Se
soubesse ficar longe das desgraças da vida, teria sofrido menos. Mas o mundo costuma
minar continuamente a determinação da gente, e a pessoa deixa de acreditar que
ninguém tira bilhete premiado só de pensar. De fato, deveria ser louvado o
equilíbrio frente às desventuras que vão surgindo.
Se
o estômago tivesse recusado o pão que o diabo não se farta de oferecer, teria
enfrentado a cobiça comandando a boca tão salivante.
A
quem paga para pôr a massa no forno do inferno, isso é pesadelo. É sonho ruim
do qual não se acorda só abrindo os olhos. Ficar suando em banho-maria não é
assar, e tal anomia põe azedo o gosto de viver.
Além
disso, é manter-se atento a cães no caminho, é lembrar-se de que nada cai do
céu. Então, o jeito é ficar de olhos limpos. É preciso o desconfiômetro ligado,
porque as sereias não param de encantar.
Cantando
macio, querem que a gente pense em saltar do barco. E o fundo do mar tem areia,
não tem lente que permita identificação nítida a um palmo e meio do nariz.
A
dignidade não rói as vestes do guarda-roupa. A urina não resseca as ervas do
jardim. Mesmo com o telefone já rodado, não é dispensável considerá-lo perdido.
Como
tem gente que deseja encontrar a felicidade seguindo mapas vendidos pelos espertalhões
que não se furtam de apregoar verdades tão acutilantes, com os fios indeléveis de
uma vida dolorosa, é tecida a rosa azul que atrai as aflições. Mas as pétalas
da coroa com espinhos florescem ao luar minguante na madrugada maravilhosamente
ácida, que não há.
É
assim que o ardil da fábula do sinistro doura-se, e o irrecusável é a capa que açula
a solidão, o desespero, a angústia, o que fere, marca e faz insustentável e
insuportável querer viver com os pés no chão.
Pelo
esgotamento, pela exaustão?
Sob
medida, pela fricção da pele na roupagem de cada tarefa.
É
por aí que o ideal da honorabilidade fala que a fantasia serve bem à realidade,
só não pense em tossir durante a récita. Por gentileza, não abra o guarda-chuva
na plateia porque aqui é o sacrossanto Municipal. Abra um sorriso girassol,
acompanhe a Estrela da Manhã, vista-se de Sol e tolere tomar por pedágio uma ou
outra dádiva sem igual.
Seja
premiado o indicador que reconhece pelo norte espontâneo de sua colaboração
decididamente ressentida, seja protegido esse direito, pois é pagando que se
deve exigir.
Todavia,
quais exigências?
Não
o respeito, o escorreito. Não o certo, o suspeito. Não o justo, a justificativa.
Neste
xadrez em que o sacrifício é apenas dos peões, convém que continue vencedor
quem nunca há de perder.
Afinal,
a fábula a que se deve apegar é muro erguido com palavras moralmente sólidas, é
sono que promove a monstros surreais quem os sistemas métricos não têm razão ao
aferir. Portanto, sem digitais nem fotografias, no álbum das aparições deste
mundo, não são fantasmas os que têm rosto.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 21 de setembro de 2021.
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