Sensação
esquisita não se explica, vive-se.
Sinto
muito se o que vou dizer causa incômodo, mas posso garantir que sigo racional
mesmo submetido ao estresse de uma tranquilidade prolongada.
E
por quê? Porque durmo bem, sem enfrentar baratas roedoras de plástico
madrugadas adentro. E meu cérebro descansado mantém-me sensato.
Sou
humano, um bicho dotado de razão. Basicamente, o meu dever é usá-la para
entender os sinais do mundo e, devidamente entendidos, fugir das mistificações.
Das pueris e das engenhosas, tanto faz, porque ambas apequenam a nossa espécie.
Não
sendo besta, carrego em mim os genes da cordialidade. É isso que me faz palpitar
sobre qualquer assunto. Mesmo que pouco tenha de útil a acrescentar, digo o que
mais me pareça lógico.
Procuro
não fugir à coerência de animal pensante. Afinal, sou gente que tem o dom da
palavra e não duvido disso.
Contudo,
não me entenda mal, não estou sendo arrogante nem me falta modéstia, porque falo
de peito aberto, com o coração sereno, em paz comigo mesmo.
Por
favor, deixe de frescura. Admita que a razão está do meu lado quando afirmo que
uma pessoa dotada de inteligência tem que agir de modo inteligente, ou não
ficaria nada bem diante dos outros.
Não
sendo como os outros, sei que você entende o que digo desde o começo ou não
teria me acompanhado até aqui.
Você
pode perguntar se o estresse da tranquilidade prolongada não provoca tédio.
Sim, pode acarretar um tédio boçal.
E
uma vida digna não merece ficar aprisionada na mesmice. Afinal, todo ser humano
razoável não deve causar nojo nem dó.
Todavia,
o que sinto ao viver fortes emoções? Eu vibro!
Chega
de vestir a carapuça de pessoa covarde, que leva desaforo para casa e acha que está
tudo certo quando tudo vai de mal a pior.
Beleza!
Preciso
agir, tomar vergonha na cara, fazer algo que realmente me impeça de continuar
cavando para ver onde fica o fundo do poço.
Tenho
a solução pra acabar com a chatice destes dias de calmaria. Sei como me livrar
do manto entediante do mundo que teima em abafar a alegria de viver com um
marasmo infinito.
Que
achado!
Só
preciso organizar uma feijoada do balacobaco.
Sim!
Quando
passo a correr atrás do que é preciso para ter uma feijoada porreta, a
adrenalina sacode de jeito o meu esqueleto enfastiado.
Serelepe,
à alma boa do açougueiro que me serve gentil peço paio, costelinha, linguiça,
focinho, língua, rabo, e o escambau a quatro.
Se
não tomasse a atitude de arregaçar as mangas para descascar o abacaxi
existencial que vem desandando o meu angu, a minha carne seguiria apagada,
abatida, sem viço, e mole, mole.
Independente
da sua opinião a favor do que eu penso, acredito que uma feijoada completa é um
bocado estimulante. Por isso, ponho gosto de que fico animado, renovado,
remoçado, tão logo abocanho o manjar que julgo fazer jus depois de todo o meu sufoco.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 05 de setembro de 2021.
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