quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Jabuticaba

 

Jabuticaba

 

Depressa, subi na árvore. Nem pensei duas vezes, subi de vez.

Quando nem percebo que fico repetindo que ninguém tem o direito de negar-me o desejo de ficar quieto, assim a mixórdia do mundo pega a tomar de mim o meu tempo.

Olha que tenho que ter tempo para continuar fazendo o que esgota e aborrece. Já indisposto, quero arrumar uma desculpa irrefutável para poder sumir no ar.

Quer melhor desculpa que não se dar ao luxo de desperdiçar o que nem se tem abundante? O escasso pede o apreço da moderação.

Pois, o acaso confiou-me a coragem para cair da cama.

Não estou brincando.

Com o chuveiro convocando a minha presença, os pés embalaram o balé vexatório. Com os meus digníssimos calhando de enroscarem-se no lençol, fui de cara ao chão.

Podendo rir dessa mágoa de bailarino desastrado, corri dedicar-me a algo melhor que passar o dia proclamando-me um azarado cambaio.

A realidade tinha sol, passarinho e um pretexto pro meu sumiço. E o quintal veio correndo abraçar a minha circunstância de pessoa doida para me afastar de azáfamas mundanas.

E veio com um leque de seduções. Com tantas abelhas namorando as flores? Que bom, não vou sair. Com tantos pardais surfando a brisa? Melhor vista não há.

Não sendo maluco que baba por morcegos bicadores de jabuticaba, vi os muros a sitiar-me em casa.

Para escalar a jabuticabeira, tomei impulso, saltei, fui sentar-me no galho onde o sol não me pegaria distraído. Não iria ficar suando nessa folga caída do céu. Queria muito ter paz. Queria comer jabuticaba.

As frutinhas não me faltaram, fartaram-me.

Sentado à sombra, entregue ao prazer, afeito ao ócio, sem olhares inquisidores, seria redundante dizer-me afortunado?

Comi o quanto quis, o quanto pude, comi gostoso.

Na calmaria da tarde, dispensei continuar nervoso. Nem liguei pros vizinhos nos terraços dos prédios que até poderiam estar de olho em mim, que me enfarei de jabuticaba.

Como Pão de Açúcar doce, doce, o panduio estufado perturbou o entendimento da nova situação.

Teria como descer num salto só ou iria desabar de costas?

Resisti à sensação de outra queda estúpida, tratei de assegurar-me um alpinista comedido. Como um ser racional controla o pé arisco que queira o imediato, tratei de fortalecer que o pé que dava base concreta ao galho permitiria uma descida menos abrupta, obtusa, ridícula.

Havia nuvens.

Viria chuva ou a comichão mordia nos neurônios a minha fraqueza por precipitações assoberbadas?

Avesso ao óbvio, topei ficar à espera da borrasca.

Sem me decidir, passaram-se outros cinco minutos. Que o temporal viesse logo. Os quinze minutos viraram várias horas. E nada de chover. Foram-se as nuvens. A lua e as estrelas tocaram um noturno sereno. Descansado, o poleiro nem me despejou pelo solo abaixo.

E nada houve afora o normal?

Só estranhei não ter sentido a mão que torceu o meu pescoço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de setembro de 2021.

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