terça-feira, 21 de setembro de 2021

Reconhecimento

 

Reconhecimento

 

Se soubesse ficar longe das desgraças da vida, teria sofrido menos. Mas o mundo costuma minar continuamente a determinação da gente, e a pessoa deixa de acreditar que ninguém tira bilhete premiado só de pensar. De fato, deveria ser louvado o equilíbrio frente às desventuras que vão surgindo.

Se o estômago tivesse recusado o pão que o diabo não se farta de oferecer, teria enfrentado a cobiça comandando a boca tão salivante.

A quem paga para pôr a massa no forno do inferno, isso é pesadelo. É sonho ruim do qual não se acorda só abrindo os olhos. Ficar suando em banho-maria não é assar, e tal anomia põe azedo o gosto de viver.

Além disso, é manter-se atento a cães no caminho, é lembrar-se de que nada cai do céu. Então, o jeito é ficar de olhos limpos. É preciso o desconfiômetro ligado, porque as sereias não param de encantar.

Cantando macio, querem que a gente pense em saltar do barco. E o fundo do mar tem areia, não tem lente que permita identificação nítida a um palmo e meio do nariz.

A dignidade não rói as vestes do guarda-roupa. A urina não resseca as ervas do jardim. Mesmo com o telefone já rodado, não é dispensável considerá-lo perdido.

Como tem gente que deseja encontrar a felicidade seguindo mapas vendidos pelos espertalhões que não se furtam de apregoar verdades tão acutilantes, com os fios indeléveis de uma vida dolorosa, é tecida a rosa azul que atrai as aflições. Mas as pétalas da coroa com espinhos florescem ao luar minguante na madrugada maravilhosamente ácida, que não há.

É assim que o ardil da fábula do sinistro doura-se, e o irrecusável é a capa que açula a solidão, o desespero, a angústia, o que fere, marca e faz insustentável e insuportável querer viver com os pés no chão.

Pelo esgotamento, pela exaustão?

Sob medida, pela fricção da pele na roupagem de cada tarefa.

É por aí que o ideal da honorabilidade fala que a fantasia serve bem à realidade, só não pense em tossir durante a récita. Por gentileza, não abra o guarda-chuva na plateia porque aqui é o sacrossanto Municipal. Abra um sorriso girassol, acompanhe a Estrela da Manhã, vista-se de Sol e tolere tomar por pedágio uma ou outra dádiva sem igual.

Seja premiado o indicador que reconhece pelo norte espontâneo de sua colaboração decididamente ressentida, seja protegido esse direito, pois é pagando que se deve exigir.

Todavia, quais exigências?

Não o respeito, o escorreito. Não o certo, o suspeito. Não o justo, a justificativa.

Neste xadrez em que o sacrifício é apenas dos peões, convém que continue vencedor quem nunca há de perder.

Afinal, a fábula a que se deve apegar é muro erguido com palavras moralmente sólidas, é sono que promove a monstros surreais quem os sistemas métricos não têm razão ao aferir. Portanto, sem digitais nem fotografias, no álbum das aparições deste mundo, não são fantasmas os que têm rosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de setembro de 2021.


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