terça-feira, 2 de novembro de 2021

O rouxinol

 

O rouxinol

 

Num belo dia, em que de repente a realidade do momento se impõe à ordem natural da vida, quebrando o conforto de se estar confiante de viver um instante de cada vez, rompendo-se a parede de se apresentar ao público, prelúdio em si, uma vez revelando-se ser no mais íntimo do tutano da cervical, como testemunha única, só uma pessoa só, mente transtornada com a circunstância de se descobrir fendida, por sujeita a variações de tempo e lugar, porque nem se via como objeto maleável, comum a seres de boa e má vontade, tomando-se refém do insatisfeito, do meditado pela respiração dos dedos, do melancólico, não como um roedor, já a emanar, piano piano, essa boniteza onírica.

Num belo dia, despertado pelo susto de descobrir-se desejando dar milho às pombas e, constatada a falta, providenciar sem detença, pois o que se abre nesse momento, se não fala com todas as letras, dá-se a perceber que seja sensivelmente efêmero, que o mundo obedeça às regras que as ciências humanas ainda não fabularam, que tal rouxinol fique pasmado com o nunca experimentado, avesso ao natural, então, que a pomba voe mais alto do que o cruzeiro e pouse no cimo antigo e enferrujado.

Num belo dia, reconhecendo-se alquebrado pela faina de seguir na cantoria angustiada de querer o bocado de um pão, do pãozinho de sal que a boca compreende que precisa, sem que os suores, os calos e o pigarro noturno convençam os ratos de que a ratoeira necessária nem é traiçoeira, é instrumento de matança dos mais práticos.

Num belo dia, apaixonado pelo amargo dos entusiasmos que fazem tremer os dedos, deixam cansadas as coxas, inclinam as retas pra que as fraquezas esgotem mais e mais as forças de suas pernas e de seus braços, deseja que o rato vá ao queijo, a mordida dispare o aço certeiro daquele treco ceifador, ainda que o rouxinol recomece a gorjear.

Num belo dia, mesmo que o medo traga a sua escada, que os pés subam temerosos cada um dos degraus, que a subida continue apesar do erro de medir a distância entre a chegada e a despedida, ainda que seja móvel, instável e perturbadora a impressão que a realidade esteja à margem do raciocínio lógico, ao que se arroga impecável, ao singelo que a arrogância diz emocionalmente compreensível, então, o coração solta outro pulso, acelera e desacelera, comprime e imprime e reprime, sufoca e expande, a ponto de querer o que desconhece, o que ignora, o que busca dar por sabido, entendido e classificável, assim se espera que o rato, atraído pelo cheiro, saiba ao menos morrer de vez.

Num belo dia, a boca quer o porquê da coalhada, da muçarela e do parmesão, mas a vaca, ruminante leiteira, nem sabe do pasto, quer ele esteja limitado em aparência, escritura e porteira, quer ele esteja verde, ocre, seco, úmido, apertado, amplo ou barato, e raro.

Quando penas e canto fazem o rouxinol, sua belezura desencanta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2021.

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