O
cenho fechado; a testa franzida; os pés de galinha pronunciados; o carmim do batom
não escondia o enfezado de quem tivesse mordido a língua; sim, a funcionária tinha
tanta raiva para descarregar.
Dona
Benedita veio diretamente ao balcão.
Acabaram
de avisar que tinha boleto vencido e bloqueariam a conta se não pagasse a
dívida naquele dia.
Como
faltava uma quinzena para o pagamento, do poço sem fundo dos aborrecimentos só
tiraria moedas podres.
Era
urgente, o chão iria se abrir a qualquer momento. Precisava de socorro. Que lhe
arrumassem o dinheiro. Pra que o celular não ficasse com a linha bloqueada, lhe
emprestassem logo.
Bendita
Benedita, que trazia nas mãos outra receita.
A
atendente foi para a calçada.
Pediu
com calma, tentando explicar a situação, porém o irmão mais velho negou-se a
ajudá-la. Ela o mandou praquele lugar.
Ligou
pro caçula, e o telefone chamou, e chamou. Mesmo enfáticas, as blasfêmias não
fizeram o irmão mais novo atender a chamada.
Dona
Benedita queria apenas os seus remédios.
Teria
de ligar pra mãe.
Teria
de aguentá-la reclamando da vida, das madrugadas em claro, do quadril que doía
quando andava mais rápido, do tornozelo inchado, dos olhos que embaçavam nem
bem começava a ver TV.
Teria
de ter paciência, muita paciência, como a de Jó.
Dona
Benedita aguardava sozinha na fila preferencial.
Ligou
pro banco. Checaram os dados.
Sem
direito a crédito, xingando o diabo pela vida desgraçada, bateu o aparelho no
vidro da fachada.
Dona
Benedita sobressaltou-se com tamanha virulência.
Ela
só fez aquele telefonema porque era preciso.
Estava
enrascada, cheia de dívidas. Iriam cortar a luz. Iria ficar sem telefone. Já
não tinha um centavo na conta. A situação era crítica. Vivia uma tragédia
infernal. Estava angustiada, que nem tinha grana pro leite dos meninos. Era uma
situação horrível, que não desejaria a ninguém. Estava pra cair no abismo. Era
mesmo um desespero.
Dona
Benedita permaneceu como estava.
Se
não ia falar nada, fosse caçar sapo. Se nem ao menos iria gritar, fosse lamber
sabão. Se ficaria esnobando o sofrimento da sua filha, da própria filha, que fosse
pra casa do caramba.
Resolvida
a agir de acordo com seu cargo, a gerente a mandou que voltasse ao trabalho.
Tinha gente esperando fazia um tempão. Ela não tinha nada de ter deixado o seu posto.
Com razão pra tanto, tinha quem estava impaciente. Ela que agisse com
responsabilidade. Não era bom que agisse feito criança. Dava para entender, ser
compreensiva. Todo mundo tinha problema pra resolver, ela também tinha, mas era
errado querer resolver bem na hora do serviço. Ou entrava ou iria ganhar uma advertência
por escrito, ela escolhesse.
Sentindo
o baque, a balconista pegou a moto pra ir achar o pai que devia estar nalguma birosca
de quebrada.
Sem
nenhum arranhão, dona Benedita cruzou a rua.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 09 de novembro de 2021.
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