Não
há de ver que, de maneira imprevista e excêntrica, realizei uma jornada dentro
da cidade que nem me ocorrera achá-la irreconhecível, uma vez nascida para mim faz
mais de cinquenta anos.
Porque
foi necessária a troca de uma vela quebrada, deu-se o que não estava na agenda.
Como gostei de ter saído para comprar a peça que substituísse a contento a
danificada, foi-me bem prazeroso. Assim, zanzando com esse objetivo, de fazer o
filtro funcionar direito de novo, ao aprazível que me proporcionou o acaso
juntou-se o ziguezague de gastar sapato por ruazinhas que julgava imorredouras.
Sem
nacionalismos melancólicos e nostalgias patrióticas, andei por uma geografia sem
os matinhos onde a bexiga descarregava urgências do garoto desesperado. Porém a
visão desse menino desnorteado não digere esses edifícios gulosos que descarnam
os ossos mais tenros da infância, agora à deriva além deste carneiro erguendo-se
no padrão de fachada espelhada reforçando o esqueleto cinza pré-moldado.
Onde
há retas, peço curvas. Tendo curvas, quero rosas, begônias, mimosas, petúnias,
hortênsias, samambaias. No jardim florido, faça-se a festa, bem-vindas sejam as
abelhas, formigas, borboletas, rolinhas, sabiás, aranhas e pererecas.
Em
outras palavras, a minha imaginação quer-me abençoado pelas felicidades do
singelo.
Se
bem me lembro, não fui brasileiro de mão sincera sobre o brasão da pátria nas
datas obrigatórias de canto afinado, ordeiro, das alegrias reprimidas. Também
não fui paulista a marchar por uma Nove de Julho que nem constava nas
calças-curtas das minhas andanças. Sabia das lavadeiras a uma centena de passos
da cama em que nasci, por obra e graça de minha mãe e da parteira de sua
confiança, na Rua da Bica, que não se ostentava um coronel sei-lá-das-quantas.
Isso
de mostrar submissão a autoridades não me entra bem pelas entranhas da cachola,
prefiro guardar distância dos carbonários.
Mas
a fumaça entra pelas narinas, magoa os olhos, amarga a saliva e gruda na roupa,
uma coisa medonha, ultrajante, criminosa.
Crime,
entretanto, não vejo na idosa que abre o buraquinho na terra da pracinha,
deitando serena a semente de outro amanhã.
O
que não ouso dizer é que não tem coisa errada com ipês florindo antes da época,
pois tem, sim.
Há
mudanças que o sol escancara sem que os homens de notórios saberes tramem pretextos,
floreiem estatísticas e façam de conta que gente é espécie boazinha pra caramba.
Não
somos.
E
não somos porque desembestamos a estudar, catalogar, calcular e projetar que
árvores roguem por nosso socorro, de bicho atolado num telurismo tardio, de
fanfarrão no fuzuê dos remorsos do arco-da-velha, e isso desde que o fogo
passou a aquecer costas e a entortar pulmões com o achocolatado de cachimbadas
neuróticas, ansiosas, diuturnas.
E
isso dá um medo danado.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 23 de setembro de 2021.
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