quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A chave do mistério

 

A chave do mistério

 

A leitura das mãos, conforme quem a faz com garantias tarimbadas de profissional, não tem nada de mágico nem de delírio, pois é maneira precisa de inspecionar o que dizem as linhas da palma quanto ao que está entranhado no amanhã.

Em outras palavras, o futuro está mesmo condicionado à fisionomia manual que o olhar treinado no ofício tem a capacidade de decifrar com segurança, ou o pagamento nem seria cobrado antecipadamente.

Sem necas de entender o que parecem querer dizer os volteios dos urubus no céu do meio-dia, veja-se a curiosidade lutando se esconder atrás da cegueira dos céticos.

Trazendo pro cotidiano: um molho de chaves revela muito.

A menor informa que o bairro tem ladrões de bicicleta. Se a corrente com cadeado não impede a ousadia dos cobiçosos, torna, no entanto, mais demorado o furto do camelo já bem surrado.

O sumiço da magrela não tem o poder de ocultar a azáfama da vida, porque fica difícil prestar atenção em tantas coisinhas à toa.

As tetras denunciam o medão de que seja roubada a casa que fica naquela rua mal iluminada, que tem um montão de poste com lâmpada apagada, todas queimadas só Deus sabe desde quando.

As três fechaduras são para forçar os ladrões a arrombar as janelas que dão pro quintal, território dos pitbulls de pouquíssimos amigos.

A penca tem outras chaves, que nem merecem destaque.

Afinal, quem liga para uma caixa de correio fixada no gradil de ferro cujo portão reforçado tem uns dois metros de altura?

Sem ver no que tropica, o idoso é interpelado.

O senhor é cego por acaso? Não é por acaso, está espumando.

O senhor é surdo por acaso? Nada disso, está com raiva.

O senhor é mudo por acaso? Está atacado.

Na bronca, precisando correr pro banco pra que não a declarem em bancarrota, topando fugir dos tontos que querem armar barraco, a anta tenta não bancar a tonta?

Como tem gente rota, escrota, sem norte nem rota.

Todavia, quando o amor ao próximo é incontrolável, as aparências não enganam. Pois cambalhotas, saltos mortais, mergulhos de cabeça, nada disso irrita quem se diverte com facilidade. Pouco adianta insistir com a ferocidade dos fatos, como se a realidade ferroasse.

Quem se mantém maduro, lúcido, saudável, curado do desespero, tem fé na firmeza do pensamento; sente-se robustecido pelas certezas; sabendo que ri como quem julga, esse vive opaco à luz das dúvidas.

Querem ir na roda-gigante, no carrossel, no jogo dos espelhos, mas pra sair no fim do túnel?

Quanto mais tolices são faladas, menos a cachola se desapruma.

A chave do cofre está no comedimento, na moderação, no equilíbrio que abre o apetite, mas apetite seletivo, muquirana, somente flexível a loucuras afáveis, devaneios administráveis, anseios lucrativos.

Como sua calça tem bolso dentro do bolso, o idoso desliga o alarme do seu super SUV assim que topa apertar o controle.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2021.

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