A
alma do negócio
O negócio é o seguinte: não há cara ou
coroa que faça a sorte vir cantar ao pé do ouvido de quem está dormindo, nem de
olhos abertos.
Incompreensível, você diz, e fecha os
olhos pra que o caminhão de lixo mude de ideia a respeito dos domingos e passe
bem na hora que está desejando, mas ele não se materializa, nem com sua reza
mansa, educada, de pessoa nascida pra ter a dignidade preservada, como um
girassol solitário num canteiro de hortênsias.
O lixo, sim, é preciso dar um destino
menos desafortunado ao lixo de todo dia, mesmo quando se está dormindo, até de
olhos abertos.
Incompreensível, você pensa, e faz de
conta que piscar três vezes seguidas fará com que um gás letal fulmine moscas,
baratas e os ratos, ainda que continue sendo domingo e o latão tenha se
empanturrado a tal ponto que um mililitro a mais dos restos desprezados por
pratos e bocas passará à categoria de calamidade.
Até aqui, tudo bem?
O domingo de fato continua igual a
tantos outros já superados sem maiores crises, porque, dormindo ou acordado, o
filme da tarde é velho conhecido, um companheiro positivo que tem uma mensagem
bacana, que é possível manter o astral lá em cima, que a falta de vontade para
querer lutar contra o sono é uma capitulação benigna.
Incompreensível, você se lamenta, e
trata de indignar-se com a vida que oferece a resignação como um prêmio por bom
comportamento, e sai do sofá, vai à janela e não acredita que a montanha de
sacos ainda permaneça indiferente ao chorume vertendo ao lado da casa.
Pode ser que na trigésima terceira vez a
fedentina nem esteja assim tão nauseante nem a porcaria espalhada esteja mais
convidativa às já citadas criaturas, sim, baratas, moscas e os ratos, agora
contando com pombos no aproveitamento do que seja aproveitável.
Incompreensível, você parece entender, e
tenta acreditar que está entendendo o domingo, como um organismo que produz
excrecências ao preservar-se vivo, estando a mente alerta ou sonolenta.
Tudo bem persistir?
O próximo passo seria aceitar que os
cavalinhos bem-informados relatassem os pormenores cafonas de outra rodada
concluída dentro do combinado, com lixeiras destroçadas por bêbados uniformizados
e puladores de catraca implorando pra que o domingo nunca termine.
Todavia, é na segunda-feira que a alma precisa
estar nova e pronta pra outra, pro batidão de ganhar dim-dim, como quem ganha
mais vida pro novo tempo que ainda não veio.
Afinal, na semana que começa, o corpo
tem que estar preparado, a mudança da água pro vinho há de surgir a alcoólatras
e regenerados, porque o jogo não para, não pode parar e nem se espera que pare
bem no instante da sua vez.
Incompreensivelmente, para você, o
celular não tem sinal, o ônibus não vem vazio, o crédito jura ser muito especial,
e, não sendo elevador pra travar sem luz, o girassol do subsolo sobe pro sol.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 23 de novembro de 2021.