No
gatilho
Passou a raiva?
A pergunta está mal formulada. Do ponto
de vista de quem se acha vítima, e não algoz, há uma inversão de papéis. E este
comportamento ocorre a bel-prazer, sem que haja uma divisão de assuntos
importantes sobre os quais se deva marcar território e os demais, secundários.
Achando que percebe o que está
acontecendo, o olhar é de quem está a fim de continuar a conversa, uma vez que esta
parte, a humana, deseja entender o que tinha acontecido. Pois é preciso
situar-se, para evitar um novo ataque, uma outra investida contra a mão que só
quer fazer carinho, um cafuné gostoso no cocuruto do seu bichaninho.
E que bichinho mais traiçoeiro, com
sobressaltos violentos, que não sabe o quanto é amado. Até parece que não quer retribuir
o amor.
De onde vem este ímpeto agressivo? Virá
da natureza felina? Ou é por assimilação do dia a dia caseiro?
Verdadeiramente sem nenhum aviso, o
bicho pula em quem esteja querendo fazer um agrado. E salta: já unhando, já
mordendo. Como se desse um clique na sua mente, usa garras e dentes para defender-se
do amor que recebe.
Gato não fala, mia. Mia e olha. Encara e
serpeja a cauda.
Se falasse, é bem provável que estivesse
dizendo o quanto se sente constrangido por ter seu nome escrito de maneira tão
chumbrega, em letras douradas no interior de um coraçãozinho kitsch, como se o
selo real na parte superior da cestinha tivesse que paramentar um forninho de pizza
bizarro, horroroso, uma imitação vergonhosamente vulgar de uma casa de
joão-de-barro, ainda mais sendo feito de pano aveludado, brilhoso, de um azul
quase roxo, violeta, mais para cor da morte.
Chega de carícias, pois é ridículo o rei
dos animais ser tratado como um brinquedo, um bibelô, sendo a joia que é. Ia
dizendo a cauda.
A raiva não é a tônica deste dueto capenga,
um duelo muitíssimo descalibrado entre a plebe e a realeza.
O lado humano do vetor cisca ao redor da
fera, numa insistência de subalterno, de serviçal, de vassalo em busca de uma
benção, embora prontamente ignorado, acintosamente desdenhado, ou pateticamente
insignificante.
Talvez merecesse mesmo a repugnância, e
tão somente um miado expressasse o estado da alma daquela criatura sem dono,
indomável, dada a um humor mefistofélico pela castração não autorizada.
Pra que não reste dúvida: o gato exerce
a função de soberano.
Senhor, um narcisista em tudo.
Se gato conhece a maldade, aquele
indivíduo fofinho, rechonchudo, é um ser bastante perverso. Ou melhor, um gozador
de perversidades a regozijar-se, pois nem se esforça transmitir os sentimentos
de rei que ronrona à pessoa que ri e graceja à toa.
E por causar perplexidades em quem tanto
o ama, mima, idolatra e adora feito criança, regozija-se.
Zuretinha da silva, acha graça rosnar
pro gato.
O gato no gatilho deita e rola sobre o
tênis, pois, quando um quer, um já faz a fuzarca.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 21 de novembro de 2021.
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