Num
belo dia, em que de repente a realidade do momento se impõe à ordem natural da
vida, quebrando o conforto de se estar confiante de viver um instante de cada
vez, rompendo-se a parede de se apresentar ao público, prelúdio em si, uma vez revelando-se
ser no mais íntimo do tutano da cervical, como testemunha única, só uma pessoa
só, mente transtornada com a circunstância de se descobrir fendida, por sujeita
a variações de tempo e lugar, porque nem se via como objeto maleável, comum a
seres de boa e má vontade, tomando-se refém do insatisfeito, do meditado pela
respiração dos dedos, do melancólico, não como um roedor, já a emanar, piano
piano, essa boniteza onírica.
Num
belo dia, despertado pelo susto de descobrir-se desejando dar milho às pombas
e, constatada a falta, providenciar sem detença, pois o que se abre nesse
momento, se não fala com todas as letras, dá-se a perceber que seja
sensivelmente efêmero, que o mundo obedeça às regras que as ciências humanas
ainda não fabularam, que tal rouxinol fique pasmado com o nunca experimentado, avesso
ao natural, então, que a pomba voe mais alto do que o cruzeiro e pouse no cimo antigo
e enferrujado.
Num
belo dia, reconhecendo-se alquebrado pela faina de seguir na cantoria
angustiada de querer o bocado de um pão, do pãozinho de sal que a boca
compreende que precisa, sem que os suores, os calos e o pigarro noturno
convençam os ratos de que a ratoeira necessária nem é traiçoeira, é instrumento
de matança dos mais práticos.
Num
belo dia, apaixonado pelo amargo dos entusiasmos que fazem tremer os dedos, deixam
cansadas as coxas, inclinam as retas pra que as fraquezas esgotem mais e mais
as forças de suas pernas e de seus braços, deseja que o rato vá ao queijo, a
mordida dispare o aço certeiro daquele treco ceifador, ainda que o rouxinol recomece
a gorjear.
Num
belo dia, mesmo que o medo traga a sua escada, que os pés subam temerosos cada
um dos degraus, que a subida continue apesar do erro de medir a distância entre
a chegada e a despedida, ainda que seja móvel, instável e perturbadora a impressão
que a realidade esteja à margem do raciocínio lógico, ao que se arroga
impecável, ao singelo que a arrogância diz emocionalmente compreensível, então,
o coração solta outro pulso, acelera e desacelera, comprime e imprime e reprime,
sufoca e expande, a ponto de querer o que desconhece, o que ignora, o que busca
dar por sabido, entendido e classificável, assim se espera que o rato, atraído
pelo cheiro, saiba ao menos morrer de vez.
Num
belo dia, a boca quer o porquê da coalhada, da muçarela e do parmesão, mas a
vaca, ruminante leiteira, nem sabe do pasto, quer ele esteja limitado em
aparência, escritura e porteira, quer ele esteja verde, ocre, seco, úmido, apertado,
amplo ou barato, e raro.
Quando
penas e canto fazem o rouxinol, sua belezura desencanta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 02 de novembro de 2021.
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