quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Sem filtro

 

Sem filtro

 

Não há de ver que, de maneira imprevista e excêntrica, realizei uma jornada dentro da cidade que nem me ocorrera achá-la irreconhecível, uma vez nascida para mim faz mais de cinquenta anos.

Porque foi necessária a troca de uma vela quebrada, deu-se o que não estava na agenda. Como gostei de ter saído para comprar a peça que substituísse a contento a danificada, foi-me bem prazeroso. Assim, zanzando com esse objetivo, de fazer o filtro funcionar direito de novo, ao aprazível que me proporcionou o acaso juntou-se o ziguezague de gastar sapato por ruazinhas que julgava imorredouras.

Sem nacionalismos melancólicos e nostalgias patrióticas, andei por uma geografia sem os matinhos onde a bexiga descarregava urgências do garoto desesperado. Porém a visão desse menino desnorteado não digere esses edifícios gulosos que descarnam os ossos mais tenros da infância, agora à deriva além deste carneiro erguendo-se no padrão de fachada espelhada reforçando o esqueleto cinza pré-moldado.

Onde há retas, peço curvas. Tendo curvas, quero rosas, begônias, mimosas, petúnias, hortênsias, samambaias. No jardim florido, faça-se a festa, bem-vindas sejam as abelhas, formigas, borboletas, rolinhas, sabiás, aranhas e pererecas.

Em outras palavras, a minha imaginação quer-me abençoado pelas felicidades do singelo.

Se bem me lembro, não fui brasileiro de mão sincera sobre o brasão da pátria nas datas obrigatórias de canto afinado, ordeiro, das alegrias reprimidas. Também não fui paulista a marchar por uma Nove de Julho que nem constava nas calças-curtas das minhas andanças. Sabia das lavadeiras a uma centena de passos da cama em que nasci, por obra e graça de minha mãe e da parteira de sua confiança, na Rua da Bica, que não se ostentava um coronel sei-lá-das-quantas.

Isso de mostrar submissão a autoridades não me entra bem pelas entranhas da cachola, prefiro guardar distância dos carbonários.

Mas a fumaça entra pelas narinas, magoa os olhos, amarga a saliva e gruda na roupa, uma coisa medonha, ultrajante, criminosa.

Crime, entretanto, não vejo na idosa que abre o buraquinho na terra da pracinha, deitando serena a semente de outro amanhã.

O que não ouso dizer é que não tem coisa errada com ipês florindo antes da época, pois tem, sim.

Há mudanças que o sol escancara sem que os homens de notórios saberes tramem pretextos, floreiem estatísticas e façam de conta que gente é espécie boazinha pra caramba.

Não somos.

E não somos porque desembestamos a estudar, catalogar, calcular e projetar que árvores roguem por nosso socorro, de bicho atolado num telurismo tardio, de fanfarrão no fuzuê dos remorsos do arco-da-velha, e isso desde que o fogo passou a aquecer costas e a entortar pulmões com o achocolatado de cachimbadas neuróticas, ansiosas, diuturnas.

E isso dá um medo danado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de setembro de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário