domingo, 21 de novembro de 2021

No gatilho

 

No gatilho

 

Passou a raiva?

A pergunta está mal formulada. Do ponto de vista de quem se acha vítima, e não algoz, há uma inversão de papéis. E este comportamento ocorre a bel-prazer, sem que haja uma divisão de assuntos importantes sobre os quais se deva marcar território e os demais, secundários.

Achando que percebe o que está acontecendo, o olhar é de quem está a fim de continuar a conversa, uma vez que esta parte, a humana, deseja entender o que tinha acontecido. Pois é preciso situar-se, para evitar um novo ataque, uma outra investida contra a mão que só quer fazer carinho, um cafuné gostoso no cocuruto do seu bichaninho.

E que bichinho mais traiçoeiro, com sobressaltos violentos, que não sabe o quanto é amado. Até parece que não quer retribuir o amor.

De onde vem este ímpeto agressivo? Virá da natureza felina? Ou é por assimilação do dia a dia caseiro?

Verdadeiramente sem nenhum aviso, o bicho pula em quem esteja querendo fazer um agrado. E salta: já unhando, já mordendo. Como se desse um clique na sua mente, usa garras e dentes para defender-se do amor que recebe.

Gato não fala, mia. Mia e olha. Encara e serpeja a cauda.

Se falasse, é bem provável que estivesse dizendo o quanto se sente constrangido por ter seu nome escrito de maneira tão chumbrega, em letras douradas no interior de um coraçãozinho kitsch, como se o selo real na parte superior da cestinha tivesse que paramentar um forninho de pizza bizarro, horroroso, uma imitação vergonhosamente vulgar de uma casa de joão-de-barro, ainda mais sendo feito de pano aveludado, brilhoso, de um azul quase roxo, violeta, mais para cor da morte.

Chega de carícias, pois é ridículo o rei dos animais ser tratado como um brinquedo, um bibelô, sendo a joia que é. Ia dizendo a cauda.

A raiva não é a tônica deste dueto capenga, um duelo muitíssimo descalibrado entre a plebe e a realeza.

O lado humano do vetor cisca ao redor da fera, numa insistência de subalterno, de serviçal, de vassalo em busca de uma benção, embora prontamente ignorado, acintosamente desdenhado, ou pateticamente insignificante.

Talvez merecesse mesmo a repugnância, e tão somente um miado expressasse o estado da alma daquela criatura sem dono, indomável, dada a um humor mefistofélico pela castração não autorizada.

Pra que não reste dúvida: o gato exerce a função de soberano.

Senhor, um narcisista em tudo.

Se gato conhece a maldade, aquele indivíduo fofinho, rechonchudo, é um ser bastante perverso. Ou melhor, um gozador de perversidades a regozijar-se, pois nem se esforça transmitir os sentimentos de rei que ronrona à pessoa que ri e graceja à toa.

E por causar perplexidades em quem tanto o ama, mima, idolatra e adora feito criança, regozija-se.

Zuretinha da silva, acha graça rosnar pro gato.

O gato no gatilho deita e rola sobre o tênis, pois, quando um quer, um já faz a fuzarca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2021.

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