Fazia
anos, e a imprudência impelia a dizer quantos. Arredondando o número
cabalístico: trinta e três. Para dimensionar a gravidade desse tempo, seria melhor
passar um café.
Preventivamente
sentado, bebericando o cafezinho, pra que não se figurasse em problema digerir
as implicações que o período decorrido estimulava, pois ideias fortes provocam
movimentos profundos, abalos abissais acarretam transtornos indeléveis,
atropelamentos tectônicos originam catástrofes, ou apenas outra crise.
E
a primeira suspeita que poderia vir à mente: há que se considerar a beleza
efêmera de uma borboleta. Desde o instante em que mexe as antenas pro
rastreamento do néctar até que suas asas orientadas não rumam nem mesmo pro sul,
a flor que voa ignora aquele duplo três.
Em
dose dupla, um três alinhado a outro, viria à cabeça a primeira dica: relevante
é tomar em conta toda impressão instantânea que borre a imagem, queimando a
hipótese de que se esteja a buscá-la livre das digitais intrometidas que
conspurquem qualquer fantasia limpa, pura e cristalina.
Em
outras palavras, a primeira pista que poderia ter vindo primeiro à consciência é
que a pessoa que costuma pensar duas vezes mesmo frente a frente a um espanto
não se revela fonte confiável do que seja racionalidade.
Assim,
a primeira evidência de que tem coisa errada nesta história é pegar como
exemplo alguém que vive sonhando de olhos abertos, e sonha em dormir bem apesar
de não ter gato para caçar ratos, e sonha em candidatar-se a uma vaga ainda que
nem tenha como disfarçar as olheiras, e sonha em ir pra Amsterdam nem que precise
fazer trezentas e trinta e três horas-extras, e deseja muitíssimo acordar cedo
pra não ter de suar tanto ao cruzar a cidade pedalando.
Portanto,
o próximo passo é demostrar que a primeira prova contra as supostas boas
intenções deste ser humano em tela está dada logo no início: não há princípio moral
que resista à falta de verba pra ter um café decente.
De
fato, seria bom dispor de um pãozinho com margarina, bolachas recheadas de
chocolate e aquele infalível copo de leite integral pingado de café, mistura enriquecida
pelo choro de açúcar mascavo.
Enfim,
depois destas suspeitas, dicas, pistas, evidências e provas, fica a sugestão de
reconsiderar com cuidado a situação: se não tivesse vivido de esperança em
esperança, dificilmente o personagem poderia proporcionar-se o luxo de querer irrecusável
o pedido de soprar tantas velinhas, saborear fatias de um bolo espetacularmente
incomparável e congratular-se por ter chegado à idade de Cristo com a perspectiva
de seguir adiante.
Pra
onde?
Santa
Catarina, sem ter como encontrar forças pra expulsar os seus demônios, falta ao
famélico rogar a ti para que a roda de seiscentos e sessenta e seis raios pare a
mentira de vender apenas sonhos pra que se renda ao dia.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de setembro de 2021.
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