Porta
portão
Ultimamente, faz um pouco mais de um ano,
ficar esperando que a porta tome coragem para abrir-se como um sorriso
desabrochando as suas pétalas de convivência solar é pedir muito.
Muito mesmo, já que uma falta (uma carência
que brota latejante; essa dificuldade intensa para lidar consigo como se fosse
uma pessoa sem perspectiva que não a felicidade) faz dela uma inconformada com
a tristeza reinante. Por isso, pede, sorrindo pede o que tanto adora.
Para que servem os aplicativos
descoladíssimos?
Não a queiram desmobilizada, afeita às
solidões acabrunhadas de quem vive para suplicar desavergonhadamente abraços
calorosos dos familiares, como se os houvera de fato desejado apaixonadamente em
pensamento.
O que sua mente insone tem produzido?
Admite, porque tem razão de sobra para
admitir-se conectada com o mais além do que a vista alcança, que dá ouvidos,
sim, à campainha do telefone, que toca esplendorosamente os seus avisos, uma
vez que gente amiga não se nega a abraçá-la à distância de um clique.
Sua boca de lábios carmesins sabe dizer
sim, e tem dito tantos.
E ela gosta de estimular respostas, que
o fluxo da vida alegra o seu coração oxigenado pelos relacionamentos múltiplos.
Fiel ao seu tempo, ela tem olhos
lépidos, habilitados a piscadelas, dando prova de estar atenta e forte, sem
medo de compartilhar-se.
Para seus três dedinhos de vodca uma mordida
de pizza, pois isso dá liga e agiliza a cachola, que sintoniza a noite de
sábado com o dia seguinte, voando logo pro almoço vindouro.
Claro, claro, puxa vida. Sua louca, que
anda tão confusa que quase deixa de lado o mais importante: combinar a hora
certa para começar a comer aquele frango assado regado à teleconversa informal.
Sem colocar em risco os demais como a si
mesmo, a positividade do mundo depende do alto-astral de cada qual.
Está bem, está certo, a honestidade é
que deve prevalecer.
Ela assume que não usa máscara dentro de
casa, nem para tomar banho nem para dormir. Prefere viver de alma lavada, como pessoinha
devidamente harmonizada por um ansiolítico porreta.
Que o insondável permaneça um mistério,
isso basta e conforta.
Se dá azar?
Quando a moringa solta umas neblinas
úmidas que grudam no céu da boca, bom é botar um Chet Baker para sussurrar aqueles
riachinhos que têm sol manso afinando as suas águas. Porque há sons que portas
não barram, nem borram.
Todavia, aquela porta sem olho mágico,
que se acha a principal, ela mesmo não passa de uma filha de uma...
Essa é a porta que descreve dores em
quem não sofre. É porta que dispensa angústias a quem não chora. Porta para pântanos
viscerais a quem não nega um gole d’água.
Musa prafrentex, sempre transando outros
transes, abriga a galinha da gema de ouro pelo portão adentro, que, no fundo, jamais
há de estar fechada com o sumo cabidela das pérolas das ostras do desgosto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de junho de 2021.