terça-feira, 9 de novembro de 2021

Quebradas

 

Quebradas

 

O cenho fechado; a testa franzida; os pés de galinha pronunciados; o carmim do batom não escondia o enfezado de quem tivesse mordido a língua; sim, a funcionária tinha tanta raiva para descarregar.

Dona Benedita veio diretamente ao balcão.

Acabaram de avisar que tinha boleto vencido e bloqueariam a conta se não pagasse a dívida naquele dia.

Como faltava uma quinzena para o pagamento, do poço sem fundo dos aborrecimentos só tiraria moedas podres.

Era urgente, o chão iria se abrir a qualquer momento. Precisava de socorro. Que lhe arrumassem o dinheiro. Pra que o celular não ficasse com a linha bloqueada, lhe emprestassem logo.

Bendita Benedita, que trazia nas mãos outra receita.

A atendente foi para a calçada.

Pediu com calma, tentando explicar a situação, porém o irmão mais velho negou-se a ajudá-la. Ela o mandou praquele lugar.

Ligou pro caçula, e o telefone chamou, e chamou. Mesmo enfáticas, as blasfêmias não fizeram o irmão mais novo atender a chamada.

Dona Benedita queria apenas os seus remédios.

Teria de ligar pra mãe.

Teria de aguentá-la reclamando da vida, das madrugadas em claro, do quadril que doía quando andava mais rápido, do tornozelo inchado, dos olhos que embaçavam nem bem começava a ver TV.

Teria de ter paciência, muita paciência, como a de Jó.

Dona Benedita aguardava sozinha na fila preferencial.

Ligou pro banco. Checaram os dados.

Sem direito a crédito, xingando o diabo pela vida desgraçada, bateu o aparelho no vidro da fachada.

Dona Benedita sobressaltou-se com tamanha virulência.

Ela só fez aquele telefonema porque era preciso.

Estava enrascada, cheia de dívidas. Iriam cortar a luz. Iria ficar sem telefone. Já não tinha um centavo na conta. A situação era crítica. Vivia uma tragédia infernal. Estava angustiada, que nem tinha grana pro leite dos meninos. Era uma situação horrível, que não desejaria a ninguém. Estava pra cair no abismo. Era mesmo um desespero.

Dona Benedita permaneceu como estava.

Se não ia falar nada, fosse caçar sapo. Se nem ao menos iria gritar, fosse lamber sabão. Se ficaria esnobando o sofrimento da sua filha, da própria filha, que fosse pra casa do caramba.

Resolvida a agir de acordo com seu cargo, a gerente a mandou que voltasse ao trabalho. Tinha gente esperando fazia um tempão. Ela não tinha nada de ter deixado o seu posto. Com razão pra tanto, tinha quem estava impaciente. Ela que agisse com responsabilidade. Não era bom que agisse feito criança. Dava para entender, ser compreensiva. Todo mundo tinha problema pra resolver, ela também tinha, mas era errado querer resolver bem na hora do serviço. Ou entrava ou iria ganhar uma advertência por escrito, ela escolhesse.

Sentindo o baque, a balconista pegou a moto pra ir achar o pai que devia estar nalguma birosca de quebrada.

Sem nenhum arranhão, dona Benedita cruzou a rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2021.

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