domingo, 14 de novembro de 2021

O cronista cochilando

 

O cronista cochilando

 

Quando o cronista está pensando na vida, sua mente não se sente apta a controlar a velocidade do derretimento da pedra de gelo no suco de manga. Mais rápido ou mais devagar.

Se apressado, matando em três goladas, o gelado sensibilizaria os dentes, que padeceriam o incômodo da temperatura tão baixa.

Se demorasse, ficaria ruim de beber, esquentaria, mas não iria virar um tição pegando a acordar-se em brasa viva. É claro que não.

Entre o noroeste e o minuano, ache-se a brisa ideal, de acordo com as predisposições a tomar o suquinho: no conforto da poltrona ouvindo hits dos velhos tempos ou confrontando juventudes desconfinadas nas calçadas muvucadas.

Cronista, não calce as galochas de aporrinhador que não se manca ao brindar neuroses corriqueiras como nevroses excedentes. Exposto ao bafo de um verão permanente, faça-se aragem das primaveras.

As suas mãos ficam meladas quando descasca a fruta. Por querer aberta a caixinha, tem tesoura numa gaveta do gabinete. Com o suco já adoçado, não esqueça o açúcar em cima da pia. Como não liga pros impostos incidentes, beba. Queira ao menos o carbono calculado com a semente fora de todo mar de fogo.

Como cachorro lambendo o chulé? Melhor não, nada de desejar-se satisfeito, porque um dos passatempos do mundo é contradizer.

O que tem contra você? A estrada é longa, cheia de curvas, corta a floresta de árvores centenárias. Como nem desconfia dos quilômetros rodados, é preciso ter acostamento para que o motor seja resfriado. E quando não sabe mais o que não sabe, funde a cuca. E quando acha que sabe o que fala, a língua desenrola o silêncio. Acalme o facho.

Sem bússola nem facão, perca-se. Ou corte por atalhos, só evite os pastos onde vacas regurgitam a mansidão das tardes modorrentas.

Tem dia bom para viver em paz? Não há paz que pasteurize o leite apenas com o olhar. Pro dia bom que pareça com domingo? Que haja o que faça querer o parmesão no espaguete.

Pratique a esperança de superar tantos desejos desesperados.

Entre a aurora do sono e o anoitecer do sonho, houvera as histórias da madrugada. Entre este crepúsculo e aquele, aconteceu uma porção de coisas. Entre o que supõe ter ocorrido e o que poderia ter lembrado, aprofunde alegrias, narre outras dores.

Você até quer negar que gosta de tirar uma pestana no sofá. E daí? O mundo continua exalando suspiros, lágrimas e muitas lorotas.

Cronista, dê ouvidos à razão e não se divirta somente trabalhando. Você não é formiga e não se ocupa de querer ser uma. Embora goste de grama seca e terra molhada, não cava tocas.

Ressabiado, talvez esteja comendo manga. Sobe o cheiro da fruta recém descascada. Acha macia a carne da manga.

E essa ambulância que passa rasgando?

Por via das dúvidas, constata que os ruídos da mente não mancham o escrito da camiseta: amor da minha vida, eu sou mesmo exagerado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2021.

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