quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A promessa

 

A promessa

 

O pai e a mãe falavam. Não paravam. Tinham fôlego, e era porque dentro do peito de cada um deles devia ter balões. Só podia ser. Eram balões grandes. Pela montanha de palavras, eram grandões.

Por que não cantavam? Por que nunca cantaram pra ela dormir?

Alguém cantando deixava o mundo menos barulhento.

Precisou entrar rápido, passar à frente deles, ou acabaria entre os dois. Sempre era obrigada a ficar escutando aqueles tagarelas.

E tagarela era palavra gostosa de falar. Mas não falava em voz alta, pensava. Ta-ga-re-la, assim mesmo, pondo ar bem devagarinho.

Já os pais viviam falando apenas de coisas daquele mundo que não era nada divertido. Sequer deixavam que perguntasse por que aranhas faziam delicadas redes. Não eram redes, eram teias. Isso.

Será que a teia servia pra pegar orvalho? Será que a aranha punha a teia pra pegar o ar? Será que ela pensava diferente da aranha, que moscas serviam pra encher a barriga? Será que barriga cheia não tinha espaço pro choro, será?

Choro não era só ar, tinha lágrima. Choro era uma teia que pegava lágrima que fazia barulho. Um barulho baixinho, que era pros pais não ficarem assustados, achando que ela era mosca presa na rede.

Os olhinhos dela, dessa criança no paraíso da lágrima baixinha, na infância a meia-voz, num recanto com a porta trancada, nesse espelho que a fazia olhar além do vidro do carro, os olhinhos nem conseguiam pegar direito o que tinha lá fora. Era porque o carro estava correndo.

O carro nem era dos pais. E foi desse jeito que o pai gritou, agitando o braço direito esticado reto. Aí, ele berrou: táxi!

Então, o carro parou pra que entrassem. Sentassem apertado atrás. Encolhessem suas pernas. Pedissem pra que os bancos da frente não incomodassem os joelhos. Tudo, e sem que parassem de falar.

Mesmo com o homem desconhecido, um que ela nunca tinha visto antes, estava dirigindo como se os pais mandassem nele. E devia ser, porque mandavam em tudo. Então, o pai e a mãe não tinham vergonha do que estavam fazendo, e ficaram falando sem parar.

Pareciam nem respirar. Aquilo era esquisito, porque mostravam ao estranho que podiam falar sem respirar.

Será que mais gente sabia fazer aquilo?

O bem-te-vi sabia cantar. E cantava o próprio nome.

Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Será que tinha algum carro que desse asas aos pais? Será que eles tinham reparado como as aves voavam? E será que aves voavam pra longe por que precisavam deixar bonito um lugar triste?

A sua tristeza era chamada de infelicidade, mas ela não sabia.

Aquela criança tinha três anos. Não sabia que os dedos das pontas da mão eram polegar e mindinho. Ela fazia como a mãe ensinou. Tinha que botar a força do dedão no dedinho pra poder esticar bem os outros dedos.

Ela faria três anos logo. Mas isso ia demorar muito?

Como prometeram que ia poder comer o primeiro pedaço, que esse logo chegasse voando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de outubro de 2021.

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