terça-feira, 28 de setembro de 2021

Riscos

 

Riscos

 

Tinha um cavalete na praça. Alguém estava pintando.

O sol surgia, ia subindo além das montanhas. Que belíssimo efeito, dos raios sobre quem pintava.

Na ida, passei às costas; na volta, pude conferir os traços.

Na manhã seguinte, a mesma cena.

Privilegiando o rosto da pessoa que pintava, fui e voltei. A absorta ignorou-me contente ao vê-la.

No outro dia, confirmei: não era diletante, sabia o que queria.

No dia seguinte, não saí pra caminhar.

Não fiquei triste, porque ela não passava a ideia de que fosse louca para querer pintar alguma coisa debaixo de chuva.

Todavia, a sexta-feira amanheceu ensolarada. Tão logo a vi:

ꟷ Bom-dia! Que dia lindo!

Foi o que consegui dizer no limite do que a timidez permitiu.

Com sorriso aberto e nada sardônico, asseverou:

ꟷ Caminhada faz bem pra gente.

De perto, as cores não batiam com a realidade do momento.

ꟷ Não se ofenda, mas este sombrio lembra o de Goeldi.

ꟷ A comparação não me ofende. Fiz de propósito.

Por certo, a minha cara de aliviado teria sido indisfarçável.

ꟷ Amanhã a gente almoça, que tal?

Na feijoada, falando sobre a representação da luz, contrapunha-se ao Monet que pintou uns trinta quadros da Catedral de Rouen.

ꟷ Só que ele ficava pintando em lugares fechados.

Já na praça, tomando sorvete, disse que na rua se sentia em casa.

ꟷ Mas as pessoas não tiram a concentração?

Não se incomodava que viessem observá-la trabalhando.

ꟷ O isolamento tem as suas graças.

Dava condições ao apuro técnico, à firmeza da mão rigorosa e ao sutil do pincel que finaliza. Raro era ficar distante das pessoas com as suas mil perguntas sobre o que fazia.

ꟷ Tem gente que pergunta onde estudei. Tem quem que me peça pra opinar sobre o que anda produzindo a filha de uma vizinha que tem muito talento. Contatos assim não me aborrecem.

Um ou outro confundiam simpatia com propensão à libertinagem. E ela não perderia os prazeres da vida por causa dos boçais.

ꟷ Vou contar como foi que me decidi a nunca frequentar uma escola de arte. É uma história triste. Por também ser vergonhosa, não direi o santo nome que me fez tomar horror pelas academias e suas regras.

Sem vocação alguma para agir como noviça, ela foi matriculada em colégio confessional, franqueado às famílias abastadas da cidade e de seletas casas-grandes de fora.

Em uma tarde qualquer, à saída de alguma missa, uma das mestras encontrou-a na escadaria da Sé.

Com medo dos mendigos tisnados à porta da catedral, a professora acenou que se aproximassem os praças que faziam ronda ostensiva.

ꟷ E prontamente atenderam. E ouviram a freira atentamente.

Uma vez arrolada a sua identidade oficial com a foto do documento, não hesitaram em admoestá-la pelo comportamento leviano e trataram de conduzi-la de volta ao educandário.

ꟷ Ninguém foi capaz de devolver o bloquinho de desenhos. E o que ele tinha eram esboços, só esboços à mão livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2021.

domingo, 26 de setembro de 2021

O segredo

 

O segredo

 

Com vontade de tomar laranjada: espremi uma laranja e bebi.

Deu gosto bebê-la.

Ainda com a satisfação na boca, não tomei nas mãos o bagaço pra ponderar o desejo realizado. Com a sensação de ter feito algo simples, mas agradável, não me inclinaria a refutar o sentimento de estar feliz.

Pra não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o bem-estar jogando tão prosaico com a vida.

Afinal, ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra.

Dos subsolos dessa estupidez grosseira, subi ao sol da praça.

Sentado, deixei-me estar aos desconcertos do mundo.

Algumas pessoas conversavam miudezas. Outras sustentavam-se uma luz colossal. Vinham e iam. Vaporosas. Aquietadas.

Não foi por prudência ou medo que os meus olhos, boca e ouvidos me serviram como antenas e sondas, foi pelas feridas que a compaixão reconhece nesses animais humanos, tão meus semelhantes.

Estimulado pelo entorno, abri o jornal.

Como as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação de pombos que não virei um resmungão, mais solitário.

Eram vários. Foram chegando. Vinham bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete.

De maneira alguma, as desgraças lidas não me animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos lúgubres, ou pombos.

Nem sei se, terrificados, arrulhariam depois de expostos.

Os dramas da vida ꟷ comum a cordatos, ansiosos, dissimulados ꟷ poderiam estar circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída alguma catástrofe iminente.

De repente, um cachorro partiu pra cima dos pombos.

Encurralado entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco.

Coitado do bichinho.

O mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza espiritual, tão humana.

Sorte do bruto.

