A
tarde transcorria quase tediosa; quase, porque ficaria sendo, não fosse a
delícia de chupar laranja, daquelas bem doces, uma lima.
A
doçura da fruta era tanta que nem carecia pensar nisso, seria uma desfeita, pois
o bom era se entregar ao agradável de desfrutar do sumo daqueles gomos sem
projetar algum senão.
Era
mesmo docinha, mas tão docinha, que parecia que tinha sido adoçada com mel.
Isto,
aliás, é uma adição redundante, um adendo dispensável, sem relação alguma com a
realidade da fruta em sua essência.
Assim,
a mente juntava o prazer do sossego com a vagareza de ir chupando a tal
preciosidade. E a boca se enchia de água, de tanto que deleitava poder usufruir
aquilo sem aflição alguma.
Todavia,
como gato não sabe chupar laranja nem dá a mínima para pessoa que gosta de
apreciar algo bom sem interrupção, veio a gatinha miar sem dó.
Olhando
para o trinco da porta, miava. E não parava.
Era
um bicho que miava. Era um ser determinado que dava a ver o que tinha em mente
através do miado.
O
que estaria dizendo?
Com
o olhar fixo no alto, a danada pedia que a chave fosse virada, a lingueta da
trava, recolhida, e a folha da porta admitisse passagem.
Portanto,
o miado não pedia que tudo isso fosse executado de uma vez por todas; miando, o
insistente e pequenino animal exigia.
Que
abrissem a porta. Viessem abri-la. E ela teria de ser aberta.
Contudo,
aquela laranja, sem nada de ácida, nem um pouco azeda, merecia uma degustação
tranquila, gomo a gomo, como uma flor que se abre lentamente, pétala a pétala,
liberando um perfume aprazível, e que encanta, seduz, faz a gente respirar com
serenidade.
Quando
o odor maravilha, atrai e cativa, a gente não abusa?
Ele
estava bastante incomodado. E sabia como bancar o chato.
Para
não desperdiçar sequer uma gota daquele néctar sem igual, lambia os dedos com a
maior calma do mundo.
A
gata que miasse até ir-se dali para brincar com uma bolinha de papel, que
muitas pelotas estavam espalhadas pela casa.
E
fosse logo.
Afinal,
a sua cara, que tinha papilas que bem conheciam o quanto de açúcar o suculento pomo
oferecia ao paladar, queria silêncio.
Pela
inteireza da gustação desse fruto tão magnânimo, somente as sementes deveriam
acabar no lixo. Sem fiapos do bagaço.
Sim,
o bagaço. Que tinha que ser macerado, dilacerado e triturado com a convicção de
quem age com gosto, ciente de estar vivendo um prazer que não tem como ser dito
sem parecer fútil ou ridículo.
Qualquer
tentativa de traduzir o sentimento de estar gozando o que se faz enquanto se
está fazendo resulta em singela estultice.
Nesse
caso, no instante de tão mansa fruição, a boca queria mais era mastigar trinta,
trinta e uma, trinta e duas.
Todavia,
gato algum mia por inércia.
Então,
já tendo metade da laranja sido saboreada soberanamente, a porta foi aberta; que
a gatinha continuasse a miar, mas lá fora.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 27 de maio de 2021.