terça-feira, 31 de agosto de 2021

Ziquizira

 

Ziquizira

 

E este trem da vida ancorado num agosto que não passa, que não quer passar de modo algum? Concordo, melhor responder direito. Não é o mundo que navega por trilhos, a confusão é minha.

Sei o quanto custa manter o queixo erguido, e o universo não tem aliviado. Mas as águas não evaporam porque os meus miolos possam estar em ebulição. Quando os pensamentos fervilham, quando estou a mil, mordo os lábios.

Tenho que sossegar o facho. Preciso relaxar. Antes que estrague o restante do ano, pois agosto vai acabar, tem que ser logo. Senão quem vai acabar estragando tudo serei eu.

Como não me quero podre, com as minhas carnes atraindo moscas, prefiro desconhecer que rumo tomará o mal-estar.

E olho a biruta no telhado. Quede os ventos que sumiram?

Sumiram nada, eu é que estou zureta. Bem zuretinha, que tenho a mente cansada. Preciso viajar.

Sair sem destino, sem reserva de hotel. A esmo pelo mundo.

Mas a bússola do meu esgotamento parece com a biruta no telhado, está uma pasmaceira que dá dó.

A bruxa deve estar à solta. À solta, e numa boa.

A bruxa? Pois é. A bruxa que costuma vir me visitar quando estou pilhado, até ela deu no pé.

Só de lembrar, suspiro. E solto um suspiro cavernoso, que este mês de cachorro babando largado é outro agosto triste, comigo sem impedir as contas crescendo como serralha em chão batido.

Poderia ser o manjericão da horta na manteiga caseira, que agora recordo a galinha à pururuca. A boca saliva; a barriga quer o agrado.

Se as aranhas da cachola tecem verdadeiras as veredas do que me lembro saudoso, foi em Minas, ali por 2004, 2005.

Uma vez que era um agosto de férias, justo que seja memorável.

À beira da represa de Furnas, em Carmo do Rio Claro, bebericando cachaça de alambique tão saborosa, papando torresmo atrás de outro, não tinha porquê para querer largar do ócio.

Súbito, o ambiente ficou diferente. Nenhum passarinho pipilava. As águas do reservatório deixaram de ondular. A realidade congelada era inexplicável. O absurdo veio ao mundo sem pedir licença.

Como nunca passara por aquilo, fiquei impávido.

Vendo-me arredio, o dono da pousada, enquanto preparava o galo cabidela, perguntou-me se tinha ouvido um ruído, como se fosse feixe de piaçava varrendo na varanda.

Caramba, não tinha escutado nada.

Disfarçando a perplexidade, entre dentes, ele quis saber de mim se também estava assustado com o narigão verruguento que espiava pela janela escancarada.

Que nariz?

O relógio da parede atrás do balcão soou três da tarde, sequer pulei da cadeira. Consegui manter a altivez, nem precisei lavar a minha cara de macho nem fui urinar. Todavia, querendo alimentar o suor da testa, bebi outra talagada da pinguinha boa.

Como sujeito esclarecido, tive de revelar que era bem provável que a urucubaca que atraíra a bruxa àquele lugar singelo e encantador era minha, e tão somente minha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de agosto de 2021.

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