Como tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na presa atordoada, o cão virou um corisco.

Entre a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou sendo mordida. Irrefutavelmente, outra vítima inocente.

Me escapuliu um azedo de laranja, que susto!

E o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos. Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga, que nem era comigo. Daí, paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse minha.

Posso uma indiscrição?

Despertando de um sono sossegado, nem prestei atenção, porém, agora, percebo o erro que cometi ao descer da cama: foi a canhota que tocou o chão mais gelado do que o normal.

Sem dúvida, não se deve deixar passar um tremendo sinal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de setembro de 2021.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sem filtro

 

Sem filtro

 

Não há de ver que, de maneira imprevista e excêntrica, realizei uma jornada dentro da cidade que nem me ocorrera achá-la irreconhecível, uma vez nascida para mim faz mais de cinquenta anos.

Porque foi necessária a troca de uma vela quebrada, deu-se o que não estava na agenda. Como gostei de ter saído para comprar a peça que substituísse a contento a danificada, foi-me bem prazeroso. Assim, zanzando com esse objetivo, de fazer o filtro funcionar direito de novo, ao aprazível que me proporcionou o acaso juntou-se o ziguezague de gastar sapato por ruazinhas que julgava imorredouras.

Sem nacionalismos melancólicos e nostalgias patrióticas, andei por uma geografia sem os matinhos onde a bexiga descarregava urgências do garoto desesperado. Porém a visão desse menino desnorteado não digere esses edifícios gulosos que descarnam os ossos mais tenros da infância, agora à deriva além deste carneiro erguendo-se no padrão de fachada espelhada reforçando o esqueleto cinza pré-moldado.

Onde há retas, peço curvas. Tendo curvas, quero rosas, begônias, mimosas, petúnias, hortênsias, samambaias. No jardim florido, faça-se a festa, bem-vindas sejam as abelhas, formigas, borboletas, rolinhas, sabiás, aranhas e pererecas.

Em outras palavras, a minha imaginação quer-me abençoado pelas felicidades do singelo.

Se bem me lembro, não fui brasileiro de mão sincera sobre o brasão da pátria nas datas obrigatórias de canto afinado, ordeiro, das alegrias reprimidas. Também não fui paulista a marchar por uma Nove de Julho que nem constava nas calças-curtas das minhas andanças. Sabia das lavadeiras a uma centena de passos da cama em que nasci, por obra e graça de minha mãe e da parteira de sua confiança, na Rua da Bica, que não se ostentava um coronel sei-lá-das-quantas.

Isso de mostrar submissão a autoridades não me entra bem pelas entranhas da cachola, prefiro guardar distância dos carbonários.

Mas a fumaça entra pelas narinas, magoa os olhos, amarga a saliva e gruda na roupa, uma coisa medonha, ultrajante, criminosa.

Crime, entretanto, não vejo na idosa que abre o buraquinho na terra da pracinha, deitando serena a semente de outro amanhã.

O que não ouso dizer é que não tem coisa errada com ipês florindo antes da época, pois tem, sim.

Há mudanças que o sol escancara sem que os homens de notórios saberes tramem pretextos, floreiem estatísticas e façam de conta que gente é espécie boazinha pra caramba.

Não somos.

E não somos porque desembestamos a estudar, catalogar, calcular e projetar que árvores roguem por nosso socorro, de bicho atolado num telurismo tardio, de fanfarrão no fuzuê dos remorsos do arco-da-velha, e isso desde que o fogo passou a aquecer costas e a entortar pulmões com o achocolatado de cachimbadas neuróticas, ansiosas, diuturnas.

E isso dá um medo danado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de setembro de 2021.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Reconhecimento

 

Reconhecimento

 

Se soubesse ficar longe das desgraças da vida, teria sofrido menos. Mas o mundo costuma minar continuamente a determinação da gente, e a pessoa deixa de acreditar que ninguém tira bilhete premiado só de pensar. De fato, deveria ser louvado o equilíbrio frente às desventuras que vão surgindo.

Se o estômago tivesse recusado o pão que o diabo não se farta de oferecer, teria enfrentado a cobiça comandando a boca tão salivante.

A quem paga para pôr a massa no forno do inferno, isso é pesadelo. É sonho ruim do qual não se acorda só abrindo os olhos. Ficar suando em banho-maria não é assar, e tal anomia põe azedo o gosto de viver.

Além disso, é manter-se atento a cães no caminho, é lembrar-se de que nada cai do céu. Então, o jeito é ficar de olhos limpos. É preciso o desconfiômetro ligado, porque as sereias não param de encantar.

Cantando macio, querem que a gente pense em saltar do barco. E o fundo do mar tem areia, não tem lente que permita identificação nítida a um palmo e meio do nariz.

A dignidade não rói as vestes do guarda-roupa. A urina não resseca as ervas do jardim. Mesmo com o telefone já rodado, não é dispensável considerá-lo perdido.

