O
dourado do líquido no copo era bastante parecido com urina, mas a cara do
chinês à porta daquela loja de quinquilharias baratas não era de quem bebia
mijo de golinho. Aliás, não beberia nem bêbado.
Pro
seu poder de xamã continuar passando despercebido, ou ficaria prescrevendo
poções purgativas a quem ignorasse a calma alimentada por seus chazinhos de
ervas não avalizadas por vigilâncias, mormente a neurológica, o leitoso esbranquiçado
era um véu protetor.
Com
as sabedorias milenares tão enraizadas nos subsolos de seus pensamentos, como
um buda cego de um olho, o velho bebericava sua infusão de folhas maceradas
toscamente com as mãos.
As
suas, trêmulas e amareladas, eram de fumante inveterado, não as de um feiticeiro
invocador dos princípios ativos de plantas obscuras trazidas de contrabando de
províncias exóticas.
Mexendo
de vez em quando a beberagem com a longuíssima unha suja do mindinho, era o
homem que vigiava as veredas.
Entretanto,
não era guardião de caminhos quaisquer que andarilhos afoitos desejariam trilhar
por se resumirem a farejadores adestrados a nunca perder o rastro, a rumarem
pro reino da pacificação espiritual.
Do
ponto de vista dos administradores, a correção diria que o idoso bebedor de chá
estava na bifurcação pra orientar o fluxo no interior do estabelecimento: a
entrada e a saída dos consumidores teriam de estar sob a observação aquilina
dos donos, afiadíssimos no caixa.
Era
óbvio que havia a sobreposição de significados, confundia-se o dever de agir
com honestidade com a honestidade de agir obrigado.
Ou
seja, uma vez dentro da loja de um e noventa e nove: nada mais natural do que
pagar pelo que se compraria; nada mais anormal do que ter mão leve pra encher o
fundo da bolsa com o que nem era preciso.
Como
negócio claramente familiar, desabonavam-se furtos.
Sem
prejuízos revoltantes nos ombros, o servo de olho morto tinha um tique sutil
quando bafejado pelos acasos de algum lampejo. Era um raio, um fazedor de
fogueiras, um redemoinho nas águas da mente.
Por
que a sorte precisou relampejar justo na hora agá?
Neurótico,
o azarado queria, insistia, puxava pelo ar; tinha que se lembrar de tudo, ansioso.
Era
um cafifento, pigarreava, admitia estar confuso e sua confusão tirava a certeza
de ter sonhado com a dezena.
Um
caipora. O número que o globo disse era pra guardar. O destino foi dado como
privilégio. Eram dois dígitos. Na cabeça, seria o 14.
Era
um catingueiro, pois, nervoso, começou a disparar uns traques fedorentos. Pudera,
a caneta surtou. Queria anotado o 61.
A
dezena tinha vida. Girou no um, e virou 16.
E
cadê a paz!
Se
não ouvisse direito, perderia a bolada. Pra marcar no volante o que a tinta da
esferográfica pedia registro. Precisava acalmar, pra ouvir de novo o metano profético.
Que
crueldade! Os malvados o tocaram da loja vazia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de novembro de 2021.
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