domingo, 12 de setembro de 2021

Um caturro apaixonado

 

Um caturro apaixonado

 

Era pros meus pés sentirem mais que um certo alívio, perdeu-se a oportunidade. Houvesse começado uma chuva daquelas, com ventos uivantes e raios tenebrosos, poderia alegar medo, ou a inconveniência de andar sem guarda-chuva, capa ou galochas; descalço, então, nem pensar, por conta da urina dos ratos e das fezes das baratas que todo alagamento contém.

Era pra espuma gelada ter causado algum impacto terapêutico em mim, mas os meus olhos não gozaram sequer a vista do mar, maravilha que pude apenas imaginar nas minhas plácidas contemplações.

Era pra ter uma manhã tranquila, com as ondas do mar indo e vindo sem pressa, com barquinhos navegando no horizonte azul pastel, com banhistas em roupas de felicidade, só que o bendito do mundo decidiu fulminar os meus planos, e foi de vez, de uma única e impiedosa vez.

Arrepiado, enervado, tiritando de ódio ꟷ eu ri de tanta desgraça.

A água pela canela brotava do ralo entupido da lavanderia. O sabão servia pros deslizamentos desencontrados a cada passo. Era pra virar dançar um forró danado ao som de um metal furibundo que a vida fez de ficar de birra comigo.

Pingando suor, enxugava gelo, que o esgoto era esperto o bastante pra progredir geometricamente.

Um oceano de sal veio à ponta da língua, escarrei-o com gosto. Foi descarregando um turbilhão de impropérios que dei conta do recado.

Feita a lição de casa, o universo escutasse o surdo rancor que em minha alma pulsava manhoso.

Qual o quê!

Querendo uma ducha rápida pra tirar o bodum da cândida, cruzou a minha frente uma barata ligeirinha. De chinelo na mão, os olhos atrás do bicho, que o inseto sofresse uma morte rápida, ou quase isso.

Quase nada.

Tonto pelo súbito rodopio, bati o cotovelo na porta do box. Se a dor era grande, o estrondo do vidro estilhaçando-se contra o chão foi muito mais impressionante.

Pelo rugido, cedi ao susto. A planta do pé retirou o apoio, tomei um tombaço dos mais ridículos, que até os meus óculos estilhaçaram em igual medida ꟷ nos cacos, e não no estampido.

Ora essa. Longe de mim ter lamentações medíocres.

A realidade podia achar engraçado tirar de mim a leveza do espírito, todavia o negócio comigo iria acabar saindo caro, uma nota.

Sempre dou razão à cabeça para me irritar com o mundo na mesma moeda. Se socaria o tronco da laranjeira para abespinhar as abelhas? Socaria. Se beberia cerveja para atiçar o fogo que minha casa adorável ateou no meu cérebro de mentecapto? Verteria o Atlântico. Se não me canso de saber que a vida não está pra brincadeira? Nem brinco.

Em sua reflexiva leitura, você talvez esteja alimentando a robalo um tubarão ético:

ꟷ Será só isso?

Que a fortuna siga com o seu canto de festança infinita, porque, ao fim e ao cabo, a minha lírica embriaguez ganhará de mim a maior das honrarias: juro não tirar dos joelhos nenhuma política da sobriedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2021.

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