terça-feira, 23 de novembro de 2021

A alma do negócio

 

A alma do negócio

 

O negócio é o seguinte: não há cara ou coroa que faça a sorte vir cantar ao pé do ouvido de quem está dormindo, nem de olhos abertos.

Incompreensível, você diz, e fecha os olhos pra que o caminhão de lixo mude de ideia a respeito dos domingos e passe bem na hora que está desejando, mas ele não se materializa, nem com sua reza mansa, educada, de pessoa nascida pra ter a dignidade preservada, como um girassol solitário num canteiro de hortênsias.

O lixo, sim, é preciso dar um destino menos desafortunado ao lixo de todo dia, mesmo quando se está dormindo, até de olhos abertos.

Incompreensível, você pensa, e faz de conta que piscar três vezes seguidas fará com que um gás letal fulmine moscas, baratas e os ratos, ainda que continue sendo domingo e o latão tenha se empanturrado a tal ponto que um mililitro a mais dos restos desprezados por pratos e bocas passará à categoria de calamidade.

Até aqui, tudo bem?

O domingo de fato continua igual a tantos outros já superados sem maiores crises, porque, dormindo ou acordado, o filme da tarde é velho conhecido, um companheiro positivo que tem uma mensagem bacana, que é possível manter o astral lá em cima, que a falta de vontade para querer lutar contra o sono é uma capitulação benigna.

Incompreensível, você se lamenta, e trata de indignar-se com a vida que oferece a resignação como um prêmio por bom comportamento, e sai do sofá, vai à janela e não acredita que a montanha de sacos ainda permaneça indiferente ao chorume vertendo ao lado da casa.

Pode ser que na trigésima terceira vez a fedentina nem esteja assim tão nauseante nem a porcaria espalhada esteja mais convidativa às já citadas criaturas, sim, baratas, moscas e os ratos, agora contando com pombos no aproveitamento do que seja aproveitável.

Incompreensível, você parece entender, e tenta acreditar que está entendendo o domingo, como um organismo que produz excrecências ao preservar-se vivo, estando a mente alerta ou sonolenta.

Tudo bem persistir?

O próximo passo seria aceitar que os cavalinhos bem-informados relatassem os pormenores cafonas de outra rodada concluída dentro do combinado, com lixeiras destroçadas por bêbados uniformizados e puladores de catraca implorando pra que o domingo nunca termine.

Todavia, é na segunda-feira que a alma precisa estar nova e pronta pra outra, pro batidão de ganhar dim-dim, como quem ganha mais vida pro novo tempo que ainda não veio.

Afinal, na semana que começa, o corpo tem que estar preparado, a mudança da água pro vinho há de surgir a alcoólatras e regenerados, porque o jogo não para, não pode parar e nem se espera que pare bem no instante da sua vez.

Incompreensivelmente, para você, o celular não tem sinal, o ônibus não vem vazio, o crédito jura ser muito especial, e, não sendo elevador pra travar sem luz, o girassol do subsolo sobe pro sol.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2021.

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