Como tem gente que deseja encontrar a felicidade seguindo mapas vendidos pelos espertalhões que não se furtam de apregoar verdades tão acutilantes, com os fios indeléveis de uma vida dolorosa, é tecida a rosa azul que atrai as aflições. Mas as pétalas da coroa com espinhos florescem ao luar minguante na madrugada maravilhosamente ácida, que não há.

É assim que o ardil da fábula do sinistro doura-se, e o irrecusável é a capa que açula a solidão, o desespero, a angústia, o que fere, marca e faz insustentável e insuportável querer viver com os pés no chão.

Pelo esgotamento, pela exaustão?

Sob medida, pela fricção da pele na roupagem de cada tarefa.

É por aí que o ideal da honorabilidade fala que a fantasia serve bem à realidade, só não pense em tossir durante a récita. Por gentileza, não abra o guarda-chuva na plateia porque aqui é o sacrossanto Municipal. Abra um sorriso girassol, acompanhe a Estrela da Manhã, vista-se de Sol e tolere tomar por pedágio uma ou outra dádiva sem igual.

Seja premiado o indicador que reconhece pelo norte espontâneo de sua colaboração decididamente ressentida, seja protegido esse direito, pois é pagando que se deve exigir.

Todavia, quais exigências?

Não o respeito, o escorreito. Não o certo, o suspeito. Não o justo, a justificativa.

Neste xadrez em que o sacrifício é apenas dos peões, convém que continue vencedor quem nunca há de perder.

Afinal, a fábula a que se deve apegar é muro erguido com palavras moralmente sólidas, é sono que promove a monstros surreais quem os sistemas métricos não têm razão ao aferir. Portanto, sem digitais nem fotografias, no álbum das aparições deste mundo, não são fantasmas os que têm rosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2021.


domingo, 19 de setembro de 2021

Mãozinha amiga

 

Mãozinha amiga

 

Encontro um amigo, mas estou com pressa. A circunstância de não poder ouvi-lo deixa-me desconfortável, porque ele se faz cativante sem forçar a mão.

Tão dadivosa, pessoa que sempre encontra uma maneira de ajudar o próximo, mesmo que nem lhe tenham sido solicitados seus préstimos de atilado samaritano.

Indo a passos largos, porque há dois meses venho tentando acabar com a coceira brava na batata da perna, paro a contragosto. Sei que não devo transparecer o que se passa comigo.

E o que tenho feito?

Primeiro, fiz o óbvio: desprezei a sugestão de ir ao dermatologista, cuja peculiaridade encantaria ao meu lado fiel à prédica do diploma se não recorresse ao Doutor Google, que exerce o dom de responder de pronto como dar cabo de qualquer problema similar ao meu: aplicando o creme de bacitracina zíncica.

Cáspite! Já o nome científico desperta a aura do êxito.

Como não fico lamentando a minha dedicação a outro fiasco, tratei de escutar a cunhada benzedeira de uma vizinha taróloga: a ferida de fato cicatrizaria se esfregasse com buchinha vegetal, sabonete e muita água quente duas vezes ao dia.

Se eu dissesse que à lesão coube aceitar a derrota, estaria faltando com a verdade e, em época de sumarentos pés de frango, não convém desfazer de panelaços proverbiais que trovejam por milho e milhão.

Sendo história que não me seduzo contá-la, porquanto não subisse à pele a vontade de coçar-me, corrijo a gaiatice indolente pela sisudez de tolerante interessado.

Luisinho, meu ilustríssimo mestre grão-sábio, dá logo o diagnóstico: preciso de suas dicas pra superar a vergonha de não ter assunto.

Para quem parabenizar nascimentos ou lamentar passamentos por meio de versos revela uma simpática exibição de talento, o meu amigo põe-se a compartilhar a sua atenção.

Antes de apontar o que eu deveria fazer para dar variedade ao que tenho abordado ultimamente nas minhas crônicas, Luisinho alerta que não é um ergófobo folgado a menosprezar em mim o profissional que ama trabalhar, desdobrando-se para produzir algo agradável.

Confirmando sua magnanimidade, meu preocupado leitor nem quer cobrar um centavo pela solucionática que julga apropriada pra que eu extrapole a crise que me acorrenta às sombras da realidade.

Para não rir do mundo, rio para ele.

Que o cronista palpitante é aquele que zomba dos descaminhos de governo, porque os administradores insossos e os insensatos guardam semelhanças entre si. E cabe ao observador galhofeiro alimentar-se da orgia dos glutões que, da boca para fora, veneram o destempero falaz, o arremedo feraz e a fome feroz.

Depois da lição, honestamente, o que posso fazer?

Sem abraçar esta pessoa deveras sincera, agradeço-lhe a cortesia de suas ponderações tão pertinentes e vou aprender que ferimento em pele seca repele água quente, sabonete e unhadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2021.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Tempo de resposta

 

Tempo de resposta

 

Quando a alegria é tanta, sorrio. Mesmo sem achar que sou pessoa que aceite uma condescendência dessa, engrenando sorrir, ajo como quem desconfia, nem tanto como quem se defende.

