quinta-feira, 11 de novembro de 2021

No pix

 

No pix

 

Passo pela praça todo dia, mas não mais que de repente as árvores abatidas mexem comigo. E a tentação extraordinária de falar mais que a boca? Extravasando pelos cotovelos as revoltas de órfão de galhos, troncos e raízes de uma época realmente fabulosa, meu crânio parece tirado de um tonel de birita.

De jeito algum saem puros os sentimentalismos de criança, embora a imaginação indulgente me queira acomodado às glândulas, pois este menino do futuro, bobo com a realidade desvelada pelo átimo do susto, faz do suor frio tanta bílis a quente.

E finjo um nada que posso soltar o verbo sem dar com a língua nos dentes. Verborrágico, com o verniz de pessoa de bem com sua infância irretocável, entregam-me as fantasias de gente amorosa.

ꟷ O lugar sofreu tantos ajustes que ele agora é outro.

ꟷ Maquiagens, meu amigo, maquiagens.

O copo de uísque está pago, então, dá gosto esvaziá-lo.

ꟷ É vergonhoso! O dinheiro gasto com as maquiagens deveria ter sido usado com hospital. E pra ter equipamentos funcionando direito e pessoal ganhando salário digno não dá pra ficar pondo fonte, trocando fonte, tirando coreto, erguendo palco, trocando piso, trocando de novo.

Como tenho audiência, não dissimulo o olhar de apaixonado.

ꟷ O senhor está coberto de razão.

Mais do que audiência, é público que merece outra rodada.

ꟷ Ainda bem que concordam comigo, porque falo a verdade e só a verdade. O triste é que tem gente que não entende nada. Cacildis!

O gole da caninha pede salaminho, e a porção evapora.

ꟷ Putz.

A carteira tem vazamento, e as notas de cinquenta vão sangrando.

ꟷ Putz.

O dono do boteco seca o balcão, não a solidão que escorre.

ꟷ Não vou mentir nem enganar.

Ocorre-me a ideia de fazer um quatro. Todavia... Percebo uma dor nas costas. Porém... Não fujo do ridículo da corridinha no lugar.

ꟷ Não é porque estou meio alegrinho que não consigo provar que tenho fôlego. Tenho, sim, senhor.

Afinal, a consciência é uma experiência dos sentidos. A carne sente o mundo. A mente entende a substância da realidade porque traduz os sinais elétricos da matéria.

ꟷ A barriga não impede minha disposição de atleta.

Estou ligado. Sinto-me uma pilha.

ꟷ Pra que ter gato solto no bar? Raios!

Mal faço outro pix, vem esse rasteiro, traiçoeiro, esse chão molhado de espelunca nojenta. Parece que urinaram. Vomitaram. O fedor gruda na pele da gente, putz.

ꟷ Putz uma ova, rua!

As luzes da praça estão todas acesas. Faz sol ao luar.

ꟷ Que desperdício de verba pública!

Moscas e mariposas são atraídas pelo calor das lâmpadas.

A água da fonte não é um espelho confiável, tem um camarada bem xarope, que nem disfarça.

ꟷ Vai ficar encarando, é? Não tem medo de levar na fuça?

O sujeito se acha o tal. É o tal da fonte.

Não vai dormir na praça. É melhor que tenha ônibus.

Subir no palco não é opção, tem a escada absurda de inclinada.

No ponto, sem grana? Apago na hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2021.

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