Encontro
um amigo, mas estou com pressa. A circunstância de não poder ouvi-lo deixa-me
desconfortável, porque ele se faz cativante sem forçar a mão.
Tão
dadivosa, pessoa que sempre encontra uma maneira de ajudar o próximo, mesmo que
nem lhe tenham sido solicitados seus préstimos de atilado samaritano.
Indo
a passos largos, porque há dois meses venho tentando acabar com a coceira brava
na batata da perna, paro a contragosto. Sei que não devo transparecer o que se
passa comigo.
E
o que tenho feito?
Primeiro,
fiz o óbvio: desprezei a sugestão de ir ao dermatologista, cuja peculiaridade encantaria
ao meu lado fiel à prédica do diploma se não recorresse ao Doutor Google, que exerce
o dom de responder de pronto como dar cabo de qualquer problema similar ao meu:
aplicando o creme de bacitracina zíncica.
Cáspite!
Já o nome científico desperta a aura do êxito.
Como
não fico lamentando a minha dedicação a outro fiasco, tratei de escutar a
cunhada benzedeira de uma vizinha taróloga: a ferida de fato cicatrizaria se
esfregasse com buchinha vegetal, sabonete e muita água quente duas vezes ao dia.
Se
eu dissesse que à lesão coube aceitar a derrota, estaria faltando com a verdade
e, em época de sumarentos pés de frango, não convém desfazer de panelaços proverbiais
que trovejam por milho e milhão.
Sendo
história que não me seduzo contá-la, porquanto não subisse à pele a vontade de
coçar-me, corrijo a gaiatice indolente pela sisudez de tolerante interessado.
Luisinho,
meu ilustríssimo mestre grão-sábio, dá logo o diagnóstico: preciso de suas
dicas pra superar a vergonha de não ter assunto.
Para
quem parabenizar nascimentos ou lamentar passamentos por meio de versos revela
uma simpática exibição de talento, o meu amigo põe-se a compartilhar a sua
atenção.
Antes
de apontar o que eu deveria fazer para dar variedade ao que tenho abordado
ultimamente nas minhas crônicas, Luisinho alerta que não é um ergófobo folgado a
menosprezar em mim o profissional que ama trabalhar, desdobrando-se para produzir
algo agradável.
Confirmando
sua magnanimidade, meu preocupado leitor nem quer cobrar um centavo pela
solucionática que julga apropriada pra que eu extrapole a crise que me acorrenta
às sombras da realidade.
Para
não rir do mundo, rio para ele.
Que
o cronista palpitante é aquele que zomba dos descaminhos de governo, porque os administradores
insossos e os insensatos guardam semelhanças entre si. E cabe ao observador galhofeiro
alimentar-se da orgia dos glutões que, da boca para fora, veneram o destempero
falaz, o arremedo feraz e a fome feroz.
Depois
da lição, honestamente, o que posso fazer?
Sem
abraçar esta pessoa deveras sincera, agradeço-lhe a cortesia de suas
ponderações tão pertinentes e vou aprender que ferimento em pele seca repele
água quente, sabonete e unhadas.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 19 de setembro de 2021.
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