Por tudo que for? Ou sorrio quando me sensibiliza o que for seguro? O mundo em caos convulsivo, e resolvo sorrir?

Sem dúvida, se minha resposta às revoluções da vida for realmente preservar-me afável, meu caso requer necessária avaliação científica, pormenorizada, menos superficial.

Sem achismos bem-ajambrados, é chamar psiquiatra.

Se fosse querer encontrar o que explique, e sirva pra me perdoar a placidez alcançada, às vezes sinto ter atingido o estado mental que me permite reagir aos estímulos da vida sem filtrá-los por afetos convulsos, extremos, acerbos.

Se perguntassem agora como foi que cheguei à paz interior, já que o sorriso vem à tona sem fingida inocência, indagaria: que paz?

Nem ficaria preocupado que me considerassem alienado, mais um peixinho distraído na sua água imperceptível, muito natural.

Dando contorno à substância abstrata: tropeço ao pisar no cadarço, abaixo-me e amarro o cordão do tênis; bato a bermuda pra limpá-la; e verifico quão graves são os machucados no joelho; não impreco e não blasfemo e não choramingo; otimista, retomo o caminho.

Longe de mim a idiotice de dizer-me uma esfinge de pedra-sabão, que vivo só sorrisos, pois isso não passa de balela, mercadoria podre embrulhada no jornal de ontem.

Carregando no preto e no branco: quando ligam de madrugada pra dar notícias que tiram o chão, eu desabo.

Pessoa pouco indicada a gritar sem abrir a boca, tendo os pulmões plenos de dor, sinto o olhar batista de Caravaggio, e muito me abismo.

Quando a tristeza é tanta, pra que a água do mar revolto me afogue numa perplexidade infinda, já que não controlo a boca alucinadamente incapacitada de manter-se fechada, saio agarrando o que for.

Ou seja, não cabe a mim suplicar que não fiquem me lembrando de que ninguém fica calmo arrancando os próprios cabelos. Nem o vasto repertório de nomes feios alivia a carga, e o mar segue infernal.

É pelo sentimento que me sei suscetível ao sal da terra. Não é pelo entendimento que me estranho.

Afinal, ao pensar na dor, perco a dimensão espontânea, de animal ferido. Faço que sofro, imito a mim mesmo a sofrer, tão bom farsante.

Horroriza o extemporâneo?

Além de alegre tranquilo e indiscreto triste, uma novidade a mim se apresenta.

Sem reparar, olho pro chão. Talvez nem queira mostrar o que estou sentindo, nem queira tornar evidente que penso sobre o que sinto. Olho pra baixo, com algum sentimento anterior ao retrato.

A intuição fala sério comigo e faz-me ver que não preciso relacionar o que sinto com o mundo ao redor. Não sendo preciso, compondo meu melhor olhar benjaminiano no momento que me encara um copo cheio de ar, nem pigarreio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de setembro de 2021.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

A roda

 

A roda

 

Fazia anos, e a imprudência impelia a dizer quantos. Arredondando o número cabalístico: trinta e três. Para dimensionar a gravidade desse tempo, seria melhor passar um café.

Preventivamente sentado, bebericando o cafezinho, pra que não se figurasse em problema digerir as implicações que o período decorrido estimulava, pois ideias fortes provocam movimentos profundos, abalos abissais acarretam transtornos indeléveis, atropelamentos tectônicos originam catástrofes, ou apenas outra crise.

E a primeira suspeita que poderia vir à mente: há que se considerar a beleza efêmera de uma borboleta. Desde o instante em que mexe as antenas pro rastreamento do néctar até que suas asas orientadas não rumam nem mesmo pro sul, a flor que voa ignora aquele duplo três.

Em dose dupla, um três alinhado a outro, viria à cabeça a primeira dica: relevante é tomar em conta toda impressão instantânea que borre a imagem, queimando a hipótese de que se esteja a buscá-la livre das digitais intrometidas que conspurquem qualquer fantasia limpa, pura e cristalina.

Em outras palavras, a primeira pista que poderia ter vindo primeiro à consciência é que a pessoa que costuma pensar duas vezes mesmo frente a frente a um espanto não se revela fonte confiável do que seja racionalidade.

Assim, a primeira evidência de que tem coisa errada nesta história é pegar como exemplo alguém que vive sonhando de olhos abertos, e sonha em dormir bem apesar de não ter gato para caçar ratos, e sonha em candidatar-se a uma vaga ainda que nem tenha como disfarçar as olheiras, e sonha em ir pra Amsterdam nem que precise fazer trezentas e trinta e três horas-extras, e deseja muitíssimo acordar cedo pra não ter de suar tanto ao cruzar a cidade pedalando.

Portanto, o próximo passo é demostrar que a primeira prova contra as supostas boas intenções deste ser humano em tela está dada logo no início: não há princípio moral que resista à falta de verba pra ter um café decente.

