Tinha
um cavalete na praça. Alguém estava pintando.
O
sol surgia, ia subindo além das montanhas. Que belíssimo efeito, dos raios sobre
quem pintava.
Na
ida, passei às costas; na volta, pude conferir os traços.
Na
manhã seguinte, a mesma cena.
Privilegiando
o rosto da pessoa que pintava, fui e voltei. A absorta ignorou-me contente ao
vê-la.
No
outro dia, confirmei: não era diletante, sabia o que queria.
No
dia seguinte, não saí pra caminhar.
Não
fiquei triste, porque ela não passava a ideia de que fosse louca para querer pintar
alguma coisa debaixo de chuva.
Todavia,
a sexta-feira amanheceu ensolarada. Tão logo a vi:
ꟷ
Bom-dia! Que dia lindo!
Foi
o que consegui dizer no limite do que a timidez permitiu.
Com
sorriso aberto e nada sardônico, asseverou:
ꟷ
Caminhada faz bem pra gente.
De
perto, as cores não batiam com a realidade do momento.
ꟷ
Não se ofenda, mas este sombrio lembra o de Goeldi.
ꟷ
A comparação não me ofende. Fiz de propósito.
Por
certo, a minha cara de aliviado teria sido indisfarçável.
ꟷ
Amanhã a gente almoça, que tal?
Na
feijoada, falando sobre a representação da luz, contrapunha-se ao Monet que pintou
uns trinta quadros da Catedral de Rouen.
ꟷ
Só que ele ficava pintando em lugares fechados.
Já
na praça, tomando sorvete, disse que na rua se sentia em casa.
ꟷ
Mas as pessoas não tiram a concentração?
Não
se incomodava que viessem observá-la trabalhando.
ꟷ
O isolamento tem as suas graças.
Dava
condições ao apuro técnico, à firmeza da mão rigorosa e ao sutil do pincel que finaliza.
Raro era ficar distante das pessoas com as suas mil perguntas sobre o que fazia.
ꟷ
Tem gente que pergunta onde estudei. Tem quem que me peça pra opinar sobre o
que anda produzindo a filha de uma vizinha que tem muito talento. Contatos
assim não me aborrecem.
Um
ou outro confundiam simpatia com propensão à libertinagem. E ela não perderia os
prazeres da vida por causa dos boçais.
ꟷ
Vou contar como foi que me decidi a nunca frequentar uma escola de arte. É uma
história triste. Por também ser vergonhosa, não direi o santo nome que me fez
tomar horror pelas academias e suas regras.
Sem
vocação alguma para agir como noviça, ela foi matriculada em colégio
confessional, franqueado às famílias abastadas da cidade e de seletas
casas-grandes de fora.
Em
uma tarde qualquer, à saída de alguma missa, uma das mestras encontrou-a na
escadaria da Sé.
Com
medo dos mendigos tisnados à porta da catedral, a professora acenou que se
aproximassem os praças que faziam ronda ostensiva.
ꟷ
E prontamente atenderam. E ouviram a freira atentamente.
Uma
vez arrolada a sua identidade oficial com a foto do documento, não hesitaram em
admoestá-la pelo comportamento leviano e trataram de conduzi-la de volta ao
educandário.
ꟷ
Ninguém foi capaz de devolver o bloquinho de desenhos. E o que ele tinha eram
esboços, só esboços à mão livre.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 28 de setembro de 2021.