domingo, 19 de setembro de 2021

Mãozinha amiga

 

Mãozinha amiga

 

Encontro um amigo, mas estou com pressa. A circunstância de não poder ouvi-lo deixa-me desconfortável, porque ele se faz cativante sem forçar a mão.

Tão dadivosa, pessoa que sempre encontra uma maneira de ajudar o próximo, mesmo que nem lhe tenham sido solicitados seus préstimos de atilado samaritano.

Indo a passos largos, porque há dois meses venho tentando acabar com a coceira brava na batata da perna, paro a contragosto. Sei que não devo transparecer o que se passa comigo.

E o que tenho feito?

Primeiro, fiz o óbvio: desprezei a sugestão de ir ao dermatologista, cuja peculiaridade encantaria ao meu lado fiel à prédica do diploma se não recorresse ao Doutor Google, que exerce o dom de responder de pronto como dar cabo de qualquer problema similar ao meu: aplicando o creme de bacitracina zíncica.

Cáspite! Já o nome científico desperta a aura do êxito.

Como não fico lamentando a minha dedicação a outro fiasco, tratei de escutar a cunhada benzedeira de uma vizinha taróloga: a ferida de fato cicatrizaria se esfregasse com buchinha vegetal, sabonete e muita água quente duas vezes ao dia.

Se eu dissesse que à lesão coube aceitar a derrota, estaria faltando com a verdade e, em época de sumarentos pés de frango, não convém desfazer de panelaços proverbiais que trovejam por milho e milhão.

Sendo história que não me seduzo contá-la, porquanto não subisse à pele a vontade de coçar-me, corrijo a gaiatice indolente pela sisudez de tolerante interessado.

Luisinho, meu ilustríssimo mestre grão-sábio, dá logo o diagnóstico: preciso de suas dicas pra superar a vergonha de não ter assunto.

Para quem parabenizar nascimentos ou lamentar passamentos por meio de versos revela uma simpática exibição de talento, o meu amigo põe-se a compartilhar a sua atenção.

Antes de apontar o que eu deveria fazer para dar variedade ao que tenho abordado ultimamente nas minhas crônicas, Luisinho alerta que não é um ergófobo folgado a menosprezar em mim o profissional que ama trabalhar, desdobrando-se para produzir algo agradável.

Confirmando sua magnanimidade, meu preocupado leitor nem quer cobrar um centavo pela solucionática que julga apropriada pra que eu extrapole a crise que me acorrenta às sombras da realidade.

Para não rir do mundo, rio para ele.

Que o cronista palpitante é aquele que zomba dos descaminhos de governo, porque os administradores insossos e os insensatos guardam semelhanças entre si. E cabe ao observador galhofeiro alimentar-se da orgia dos glutões que, da boca para fora, veneram o destempero falaz, o arremedo feraz e a fome feroz.

Depois da lição, honestamente, o que posso fazer?

Sem abraçar esta pessoa deveras sincera, agradeço-lhe a cortesia de suas ponderações tão pertinentes e vou aprender que ferimento em pele seca repele água quente, sabonete e unhadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2021.

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