De fato, seria bom dispor de um pãozinho com margarina, bolachas recheadas de chocolate e aquele infalível copo de leite integral pingado de café, mistura enriquecida pelo choro de açúcar mascavo.

Enfim, depois destas suspeitas, dicas, pistas, evidências e provas, fica a sugestão de reconsiderar com cuidado a situação: se não tivesse vivido de esperança em esperança, dificilmente o personagem poderia proporcionar-se o luxo de querer irrecusável o pedido de soprar tantas velinhas, saborear fatias de um bolo espetacularmente incomparável e congratular-se por ter chegado à idade de Cristo com a perspectiva de seguir adiante.

Pra onde?

Santa Catarina, sem ter como encontrar forças pra expulsar os seus demônios, falta ao famélico rogar a ti para que a roda de seiscentos e sessenta e seis raios pare a mentira de vender apenas sonhos pra que se renda ao dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2021.

domingo, 12 de setembro de 2021

Um caturro apaixonado

 

Um caturro apaixonado

 

Era pros meus pés sentirem mais que um certo alívio, perdeu-se a oportunidade. Houvesse começado uma chuva daquelas, com ventos uivantes e raios tenebrosos, poderia alegar medo, ou a inconveniência de andar sem guarda-chuva, capa ou galochas; descalço, então, nem pensar, por conta da urina dos ratos e das fezes das baratas que todo alagamento contém.

Era pra espuma gelada ter causado algum impacto terapêutico em mim, mas os meus olhos não gozaram sequer a vista do mar, maravilha que pude apenas imaginar nas minhas plácidas contemplações.

Era pra ter uma manhã tranquila, com as ondas do mar indo e vindo sem pressa, com barquinhos navegando no horizonte azul pastel, com banhistas em roupas de felicidade, só que o bendito do mundo decidiu fulminar os meus planos, e foi de vez, de uma única e impiedosa vez.

Arrepiado, enervado, tiritando de ódio ꟷ eu ri de tanta desgraça.

A água pela canela brotava do ralo entupido da lavanderia. O sabão servia pros deslizamentos desencontrados a cada passo. Era pra virar dançar um forró danado ao som de um metal furibundo que a vida fez de ficar de birra comigo.

Pingando suor, enxugava gelo, que o esgoto era esperto o bastante pra progredir geometricamente.

Um oceano de sal veio à ponta da língua, escarrei-o com gosto. Foi descarregando um turbilhão de impropérios que dei conta do recado.

Feita a lição de casa, o universo escutasse o surdo rancor que em minha alma pulsava manhoso.

Qual o quê!

Querendo uma ducha rápida pra tirar o bodum da cândida, cruzou a minha frente uma barata ligeirinha. De chinelo na mão, os olhos atrás do bicho, que o inseto sofresse uma morte rápida, ou quase isso.

Quase nada.

Tonto pelo súbito rodopio, bati o cotovelo na porta do box. Se a dor era grande, o estrondo do vidro estilhaçando-se contra o chão foi muito mais impressionante.

Pelo rugido, cedi ao susto. A planta do pé retirou o apoio, tomei um tombaço dos mais ridículos, que até os meus óculos estilhaçaram em igual medida ꟷ nos cacos, e não no estampido.

Ora essa. Longe de mim ter lamentações medíocres.

A realidade podia achar engraçado tirar de mim a leveza do espírito, todavia o negócio comigo iria acabar saindo caro, uma nota.

Sempre dou razão à cabeça para me irritar com o mundo na mesma moeda. Se socaria o tronco da laranjeira para abespinhar as abelhas? Socaria. Se beberia cerveja para atiçar o fogo que minha casa adorável ateou no meu cérebro de mentecapto? Verteria o Atlântico. Se não me canso de saber que a vida não está pra brincadeira? Nem brinco.

Em sua reflexiva leitura, você talvez esteja alimentando a robalo um tubarão ético:

ꟷ Será só isso?

Que a fortuna siga com o seu canto de festança infinita, porque, ao fim e ao cabo, a minha lírica embriaguez ganhará de mim a maior das honrarias: juro não tirar dos joelhos nenhuma política da sobriedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2021.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Só no sapatinho

 

Só no sapatinho

 

Vem a bola quicando na minha direção, e não penso duas vezes, é de primeira que devolvo. Os meninos riem, pois ofereço-lhes um chute fraco, além de torto. Solta e zombeteiramente, riem do ridículo.

Tantas vezes peladeiro nas aulas vagas do ginásio, nunca aprendi a culpar os calçados. Ainda hoje acho que os meus pés têm de entrar na linha, serem adestrados exercitando-se exaustivamente. Mas a vida secou em mim o desejo indômito de suar em campos e quadras.

Naquele tempo, eu exibia um modelo de tênis similar às chuteiras dos profissionais e, como detalhe revelador da garbosa autoestima, eu amarrava o cadarço no tornozelo. Nem assim o meu kichute me ungia bailarino, um Didi ou Bobô, eu seguia batendo de modo bisonho.

