Quando
o cronista está pensando na vida, sua mente não se sente apta a controlar a
velocidade do derretimento da pedra de gelo no suco de manga. Mais rápido ou
mais devagar.
Se
apressado, matando em três goladas, o gelado sensibilizaria os dentes, que padeceriam
o incômodo da temperatura tão baixa.
Se
demorasse, ficaria ruim de beber, esquentaria, mas não iria virar um tição
pegando a acordar-se em brasa viva. É claro que não.
Entre
o noroeste e o minuano, ache-se a brisa ideal, de acordo com as predisposições
a tomar o suquinho: no conforto da poltrona ouvindo hits dos velhos tempos ou confrontando
juventudes desconfinadas nas calçadas muvucadas.
Cronista,
não calce as galochas de aporrinhador que não se manca ao brindar neuroses
corriqueiras como nevroses excedentes. Exposto ao bafo de um verão permanente, faça-se
aragem das primaveras.
As
suas mãos ficam meladas quando descasca a fruta. Por querer aberta a caixinha,
tem tesoura numa gaveta do gabinete. Com o suco já adoçado, não esqueça o
açúcar em cima da pia. Como não liga pros impostos incidentes, beba. Queira ao
menos o carbono calculado com a semente fora de todo mar de fogo.
Como
cachorro lambendo o chulé? Melhor não, nada de desejar-se satisfeito, porque um
dos passatempos do mundo é contradizer.
O
que tem contra você? A estrada é longa, cheia de curvas, corta a floresta de
árvores centenárias. Como nem desconfia dos quilômetros rodados, é preciso ter
acostamento para que o motor seja resfriado. E quando não sabe mais o que não
sabe, funde a cuca. E quando acha que sabe o que fala, a língua desenrola o
silêncio. Acalme o facho.
Sem
bússola nem facão, perca-se. Ou corte por atalhos, só evite os pastos onde
vacas regurgitam a mansidão das tardes modorrentas.
Tem
dia bom para viver em paz? Não há paz que pasteurize o leite apenas com o olhar.
Pro dia bom que pareça com domingo? Que haja o que faça querer o parmesão no
espaguete.
Pratique
a esperança de superar tantos desejos desesperados.
Entre
a aurora do sono e o anoitecer do sonho, houvera as histórias da madrugada. Entre
este crepúsculo e aquele, aconteceu uma porção de coisas. Entre o que supõe ter
ocorrido e o que poderia ter lembrado, aprofunde alegrias, narre outras dores.
Você
até quer negar que gosta de tirar uma pestana no sofá. E daí? O mundo continua exalando
suspiros, lágrimas e muitas lorotas.
Cronista,
dê ouvidos à razão e não se divirta somente trabalhando. Você não é formiga e não
se ocupa de querer ser uma. Embora goste de grama seca e terra molhada, não
cava tocas.
Ressabiado,
talvez esteja comendo manga. Sobe o cheiro da fruta recém descascada. Acha macia
a carne da manga.
E
essa ambulância que passa rasgando?
Por
via das dúvidas, constata que os ruídos da mente não mancham o escrito da
camiseta: amor da minha vida, eu sou mesmo exagerado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de novembro de 2021.
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