domingo, 26 de setembro de 2021

O segredo

 

O segredo

 

Com vontade de tomar laranjada: espremi uma laranja e bebi.

Deu gosto bebê-la.

Ainda com a satisfação na boca, não tomei nas mãos o bagaço pra ponderar o desejo realizado. Com a sensação de ter feito algo simples, mas agradável, não me inclinaria a refutar o sentimento de estar feliz.

Pra não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o bem-estar jogando tão prosaico com a vida.

Afinal, ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra.

Dos subsolos dessa estupidez grosseira, subi ao sol da praça.

Sentado, deixei-me estar aos desconcertos do mundo.

Algumas pessoas conversavam miudezas. Outras sustentavam-se uma luz colossal. Vinham e iam. Vaporosas. Aquietadas.

Não foi por prudência ou medo que os meus olhos, boca e ouvidos me serviram como antenas e sondas, foi pelas feridas que a compaixão reconhece nesses animais humanos, tão meus semelhantes.

Estimulado pelo entorno, abri o jornal.

Como as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação de pombos que não virei um resmungão, mais solitário.

Eram vários. Foram chegando. Vinham bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete.

De maneira alguma, as desgraças lidas não me animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos lúgubres, ou pombos.

Nem sei se, terrificados, arrulhariam depois de expostos.

Os dramas da vida ꟷ comum a cordatos, ansiosos, dissimulados ꟷ poderiam estar circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída alguma catástrofe iminente.

De repente, um cachorro partiu pra cima dos pombos.

Encurralado entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco.

Coitado do bichinho.

O mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza espiritual, tão humana.

Sorte do bruto.

Como tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na presa atordoada, o cão virou um corisco.

Entre a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou sendo mordida. Irrefutavelmente, outra vítima inocente.

Me escapuliu um azedo de laranja, que susto!

E o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos. Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga, que nem era comigo. Daí, paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse minha.

Posso uma indiscrição?

Despertando de um sono sossegado, nem prestei atenção, porém, agora, percebo o erro que cometi ao descer da cama: foi a canhota que tocou o chão mais gelado do que o normal.

Sem dúvida, não se deve deixar passar um tremendo sinal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de setembro de 2021.

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