Quando
a alegria é tanta, sorrio. Mesmo sem achar que sou pessoa que aceite uma condescendência
dessa, engrenando sorrir, ajo como quem desconfia, nem tanto como quem se
defende.
Por
tudo que for? Ou sorrio quando me sensibiliza o que for seguro? O mundo em caos
convulsivo, e resolvo sorrir?
Sem
dúvida, se minha resposta às revoluções da vida for realmente preservar-me afável,
meu caso requer necessária avaliação científica, pormenorizada, menos superficial.
Sem
achismos bem-ajambrados, é chamar psiquiatra.
Se
fosse querer encontrar o que explique, e sirva pra me perdoar a placidez
alcançada, às vezes sinto ter atingido o estado mental que me permite reagir
aos estímulos da vida sem filtrá-los por afetos convulsos, extremos, acerbos.
Se
perguntassem agora como foi que cheguei à paz interior, já que o sorriso vem à
tona sem fingida inocência, indagaria: que paz?
Nem
ficaria preocupado que me considerassem alienado, mais um peixinho distraído na
sua água imperceptível, muito natural.
Dando
contorno à substância abstrata: tropeço ao pisar no cadarço, abaixo-me e amarro
o cordão do tênis; bato a bermuda pra limpá-la; e verifico quão graves são os
machucados no joelho; não impreco e não blasfemo e não choramingo; otimista,
retomo o caminho.
Longe
de mim a idiotice de dizer-me uma esfinge de pedra-sabão, que vivo só sorrisos,
pois isso não passa de balela, mercadoria podre embrulhada no jornal de ontem.
Carregando
no preto e no branco: quando ligam de madrugada pra dar notícias que tiram o
chão, eu desabo.
Pessoa
pouco indicada a gritar sem abrir a boca, tendo os pulmões plenos de dor, sinto
o olhar batista de Caravaggio, e muito me abismo.
Quando
a tristeza é tanta, pra que a água do mar revolto me afogue numa perplexidade
infinda, já que não controlo a boca alucinadamente incapacitada de manter-se
fechada, saio agarrando o que for.
Ou
seja, não cabe a mim suplicar que não fiquem me lembrando de que ninguém fica
calmo arrancando os próprios cabelos. Nem o vasto repertório de nomes feios
alivia a carga, e o mar segue infernal.
É
pelo sentimento que me sei suscetível ao sal da terra. Não é pelo entendimento
que me estranho.
Afinal,
ao pensar na dor, perco a dimensão espontânea, de animal ferido. Faço que
sofro, imito a mim mesmo a sofrer, tão bom farsante.
Horroriza
o extemporâneo?
Além
de alegre tranquilo e indiscreto triste, uma novidade a mim se apresenta.
Sem
reparar, olho pro chão. Talvez nem queira mostrar o que estou sentindo, nem
queira tornar evidente que penso sobre o que sinto. Olho pra baixo, com algum
sentimento anterior ao retrato.
A
intuição fala sério comigo e faz-me ver que não preciso relacionar o que sinto
com o mundo ao redor. Não sendo preciso, compondo meu melhor olhar benjaminiano
no momento que me encara um copo cheio de ar, nem pigarreio.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de setembro de 2021.
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