O
aborrecimento era de lascar. Sentia que zanzaria mais que meia hora. Não passaria
no teste de resistência, pelos pulmões de fumante e pelas canelas de sedentário.
Mas iria andar até que o gênio azedado ficasse aceitavelmente ácido, ainda
autêntico ferino.
Profissional
a engolir sapos; amador ao digerir o mau humor.
A
calibrada ojeriza dependia de não perder de vista o trabalho a ser feito de
cabo a rabo, ou outra pessoa o faria. Porque é trabalhando que manteria o indigesto
ganha-pão. Pois, é bufando nas ruas que seguiria confiante que o contracheque tingiria
de azul fugaz a sua conta.
Odiava
amar a lida que amava odiar tão cotidiana.
Com
esta lógica no sangue, foi firme e forte nas passadas. O fígado entrevado foi
camarada consigo, as babas peçonhentas da agenda do cacete escorreram pelo rosto
na pernada de quinze minutos.
Tinha
essa qualidade da qual nunca se envergonhava: sabia tolerar os rancores porque aprendera
calibrá-los.
Não
vacilava, agia.
Às
vezes tropeçava, coxeava. Só não admitia tombos bestas.
A
topada da vez foi com um embromador. Ele veio certo de que iria ganhar dinheiro
fácil. Convencido de que a sua lábia de mascate tinha o condão de vender espeto
de pau a ferreiro sem casa.
O
senhor tem jeito, já começou assim que estancou diante daquela mão espalmada a engrossar
as suas rugas de zangado, não me leve a mal, mas o senhor me parece ser uma
pessoa que tem bom gosto e que sabe dar valor ao que lhe causa prazer de modo
verdadeiramente claro, honesto, sem as simulações do falso, da imitação barata
que tem gente que vive querendo empurrar a alguém como o senhor, mas que, por
ter instrução e mente esclarecida, a sua pessoa não tem tempo pra ficar dando
atenção às coisas de segunda categoria.
O
senhor não tem o tipo de ser gente que toma sorvete só no calor. Com o perdão
da minha liberdade, dá pra notar que o senhor sabe que um sorvetinho cai bem
nos dias de chuva e no inverno.
Não
fique bravo comigo pela minha sinceridade, mas a maioria nem tem ideia da
importância de tomar sorvete com regularidade. Ele é rico em energia calórica
que a pessoa precisa consumir diariamente.
Percebo
que o senhor está achando esquisito. Se não tenho isopor nem carrinho, é seu
direito desconfiar de mim.
Veja
aqui, eis o meu cartão. Pode pegar, é sem compromisso.
Nele
tem imagens da máquina de fazer sorvete. É incrível, o senhor pode fazer no
momento que achar bom tomar um sorvete delicioso.
No
cartão tem alguns sabores. É no site que o senhor vai ver a lista completa das frutas.
Tem açaí, abacaxi, morango, creme e chocolate. Aliás, a variedade de chocolate
é uma coisa louca.
Não
deixe pra depois. Vamos! Não perca a oportunidade que estou lhe apresentando agora.
Pois não tem felicidade maior do que tirar uma casquinha na hora que a gente
quer.
E
o tombo?
Foi
no bolso, com o telefone roubado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de outubro de 2021.
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