terça-feira, 14 de setembro de 2021

A roda

 

A roda

 

Fazia anos, e a imprudência impelia a dizer quantos. Arredondando o número cabalístico: trinta e três. Para dimensionar a gravidade desse tempo, seria melhor passar um café.

Preventivamente sentado, bebericando o cafezinho, pra que não se figurasse em problema digerir as implicações que o período decorrido estimulava, pois ideias fortes provocam movimentos profundos, abalos abissais acarretam transtornos indeléveis, atropelamentos tectônicos originam catástrofes, ou apenas outra crise.

E a primeira suspeita que poderia vir à mente: há que se considerar a beleza efêmera de uma borboleta. Desde o instante em que mexe as antenas pro rastreamento do néctar até que suas asas orientadas não rumam nem mesmo pro sul, a flor que voa ignora aquele duplo três.

Em dose dupla, um três alinhado a outro, viria à cabeça a primeira dica: relevante é tomar em conta toda impressão instantânea que borre a imagem, queimando a hipótese de que se esteja a buscá-la livre das digitais intrometidas que conspurquem qualquer fantasia limpa, pura e cristalina.

Em outras palavras, a primeira pista que poderia ter vindo primeiro à consciência é que a pessoa que costuma pensar duas vezes mesmo frente a frente a um espanto não se revela fonte confiável do que seja racionalidade.

Assim, a primeira evidência de que tem coisa errada nesta história é pegar como exemplo alguém que vive sonhando de olhos abertos, e sonha em dormir bem apesar de não ter gato para caçar ratos, e sonha em candidatar-se a uma vaga ainda que nem tenha como disfarçar as olheiras, e sonha em ir pra Amsterdam nem que precise fazer trezentas e trinta e três horas-extras, e deseja muitíssimo acordar cedo pra não ter de suar tanto ao cruzar a cidade pedalando.

Portanto, o próximo passo é demostrar que a primeira prova contra as supostas boas intenções deste ser humano em tela está dada logo no início: não há princípio moral que resista à falta de verba pra ter um café decente.

De fato, seria bom dispor de um pãozinho com margarina, bolachas recheadas de chocolate e aquele infalível copo de leite integral pingado de café, mistura enriquecida pelo choro de açúcar mascavo.

Enfim, depois destas suspeitas, dicas, pistas, evidências e provas, fica a sugestão de reconsiderar com cuidado a situação: se não tivesse vivido de esperança em esperança, dificilmente o personagem poderia proporcionar-se o luxo de querer irrecusável o pedido de soprar tantas velinhas, saborear fatias de um bolo espetacularmente incomparável e congratular-se por ter chegado à idade de Cristo com a perspectiva de seguir adiante.

Pra onde?

Santa Catarina, sem ter como encontrar forças pra expulsar os seus demônios, falta ao famélico rogar a ti para que a roda de seiscentos e sessenta e seis raios pare a mentira de vender apenas sonhos pra que se renda ao dia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de setembro de 2021.

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