terça-feira, 7 de setembro de 2021

Agenda cheia

 

Agenda cheia

 

Feriado, hoje acordarei determinado. Não adiarei ainda mais o que já deveria ter feito. Mesmo que deixe de pensar claramente, palavra a palavra, que nunca se pode assegurar que o amanhã estará vigorando conforme às leis do tempo, despertarei de alma presente.

Abrirei os olhos com a disposição de quem sabe o que precisa fazer e lavarei o meu rosto sem ficar pesando o quanto a rotina prende. Não vou urinar comparando os gestos fisiologicamente necessários com as efetivas sutilezas irrepetíveis. Afinal, cada dia é novo, sendo outro.

De imediato, longe de filosofices: a água quente passará pelo pó e meus dentes morderão o pão, ainda que meu pensamento permaneça obstinado, concentrando-se na ideia de que terei tarefas a realizar.

Tendo em vista o provável azedume que virá à boca, tentarei refrear as ações deletérias das floras bucal e estomacal com uma escovação cientificamente responsável.

E subirei a escada com a mente atenta aos pássaros, pois pretendo ouvi-los sem que me possam distrair distinções entre a flora e a fauna, vírus e bactérias, o pé direito ou esquerdo no primeiro degrau.

Além da areia que o vento não para de trazer, vou tirar da calha do telhado da lavanderia o que houver de folhas, raminhos, penas e restos de fezes. Evitarei, contudo, condenar andorinhas, pardais e maritacas pela sujeira acumulada, obstáculo que dificultará a vazão da água das chuvas, e não o farei porque assumirei a culpa pelo descaso de meses.

Em vão, enquanto estiver fechando a boca do saco de lixo com um nó cego, debelarei o que sequer controlo, feito imaginar que a natureza materializa a substância chamada tempo.

E verificarei o estado dos ralos. Sem associar satisfação de trabalho realizado com firmeza de caráter, lavarei o quintal todinho, até aquelas rachaduras que costumam ficar imundas de um dia para outro.

Não descansarei, pois os vidros empoeirados seguirão pedindo por água e pano limpos. Vou limpá-los, antes que os cheiros da vizinhança convulsionem minha barriga.

Pois serão horas de tratar do que poderei comer.

Os meus dedos concentrar-se-ão em manipular alface, cebola, alho e tomate. As minhas mãos descascarão batatas e cenouras. E de olho no molho da salsicha, não salgarei a felicidade ao sentar-me à mesa.

Depois, e sem detença alguma, colarei a napa de sofá e poltronas onde for preciso.

Então, mesmo que a carcaça desse ser humano acabe cansada de tanta realidade por consertar, quando a mim não mais me desalentar ter esquecido de entregar o suor ao que preciso pra tornar este dia de fato memorável, só então, é que me sentarei talhado pelo bom bocado da esperança.

Agora, pra que me veja realmente livre da noite de sono, aguardarei que o horário programado do despertador acione o alarme pra que eu, ansiosa e preventivamente pragmático, deixe a cama tão quentinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2021.

 

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