Por mais lamentável jogador que eu era, como ato de misericórdia, acabavam me dando a oportunidade de entreter quem ainda se divertia com as trapalhadas. Afinal, não era de caneladas nem cotoveladas. Só joelhos e mãos é que tinham muito a reclamar da minha entusiasmada entrega a toda disputa.

Por que murcho minha bola de forma contundente?

Porque a pelota era realmente minha, ou teriam de improvisar bola de meia ou chutar qualquer latinha, mesmo enferrujada.

Como não morri de tétano, sigo tendo vergonha na cara para admitir que não acho certo condenar os sapatos. Também não vou recriminar o sol em excesso, ainda que a luz incida implacável sobre o terrão onde a criançada joga sua partida bem animada.

Errei, ponto.

Posso provar que sou um zero à esquerda, porque lá vem outra vez a “gorduchinha” como que implorando de mim um esmerado “pimba”.

Epa! Que linguagem mais inconveniente. Dando azo a preconceitos e à violência sexual, seu Rodrigues?

Os meninos gritam-me que cometa logo a minha palhaçada.

Contaminado pela acalorada peleja no canteiro esturricado entre as vias da avenida, a eles, de novo, restituo-lhes a “esférica”. Entretanto, patética e previsivelmente, com as mãos.

Desato a rir. Todos rimos com bandeiras desfraldadas.

Eu me divirto com a pelada das crianças. Sim, não se trata de jogo só de meninos. Os dois times são mistos, há meninas jogando.

Crítico abalizado, digo que as garotas estão “jogando o fino”.

Sem ficar de braços cruzados, estou torcendo, vibrando. Assobio e bato palmas democraticamente, pois ninguém disputando o jogo é meu conhecido. De fato, mesmo se fosse amigo de alguém, isso não iria me influenciar. Minha parcialidade é real.

Ora, não tenho mais como alegar equilíbrio porque estou envolvido, eufórico, alegre e feliz com o que vejo, aprovo e incentivo.

Não é que a redonda passa rolando pro meio do trânsito?

No pique, gesticulando que nem Armando Marques, corro salvar a coitada. Estando salva, de pronto, chuto de trivela. A garotada solta um goooool sensacional. Abraço todo mundo, pois, até de terno e gravata, sou menino.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de setembro de 2021.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Agenda cheia

 

Agenda cheia

 

Feriado, hoje acordarei determinado. Não adiarei ainda mais o que já deveria ter feito. Mesmo que deixe de pensar claramente, palavra a palavra, que nunca se pode assegurar que o amanhã estará vigorando conforme às leis do tempo, despertarei de alma presente.

Abrirei os olhos com a disposição de quem sabe o que precisa fazer e lavarei o meu rosto sem ficar pesando o quanto a rotina prende. Não vou urinar comparando os gestos fisiologicamente necessários com as efetivas sutilezas irrepetíveis. Afinal, cada dia é novo, sendo outro.

De imediato, longe de filosofices: a água quente passará pelo pó e meus dentes morderão o pão, ainda que meu pensamento permaneça obstinado, concentrando-se na ideia de que terei tarefas a realizar.

Tendo em vista o provável azedume que virá à boca, tentarei refrear as ações deletérias das floras bucal e estomacal com uma escovação cientificamente responsável.

E subirei a escada com a mente atenta aos pássaros, pois pretendo ouvi-los sem que me possam distrair distinções entre a flora e a fauna, vírus e bactérias, o pé direito ou esquerdo no primeiro degrau.

Além da areia que o vento não para de trazer, vou tirar da calha do telhado da lavanderia o que houver de folhas, raminhos, penas e restos de fezes. Evitarei, contudo, condenar andorinhas, pardais e maritacas pela sujeira acumulada, obstáculo que dificultará a vazão da água das chuvas, e não o farei porque assumirei a culpa pelo descaso de meses.

Em vão, enquanto estiver fechando a boca do saco de lixo com um nó cego, debelarei o que sequer controlo, feito imaginar que a natureza materializa a substância chamada tempo.

E verificarei o estado dos ralos. Sem associar satisfação de trabalho realizado com firmeza de caráter, lavarei o quintal todinho, até aquelas rachaduras que costumam ficar imundas de um dia para outro.

Não descansarei, pois os vidros empoeirados seguirão pedindo por água e pano limpos. Vou limpá-los, antes que os cheiros da vizinhança convulsionem minha barriga.

Pois serão horas de tratar do que poderei comer.

Os meus dedos concentrar-se-ão em manipular alface, cebola, alho e tomate. As minhas mãos descascarão batatas e cenouras. E de olho no molho da salsicha, não salgarei a felicidade ao sentar-me à mesa.

Depois, e sem detença alguma, colarei a napa de sofá e poltronas onde for preciso.

