terça-feira, 28 de setembro de 2021

Riscos

 

Riscos

 

Tinha um cavalete na praça. Alguém estava pintando.

O sol surgia, ia subindo além das montanhas. Que belíssimo efeito, dos raios sobre quem pintava.

Na ida, passei às costas; na volta, pude conferir os traços.

Na manhã seguinte, a mesma cena.

Privilegiando o rosto da pessoa que pintava, fui e voltei. A absorta ignorou-me contente ao vê-la.

No outro dia, confirmei: não era diletante, sabia o que queria.

No dia seguinte, não saí pra caminhar.

Não fiquei triste, porque ela não passava a ideia de que fosse louca para querer pintar alguma coisa debaixo de chuva.

Todavia, a sexta-feira amanheceu ensolarada. Tão logo a vi:

ꟷ Bom-dia! Que dia lindo!

Foi o que consegui dizer no limite do que a timidez permitiu.

Com sorriso aberto e nada sardônico, asseverou:

ꟷ Caminhada faz bem pra gente.

De perto, as cores não batiam com a realidade do momento.

ꟷ Não se ofenda, mas este sombrio lembra o de Goeldi.

ꟷ A comparação não me ofende. Fiz de propósito.

Por certo, a minha cara de aliviado teria sido indisfarçável.

ꟷ Amanhã a gente almoça, que tal?

Na feijoada, falando sobre a representação da luz, contrapunha-se ao Monet que pintou uns trinta quadros da Catedral de Rouen.

ꟷ Só que ele ficava pintando em lugares fechados.

Já na praça, tomando sorvete, disse que na rua se sentia em casa.

ꟷ Mas as pessoas não tiram a concentração?

Não se incomodava que viessem observá-la trabalhando.

ꟷ O isolamento tem as suas graças.

Dava condições ao apuro técnico, à firmeza da mão rigorosa e ao sutil do pincel que finaliza. Raro era ficar distante das pessoas com as suas mil perguntas sobre o que fazia.

ꟷ Tem gente que pergunta onde estudei. Tem quem que me peça pra opinar sobre o que anda produzindo a filha de uma vizinha que tem muito talento. Contatos assim não me aborrecem.

Um ou outro confundiam simpatia com propensão à libertinagem. E ela não perderia os prazeres da vida por causa dos boçais.

ꟷ Vou contar como foi que me decidi a nunca frequentar uma escola de arte. É uma história triste. Por também ser vergonhosa, não direi o santo nome que me fez tomar horror pelas academias e suas regras.

Sem vocação alguma para agir como noviça, ela foi matriculada em colégio confessional, franqueado às famílias abastadas da cidade e de seletas casas-grandes de fora.

Em uma tarde qualquer, à saída de alguma missa, uma das mestras encontrou-a na escadaria da Sé.

Com medo dos mendigos tisnados à porta da catedral, a professora acenou que se aproximassem os praças que faziam ronda ostensiva.

ꟷ E prontamente atenderam. E ouviram a freira atentamente.

Uma vez arrolada a sua identidade oficial com a foto do documento, não hesitaram em admoestá-la pelo comportamento leviano e trataram de conduzi-la de volta ao educandário.

ꟷ Ninguém foi capaz de devolver o bloquinho de desenhos. E o que ele tinha eram esboços, só esboços à mão livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de setembro de 2021.

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