domingo, 7 de novembro de 2021

O incômodo

 

O incômodo

 

O dourado do líquido no copo era bastante parecido com urina, mas a cara do chinês à porta daquela loja de quinquilharias baratas não era de quem bebia mijo de golinho. Aliás, não beberia nem bêbado.

Pro seu poder de xamã continuar passando despercebido, ou ficaria prescrevendo poções purgativas a quem ignorasse a calma alimentada por seus chazinhos de ervas não avalizadas por vigilâncias, mormente a neurológica, o leitoso esbranquiçado era um véu protetor.

Com as sabedorias milenares tão enraizadas nos subsolos de seus pensamentos, como um buda cego de um olho, o velho bebericava sua infusão de folhas maceradas toscamente com as mãos.

As suas, trêmulas e amareladas, eram de fumante inveterado, não as de um feiticeiro invocador dos princípios ativos de plantas obscuras trazidas de contrabando de províncias exóticas.

Mexendo de vez em quando a beberagem com a longuíssima unha suja do mindinho, era o homem que vigiava as veredas.

Entretanto, não era guardião de caminhos quaisquer que andarilhos afoitos desejariam trilhar por se resumirem a farejadores adestrados a nunca perder o rastro, a rumarem pro reino da pacificação espiritual.

Do ponto de vista dos administradores, a correção diria que o idoso bebedor de chá estava na bifurcação pra orientar o fluxo no interior do estabelecimento: a entrada e a saída dos consumidores teriam de estar sob a observação aquilina dos donos, afiadíssimos no caixa.

Era óbvio que havia a sobreposição de significados, confundia-se o dever de agir com honestidade com a honestidade de agir obrigado.

Ou seja, uma vez dentro da loja de um e noventa e nove: nada mais natural do que pagar pelo que se compraria; nada mais anormal do que ter mão leve pra encher o fundo da bolsa com o que nem era preciso.

Como negócio claramente familiar, desabonavam-se furtos.

Sem prejuízos revoltantes nos ombros, o servo de olho morto tinha um tique sutil quando bafejado pelos acasos de algum lampejo. Era um raio, um fazedor de fogueiras, um redemoinho nas águas da mente.

Por que a sorte precisou relampejar justo na hora agá?

Neurótico, o azarado queria, insistia, puxava pelo ar; tinha que se lembrar de tudo, ansioso.

Era um cafifento, pigarreava, admitia estar confuso e sua confusão tirava a certeza de ter sonhado com a dezena.

Um caipora. O número que o globo disse era pra guardar. O destino foi dado como privilégio. Eram dois dígitos. Na cabeça, seria o 14.

Era um catingueiro, pois, nervoso, começou a disparar uns traques fedorentos. Pudera, a caneta surtou. Queria anotado o 61.

A dezena tinha vida. Girou no um, e virou 16.

E cadê a paz!

Se não ouvisse direito, perderia a bolada. Pra marcar no volante o que a tinta da esferográfica pedia registro. Precisava acalmar, pra ouvir de novo o metano profético.

Que crueldade! Os malvados o tocaram da loja vazia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2021.

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