Então, mesmo que a carcaça desse ser humano acabe cansada de tanta realidade por consertar, quando a mim não mais me desalentar ter esquecido de entregar o suor ao que preciso pra tornar este dia de fato memorável, só então, é que me sentarei talhado pelo bom bocado da esperança.

Agora, pra que me veja realmente livre da noite de sono, aguardarei que o horário programado do despertador acione o alarme pra que eu, ansiosa e preventivamente pragmático, deixe a cama tão quentinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2021.

 

domingo, 5 de setembro de 2021

Independência

 

Independência

 

Sensação esquisita não se explica, vive-se.

Sinto muito se o que vou dizer causa incômodo, mas posso garantir que sigo racional mesmo submetido ao estresse de uma tranquilidade prolongada.

E por quê? Porque durmo bem, sem enfrentar baratas roedoras de plástico madrugadas adentro. E meu cérebro descansado mantém-me sensato.

Sou humano, um bicho dotado de razão. Basicamente, o meu dever é usá-la para entender os sinais do mundo e, devidamente entendidos, fugir das mistificações. Das pueris e das engenhosas, tanto faz, porque ambas apequenam a nossa espécie.

Não sendo besta, carrego em mim os genes da cordialidade. É isso que me faz palpitar sobre qualquer assunto. Mesmo que pouco tenha de útil a acrescentar, digo o que mais me pareça lógico.

Procuro não fugir à coerência de animal pensante. Afinal, sou gente que tem o dom da palavra e não duvido disso.

Contudo, não me entenda mal, não estou sendo arrogante nem me falta modéstia, porque falo de peito aberto, com o coração sereno, em paz comigo mesmo.

Por favor, deixe de frescura. Admita que a razão está do meu lado quando afirmo que uma pessoa dotada de inteligência tem que agir de modo inteligente, ou não ficaria nada bem diante dos outros.

Não sendo como os outros, sei que você entende o que digo desde o começo ou não teria me acompanhado até aqui.

Você pode perguntar se o estresse da tranquilidade prolongada não provoca tédio. Sim, pode acarretar um tédio boçal.

E uma vida digna não merece ficar aprisionada na mesmice. Afinal, todo ser humano razoável não deve causar nojo nem dó.

Todavia, o que sinto ao viver fortes emoções? Eu vibro!

Chega de vestir a carapuça de pessoa covarde, que leva desaforo para casa e acha que está tudo certo quando tudo vai de mal a pior.

Beleza!

Preciso agir, tomar vergonha na cara, fazer algo que realmente me impeça de continuar cavando para ver onde fica o fundo do poço.

Tenho a solução pra acabar com a chatice destes dias de calmaria. Sei como me livrar do manto entediante do mundo que teima em abafar a alegria de viver com um marasmo infinito.

Que achado!

Só preciso organizar uma feijoada do balacobaco.

Sim!

Quando passo a correr atrás do que é preciso para ter uma feijoada porreta, a adrenalina sacode de jeito o meu esqueleto enfastiado.

Serelepe, à alma boa do açougueiro que me serve gentil peço paio, costelinha, linguiça, focinho, língua, rabo, e o escambau a quatro.

Se não tomasse a atitude de arregaçar as mangas para descascar o abacaxi existencial que vem desandando o meu angu, a minha carne seguiria apagada, abatida, sem viço, e mole, mole.

Independente da sua opinião a favor do que eu penso, acredito que uma feijoada completa é um bocado estimulante. Por isso, ponho gosto de que fico animado, renovado, remoçado, tão logo abocanho o manjar que julgo fazer jus depois de todo o meu sufoco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2021.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Jabuticaba

 

Jabuticaba

 

Depressa, subi na árvore. Nem pensei duas vezes, subi de vez.

Quando nem percebo que fico repetindo que ninguém tem o direito de negar-me o desejo de ficar quieto, assim a mixórdia do mundo pega a tomar de mim o meu tempo.

Olha que tenho que ter tempo para continuar fazendo o que esgota e aborrece. Já indisposto, quero arrumar uma desculpa irrefutável para poder sumir no ar.

Quer melhor desculpa que não se dar ao luxo de desperdiçar o que nem se tem abundante? O escasso pede o apreço da moderação.

Pois, o acaso confiou-me a coragem para cair da cama.

Não estou brincando.

Com o chuveiro convocando a minha presença, os pés embalaram o balé vexatório. Com os meus digníssimos calhando de enroscarem-se no lençol, fui de cara ao chão.

Podendo rir dessa mágoa de bailarino desastrado, corri dedicar-me a algo melhor que passar o dia proclamando-me um azarado cambaio.

A realidade tinha sol, passarinho e um pretexto pro meu sumiço. E o quintal veio correndo abraçar a minha circunstância de pessoa doida para me afastar de azáfamas mundanas.

E veio com um leque de seduções. Com tantas abelhas namorando as flores? Que bom, não vou sair. Com tantos pardais surfando a brisa? Melhor vista não há.

