A
beleza do fogo
Preciso tirar uma folga para pensar no
que ando fazendo comigo. O alarme soou domingo passado, logo à entrada do
supermercado.
Eu estava torto, carregado daquelas sacolas
todas.
A cabeça concentrada no almoço que teria
de preparar, posto que conservo o costume de comer, regularmente e sem frescura;
menos quando tem beringela, que só o cheiro já me deixa mareado.
Talvez a cabeça não esteja mesmo
funcionando muito bem, pois, ao ouvir o homem pedir fogo, gelei de cabo a rabo.
Fiquei no ar um instante, que nem sei
quanto tempo durou, porque peguei viajar pela primeira nuvem que veio a calhar.
Boiando o susto, comecei com uma
fogueira de São João, só que tinha alguma coisa esquisita com a figura, já que
imediatamente intuí que era outra era,
no céu o cometa Halley negava fosse junho; tinha a luneta caçando a cauda daquele
ser ꟷ ser ou coisa ou objeto, a indefinição me levou a dilatar o universo além
do embaraço; e nada disso, por sinal, deveria estar perfilando a sua sombra nesta
história, ainda mais às onze e pouco deste carnaval suspenso, a muitos anos daquela
cósmica passagem.
Com
o piloto automático fazendo água, reagi como quem recusa o papel de vilão e,
para não morder a própria boca, surfei o sorriso.
Convém
a desculpa de que ninguém que surja abrupto de algum silenciamento miserável
deixe de passar a impressão de um iminente choque obsceno.
Quando vi que empaquei, pelejei pela
calma.
Focaria no almoço de logo mais. Poderia a
franqueza das pessoas que fogem do cinismo. Destacaria que a sua necessidade de
fogo era mesmo fundamental.
E dizer que fumar faz mal? Que é bom
deixar o vício? Que gente boa não gasta dinheiro com o veneno que vicia,
empobrece e tutela o fumante pelo medo da abstinência?
Que bacana. Mas quem tem saúde que a
estrague.
Sim, a bílis tóxica, confesso pedindo
perdão, reinava em mim, nas minhas inações de perplexo em displicência.
Era óbvio que precisava repousar, não
ficar imóvel.
Como sou quem precisa escapulir das
distrações ou as tentações vencem, descansaria se fosse pescar.
Mas, com o sol rachando a cachola, o melhor
seria ficar enchendo a cara, ficar chumbado de cerveja, correndo urinar para
dar conforto à bexiga e espaço aos processos orgânicos a regular o humor.
Transbordando intimidades com a justiça:
não dá pé cair na rua.
Então é assim?
Então, meio ensandecido, meio sedutor de
sereias engraçadinhas, feito poeta a pisar o espelho líquido com o qual a maré replica
o azul do céu sobre a areia de uma realidade profilaticamente verídica, mas nem
isso ateia fogo ao meu olhar de humanista mesmerizado.
Que beleza!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2021.