domingo, 31 de outubro de 2021

Oração de são Niemals

 

Oração de são Niemals

 

Estou precisando de um gingado mais agitado, pois vivendo minha vidinha de pessoa pacata, sensata, meio caricata, nem notei quando a maritaca calou, já que ouvia mal as estripulias do coração.

Se me observasse com descontração, provavelmente teria sentido a calcificação das entranhas. Não que tal cuidado pudesse evitar o que agora constato: não foi súbito que virei pedra.

Como pedra inconsciente dos meus limites, posso apenas imaginar o que podem fazer comigo. Suspiro, e arrepio.

Se souberem da minha condição, vão querer tirar onda. Com o nível baixando, e baixando, ficarei mais seco, muito arredio, deserto a subir sarcasmos áridos, como gente escassa de molejo.

Pedra não samba?

Sei não, pode ser que eu seja estorvo a quem não quer interrompido o fluxo. A quem a vida é que nem correnteza, rio em movimento, águas renovadas a todo instante, barreiras tanto estancam que estagnam.

Cadê a primeira pedrada na vidraça da pretensa estagnação?

Que o bico da pretensão cante os metálicos de brocas de dentista, aqueles zunidos que chispam dores impiedosas antes de tocar o dente da gente, e bem antes.

E o dente vira pelota a estilhaçar a fachada da pessoa adormecida, já pegando sentir uma dorzinha. Como vulcão furibundo, é a sensação enregelante de que o futuro dói, e dói tão abruptamente.

Posto que é dor, não me convém descartar como absurda a questão de empacar à beira desse Vesúvio. Eu deveria sair correndo, uma vez que a lama dessa história não é flor que se cheire. Pois magma é terra ardente e, por fazer estátua quem bobeia diante da cólera, é mortal.

Sem dúvida, pedras que quebram vitrais também quebram vitrôs.

Aos pulos, perereco no lugar.

Rapidinho, fico certo de que os engenhos psíquicos que me deixam governar os instintos dão graça ao sentimento de entender o mundo. Pressa curtição bacana, a realidade sugere o ritmado.

Que espirituosa é a vida no flauteado.

E confio em mim quando sinto a areia quente da praia acarinhando a sola fina dos pés, ouço o mar ninando os carneirinhos mansos, bebo o que o coco oferenda quando rachado, a sua água deleitosa.

Pena que esse eldorado além do horizonte não tenha buracos como os buracos do meu mundo; e os pedregulhos do acostamento dão uma sova nos joelhos.

Ralado, ardendo, pedindo beijinho doce na pele avariada, quebro a corrente e atiro a bicicleta no poço dos medos atávicos.

Xô! Vatimbora! Suma no poeirão!

Que venha quem possa acorrer.

Santo das causas imaginárias, ouça esse clamor, acuda quem não dança nem quer dançar. Ainda que saia da cadeira, requebre conforme a música, se errar o passo, que eu fique no compasso. Mesmo que eu não seja diamante no Danúbio Azul coreográfico, que eu possa flutuar, turmalina no miudinho, e vá adiante, e vá devagar, devagarinho. Afinal, não é só o bamba que samba no pé todo santo dia, são Niemals.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2021.

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