Não sendo maluco que baba por morcegos bicadores de jabuticaba, vi os muros a sitiar-me em casa.

Para escalar a jabuticabeira, tomei impulso, saltei, fui sentar-me no galho onde o sol não me pegaria distraído. Não iria ficar suando nessa folga caída do céu. Queria muito ter paz. Queria comer jabuticaba.

As frutinhas não me faltaram, fartaram-me.

Sentado à sombra, entregue ao prazer, afeito ao ócio, sem olhares inquisidores, seria redundante dizer-me afortunado?

Comi o quanto quis, o quanto pude, comi gostoso.

Na calmaria da tarde, dispensei continuar nervoso. Nem liguei pros vizinhos nos terraços dos prédios que até poderiam estar de olho em mim, que me enfarei de jabuticaba.

Como Pão de Açúcar doce, doce, o panduio estufado perturbou o entendimento da nova situação.

Teria como descer num salto só ou iria desabar de costas?

Resisti à sensação de outra queda estúpida, tratei de assegurar-me um alpinista comedido. Como um ser racional controla o pé arisco que queira o imediato, tratei de fortalecer que o pé que dava base concreta ao galho permitiria uma descida menos abrupta, obtusa, ridícula.

Havia nuvens.

Viria chuva ou a comichão mordia nos neurônios a minha fraqueza por precipitações assoberbadas?

Avesso ao óbvio, topei ficar à espera da borrasca.

Sem me decidir, passaram-se outros cinco minutos. Que o temporal viesse logo. Os quinze minutos viraram várias horas. E nada de chover. Foram-se as nuvens. A lua e as estrelas tocaram um noturno sereno. Descansado, o poleiro nem me despejou pelo solo abaixo.

E nada houve afora o normal?

Só estranhei não ter sentido a mão que torceu o meu pescoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2021.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ziquizira

 

Ziquizira

 

E este trem da vida ancorado num agosto que não passa, que não quer passar de modo algum? Concordo, melhor responder direito. Não é o mundo que navega por trilhos, a confusão é minha.

Sei o quanto custa manter o queixo erguido, e o universo não tem aliviado. Mas as águas não evaporam porque os meus miolos possam estar em ebulição. Quando os pensamentos fervilham, quando estou a mil, mordo os lábios.

Tenho que sossegar o facho. Preciso relaxar. Antes que estrague o restante do ano, pois agosto vai acabar, tem que ser logo. Senão quem vai acabar estragando tudo serei eu.

Como não me quero podre, com as minhas carnes atraindo moscas, prefiro desconhecer que rumo tomará o mal-estar.

E olho a biruta no telhado. Quede os ventos que sumiram?

Sumiram nada, eu é que estou zureta. Bem zuretinha, que tenho a mente cansada. Preciso viajar.

Sair sem destino, sem reserva de hotel. A esmo pelo mundo.

Mas a bússola do meu esgotamento parece com a biruta no telhado, está uma pasmaceira que dá dó.

A bruxa deve estar à solta. À solta, e numa boa.

A bruxa? Pois é. A bruxa que costuma vir me visitar quando estou pilhado, até ela deu no pé.

Só de lembrar, suspiro. E solto um suspiro cavernoso, que este mês de cachorro babando largado é outro agosto triste, comigo sem impedir as contas crescendo como serralha em chão batido.

Poderia ser o manjericão da horta na manteiga caseira, que agora recordo a galinha à pururuca. A boca saliva; a barriga quer o agrado.

Se as aranhas da cachola tecem verdadeiras as veredas do que me lembro saudoso, foi em Minas, ali por 2004, 2005.

Uma vez que era um agosto de férias, justo que seja memorável.

À beira da represa de Furnas, em Carmo do Rio Claro, bebericando cachaça de alambique tão saborosa, papando torresmo atrás de outro, não tinha porquê para querer largar do ócio.

Súbito, o ambiente ficou diferente. Nenhum passarinho pipilava. As águas do reservatório deixaram de ondular. A realidade congelada era inexplicável. O absurdo veio ao mundo sem pedir licença.

Como nunca passara por aquilo, fiquei impávido.

Vendo-me arredio, o dono da pousada, enquanto preparava o galo cabidela, perguntou-me se tinha ouvido um ruído, como se fosse feixe de piaçava varrendo na varanda.

Caramba, não tinha escutado nada.

Disfarçando a perplexidade, entre dentes, ele quis saber de mim se também estava assustado com o narigão verruguento que espiava pela janela escancarada.

Que nariz?

O relógio da parede atrás do balcão soou três da tarde, sequer pulei da cadeira. Consegui manter a altivez, nem precisei lavar a minha cara de macho nem fui urinar. Todavia, querendo alimentar o suor da testa, bebi outra talagada da pinguinha boa.

Como sujeito esclarecido, tive de revelar que era bem provável que a urucubaca que atraíra a bruxa àquele lugar singelo e encantador era minha, e tão somente minha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2021.