas duas, qual? Remexo os apegos à
convivência com pessoas divertidas, que conseguem me fazer rir dos meus
pequenos exageros de menino grande a pedir cuidados, ou divirto aquelas que
gostam de relaxamento sem frescura.
Querendo esquecidas suas feridas tantas
vezes latejantes, lutando não serem arranhadas de supetão ou levemente
resvaladas, há essas que tocam a vida sem apelarem à procrastinação, como método,
como se o muito bem explicadinho aliviasse o sofrimento.
Entre o dedo na ferida e a roçadinha na
casca, o coração palpita.
Isso satisfaz a criança afeita a
gostosura de usufruir das oferendas do mundo sem exigir que haja sentido no que
lhe é apresentado, eis a surpresa da vida: dar-se por casual, irrecusável, cuja
necessidade está em ensinar uma dura lição.
Aliás, nem preciso entender o que me fere,
fico ferido.
Quero que continue, mesmo que me seja doloroso
experimentar um instante de aprendizado intransferível, incomunicável, tão íntimo.
Terei como aguentar, acaso prossiga acreditando que a dor ensina o que for
difícil de apreender. Se hei de sabê-lo, é por vivê-lo.
Conservo-me lúcido, capaz de rir e de
chorar, longe do tudo ou nada que pede utilidade às alegrias desatinadas.
Não se trata de sempre obter vantagem,
trata-se de viver. Sem essa de medir a dor pelo positivo que ela possa
produzir.
Xô, Auguste Comte, xô!
Seu Rodrigues, relaxe. O importante é
que o amanhã dessa cirurgia chegou no momento certo, quando o dinheiro estava
na mão e a areia virando pedra inflamava. O anedótico da vida.
Adeus, espontaneidade. Isso de controlar
a dor é difícil, pois o corpo estranho causa incômodo, cólica, um mal-estar porreta.
Já para fora de uma vez, já!
Como uma fatia de muçarela é a dose fora
do limite do suportável; esse queijinho bem digerido ultrapassa o tolerável; é além
do razoável; esse volume aumentado, trabalhado, arredondado; os cuspes da areia
são a dádiva estranha que provoca a reação.
Reagir é a videocolecistectomia? Pra
ontem.
Tsc tsc. Metáforas não inflamam as
entranhas. A bile existe, é real e tira o sono de quem baba por um torresminho.
Depois da intervenção, compartilho a experiência:
sinto a novidade que permanecerá incicatrizável em mim.
O simplório confunde a sua compreensão
de mundo com a dor de estar vivo, e os problemas somem dizendo os nomes.
O truque do esperto está em tornar
inteligível o pouco lógico, porém querer que todo mundo chore com o êxodo é
primário. Afinal, os outros não sofrem por aproximação.
O inteligente da tarde dá passagem ao ora
pro nobis que tanto pede o imediato da tradução, pra que assim o elo do
universo com a vesícula já extirpada vá além do sentido.
Amém nós tudo, que amamos revelar essa
amizade eterna novinha em folha que tanto nos faz bem, um bem danado.
Tenho os furos, fui operado. Tenho a
pedra, chamo-a pérola.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 18 de novembro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário