quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Só no sapatinho

 

Só no sapatinho

 

Vem a bola quicando na minha direção, e não penso duas vezes, é de primeira que devolvo. Os meninos riem, pois ofereço-lhes um chute fraco, além de torto. Solta e zombeteiramente, riem do ridículo.

Tantas vezes peladeiro nas aulas vagas do ginásio, nunca aprendi a culpar os calçados. Ainda hoje acho que os meus pés têm de entrar na linha, serem adestrados exercitando-se exaustivamente. Mas a vida secou em mim o desejo indômito de suar em campos e quadras.

Naquele tempo, eu exibia um modelo de tênis similar às chuteiras dos profissionais e, como detalhe revelador da garbosa autoestima, eu amarrava o cadarço no tornozelo. Nem assim o meu kichute me ungia bailarino, um Didi ou Bobô, eu seguia batendo de modo bisonho.

Por mais lamentável jogador que eu era, como ato de misericórdia, acabavam me dando a oportunidade de entreter quem ainda se divertia com as trapalhadas. Afinal, não era de caneladas nem cotoveladas. Só joelhos e mãos é que tinham muito a reclamar da minha entusiasmada entrega a toda disputa.

Por que murcho minha bola de forma contundente?

Porque a pelota era realmente minha, ou teriam de improvisar bola de meia ou chutar qualquer latinha, mesmo enferrujada.

Como não morri de tétano, sigo tendo vergonha na cara para admitir que não acho certo condenar os sapatos. Também não vou recriminar o sol em excesso, ainda que a luz incida implacável sobre o terrão onde a criançada joga sua partida bem animada.

Errei, ponto.

Posso provar que sou um zero à esquerda, porque lá vem outra vez a “gorduchinha” como que implorando de mim um esmerado “pimba”.

Epa! Que linguagem mais inconveniente. Dando azo a preconceitos e à violência sexual, seu Rodrigues?

Os meninos gritam-me que cometa logo a minha palhaçada.

Contaminado pela acalorada peleja no canteiro esturricado entre as vias da avenida, a eles, de novo, restituo-lhes a “esférica”. Entretanto, patética e previsivelmente, com as mãos.

Desato a rir. Todos rimos com bandeiras desfraldadas.

Eu me divirto com a pelada das crianças. Sim, não se trata de jogo só de meninos. Os dois times são mistos, há meninas jogando.

Crítico abalizado, digo que as garotas estão “jogando o fino”.

Sem ficar de braços cruzados, estou torcendo, vibrando. Assobio e bato palmas democraticamente, pois ninguém disputando o jogo é meu conhecido. De fato, mesmo se fosse amigo de alguém, isso não iria me influenciar. Minha parcialidade é real.

Ora, não tenho mais como alegar equilíbrio porque estou envolvido, eufórico, alegre e feliz com o que vejo, aprovo e incentivo.

Não é que a redonda passa rolando pro meio do trânsito?

No pique, gesticulando que nem Armando Marques, corro salvar a coitada. Estando salva, de pronto, chuto de trivela. A garotada solta um goooool sensacional. Abraço todo mundo, pois, até de terno e gravata, sou menino.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de setembro de 2021.

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