Cara
normal
Se prometi acolher mudanças depois de
vacinado, mantive a minha recusa de virar caçador de passarinho só porque
apareceu esse bando barulhento desejoso de estorvar o pouso das doses no braço.
Continuando desdenhoso de arapucas, bem
ou mal camufladas, fui obediente ao calendário estabelecido pelas autoridades, e
o crédito foi só às que fizeram soar os gorjeios das aves de bico acutilante.
Duplamente bicado, porém, permaneço fiel
ao uso da máscara em público. Pode ser que a estabilidade esteja associada à
produção dos anticorpos, mas nem irrita mais esse recurso, já que adotei um
modelo, descartável e baratinho, com um metal que permite ajustar a borda no
nariz, e meus óculos deixaram de retratar-me um bufante.
E este senão, a ansiedade, ainda testa a
minha nova carapaça.
Convencido a abandonar as mil caretas
antes de ostentar o sorriso gentil a quem me queira de volta à normalidade de
cada dia, aceitei de pronto o convite para ir a um aniversário.
Cadê cabeça pra cervejinha descer belê?
Não bastasse ter chegado quando o pai
descarregava um bolo com aquele formato anatomicamente muito aparentado à
serpente eriçada do famigeradíssimo Jardim das Árvores Sagradas, estava
envergando a Bocarra dos Stones.
Como complemento: as lentes espelhadas
davam bandeira de que fumara uma erva natural e falar enrolado em câmera lenta
era sinal da minha velha infantilidade.
A cara da mãe dizia tudo; entendi que se
ficasse no meu canto nada de ruim poderia acontecer.
O garotão que estava comemorando cinco
anos achava o máximo a Blue Origin ir ao espaço sem explodir toda vez que
voltava pra casa; já imaginou como deve ser surreal dar um barro na gravidade
zero?
A irmãzinha mais atirada quis saber por
que eu não estava falando direito; achando que estava bonito no pedaço, sorri.
Como era um cara legal às pampas, o avô
veio conferir se eu estava bebendo o presente que trouxera pro seu neto.
Exaltei-me e ri alto, saracoteando-me
todo.
Ao lado da geladeira, formou-se a
comissão.
Pra ir atrás de mais uma, entornei a latinha.
Na maior paz do mundo, o meu amigo, pai
do menino louco pra ver as velinhas virando as labaredas escapulindo do foguete,
encheu uma sacolinha com as latas que restavam e, numa cortesia sem igual, botou
outra meia dúzia, mas das suas, muito estupidamente geladas.
Diante dessa demonstração evidente de
amor, não conseguiria me conter mesmo se pensasse nisso.
Soluçando e lacrimejando, fiquei tentado
a abraçar um pessoal tão bacana, gente que nem me viu entrando no carro porque
era óbvio que colocaria o cinto de segurança, travaria a porta e partiria numa
boa, na torcida pra achar um boteco.
Como ainda não sei resistir à ideia de
homenagear toda pessoa tão humana, mandei várias mensagens. Ficou faltando
dizer que o telefone e eu temos seguro contra poste metido a assanhado.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 16 de novembro de 2021.
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