Com
vontade de tomar laranjada: espremi uma laranja e bebi.
Deu
gosto bebê-la.
Ainda
com a satisfação na boca, não tomei nas mãos o bagaço pra ponderar o desejo
realizado. Com a sensação de ter feito algo simples, mas agradável, não me inclinaria
a refutar o sentimento de estar feliz.
Pra
não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o bem-estar jogando
tão prosaico com a vida.
Afinal,
ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir
da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra.
Dos
subsolos dessa estupidez grosseira, subi ao sol da praça.
Sentado,
deixei-me estar aos desconcertos do mundo.
Algumas
pessoas conversavam miudezas. Outras sustentavam-se uma luz colossal. Vinham e
iam. Vaporosas. Aquietadas.
Não
foi por prudência ou medo que os meus olhos, boca e ouvidos me serviram como antenas
e sondas, foi pelas feridas que a compaixão reconhece nesses animais humanos,
tão meus semelhantes.
Estimulado
pelo entorno, abri o jornal.
Como
as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação de
pombos que não virei um resmungão, mais solitário.
Eram
vários. Foram chegando. Vinham bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas,
e minhocas de espaguete.
De
maneira alguma, as desgraças lidas não me animariam a cavar um penhasco pra
arremessar pensamentos lúgubres, ou pombos.
Nem
sei se, terrificados, arrulhariam depois de expostos.
Os
dramas da vida ꟷ comum a cordatos, ansiosos, dissimulados ꟷ poderiam estar
circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é
atribuída alguma catástrofe iminente.
De
repente, um cachorro partiu pra cima dos pombos.
Encurralado
entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como
péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco.
Coitado
do bichinho.
O
mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza
espiritual, tão humana.
Sorte
do bruto.
Como
tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na
presa atordoada, o cão virou um corisco.
Entre
a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou sendo
mordida. Irrefutavelmente, outra vítima inocente.
Me
escapuliu um azedo de laranja, que susto!
E
o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos.
Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga,
que nem era comigo. Daí, paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem
fosse minha.
Posso
uma indiscrição?
Despertando
de um sono sossegado, nem prestei atenção, porém, agora, percebo o erro que
cometi ao descer da cama: foi a canhota que tocou o chão mais gelado do que o
normal.
Sem
dúvida, não se deve deixar passar um tremendo sinal.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 26 de setembro de 2021.
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