Aplaudindo,
mas apenas depois de reaberta a cortina, uma vez que a trupe saiu de cena
assim que a história acabara de ser contada. Sim, do começo ao fim, o fio da
meada não foi cortado nem enrolado. Afinal, era história conhecida, por isso querer
dar voltas ou pular algum trecho seria errar o tom. Não, da cortina aberta até
a cortina fechada, o rumo bem ensaiado foi seguido à risca pelo pessoal: bravo!
Conforme
todo mundo sabe, uma das regras não escritas da nossa sociedade fala que uma
criança, qualquer criança que esteja cativada em sua inocência, é esperta o suficiente
para chiar no exato momento em que cortes ou mudanças interfiram no andamento do
aguardado.
A
criançada não deixa por menos e cobra fidelidade ao já trilhado, portanto não convém
querer inventar. Sim, insistir em enfiar novidades em algo mais do que testado
pode muito bem magoar a audiência.
Decepcionada,
mais e mais entristecida ao testemunhar surpresas que soam como ruído frustrante,
a meninada olha, pede que seu olhar seja compreendido, comunica a perda do
entusiasmo e suplica que o seu aborrecimento tenha o valor de uma bruta vaia.
Não
alimente falsas esperanças, pois meninas e meninos educados pelo respeito à
estupidez de terceiros não são de ficar resmungando, apupando, atirando tomates,
botando para correr estrelas que julgam caídas em desgraça. Sem dar bobeira, elas
e eles abrem o berreiro.
Viva!
Que os astros condenados sumam no abismo.
A
questão não é pedir reembolso; o ponto é simples: voltem e façam direito o que
tinha de ser feito direito. Ora essa, se a coisa está errada, é muito simples:
basta começar de novo, mas recomeçar sabendo que o certo de uma história bem
contada é mantê-la igual a si mesma.
Entretanto,
os benditos foram salvos e punidos os malditos:
ꟷ
Bravíssimo!
Aplaudindo
protocolarmente o elenco de apoio.
Aplaudindo,
assoviando e batendo os pés nas tábuas da plateia, quando um a um dos
personagens que tinham nome inclinavam-se em respeito ao afago do público.
Aplaudindo,
soltando pequenos gritos, saltitando na arquibancada, isso porque, magnética,
sol magistral a capturar com os mil tentáculos da sua visão, avançou a
Chapeuzinho.
Que
maravilha!
Feliz
da vida com o espetáculo que não enganou ninguém, montou na bicicleta sem
rodinhas e, quando ia tomando a direção de casa, uma bicicleta com cestinha
junto ao guidão barrou-lhe o caminho.
Sem
aquele macacão de pelos ensebados, sem aquele focinho de dentes assustadores, só
que ainda exibindo a maquiagem escura ao redor dos olhos, era o Lobo.
A
voz... A voz era mesmo a do monstro.
E
viera falar com ele. Logo com quem nem tinha reparado que a fera da
apresentação tão bacana o tinha visto no meio de toda gente.
Caraca,
o rapazinho dos seus onze para doze anos nem se lembrou de que tinha língua ao
ser presenteado com um belíssimo beijo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de maio de 2021.