quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Tempo de resposta

 

Tempo de resposta

 

Quando a alegria é tanta, sorrio. Mesmo sem achar que sou pessoa que aceite uma condescendência dessa, engrenando sorrir, ajo como quem desconfia, nem tanto como quem se defende.

Por tudo que for? Ou sorrio quando me sensibiliza o que for seguro? O mundo em caos convulsivo, e resolvo sorrir?

Sem dúvida, se minha resposta às revoluções da vida for realmente preservar-me afável, meu caso requer necessária avaliação científica, pormenorizada, menos superficial.

Sem achismos bem-ajambrados, é chamar psiquiatra.

Se fosse querer encontrar o que explique, e sirva pra me perdoar a placidez alcançada, às vezes sinto ter atingido o estado mental que me permite reagir aos estímulos da vida sem filtrá-los por afetos convulsos, extremos, acerbos.

Se perguntassem agora como foi que cheguei à paz interior, já que o sorriso vem à tona sem fingida inocência, indagaria: que paz?

Nem ficaria preocupado que me considerassem alienado, mais um peixinho distraído na sua água imperceptível, muito natural.

Dando contorno à substância abstrata: tropeço ao pisar no cadarço, abaixo-me e amarro o cordão do tênis; bato a bermuda pra limpá-la; e verifico quão graves são os machucados no joelho; não impreco e não blasfemo e não choramingo; otimista, retomo o caminho.

Longe de mim a idiotice de dizer-me uma esfinge de pedra-sabão, que vivo só sorrisos, pois isso não passa de balela, mercadoria podre embrulhada no jornal de ontem.

Carregando no preto e no branco: quando ligam de madrugada pra dar notícias que tiram o chão, eu desabo.

Pessoa pouco indicada a gritar sem abrir a boca, tendo os pulmões plenos de dor, sinto o olhar batista de Caravaggio, e muito me abismo.

Quando a tristeza é tanta, pra que a água do mar revolto me afogue numa perplexidade infinda, já que não controlo a boca alucinadamente incapacitada de manter-se fechada, saio agarrando o que for.

Ou seja, não cabe a mim suplicar que não fiquem me lembrando de que ninguém fica calmo arrancando os próprios cabelos. Nem o vasto repertório de nomes feios alivia a carga, e o mar segue infernal.

É pelo sentimento que me sei suscetível ao sal da terra. Não é pelo entendimento que me estranho.

Afinal, ao pensar na dor, perco a dimensão espontânea, de animal ferido. Faço que sofro, imito a mim mesmo a sofrer, tão bom farsante.

Horroriza o extemporâneo?

Além de alegre tranquilo e indiscreto triste, uma novidade a mim se apresenta.

Sem reparar, olho pro chão. Talvez nem queira mostrar o que estou sentindo, nem queira tornar evidente que penso sobre o que sinto. Olho pra baixo, com algum sentimento anterior ao retrato.

A intuição fala sério comigo e faz-me ver que não preciso relacionar o que sinto com o mundo ao redor. Não sendo preciso, compondo meu melhor olhar benjaminiano no momento que me encara um copo cheio de ar, nem pigarreio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de setembro de 2021.

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