quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A beleza do fogo

 

A beleza do fogo

 

Preciso tirar uma folga para pensar no que ando fazendo comigo. O alarme soou domingo passado, logo à entrada do supermercado.

Eu estava torto, carregado daquelas sacolas todas.

A cabeça concentrada no almoço que teria de preparar, posto que conservo o costume de comer, regularmente e sem frescura; menos quando tem beringela, que só o cheiro já me deixa mareado.

Talvez a cabeça não esteja mesmo funcionando muito bem, pois, ao ouvir o homem pedir fogo, gelei de cabo a rabo.

Fiquei no ar um instante, que nem sei quanto tempo durou, porque peguei viajar pela primeira nuvem que veio a calhar.

Boiando o susto, comecei com uma fogueira de São João, só que tinha alguma coisa esquisita com a figura, já que imediatamente intuí que era outra era, no céu o cometa Halley negava fosse junho; tinha a luneta caçando a cauda daquele ser ꟷ ser ou coisa ou objeto, a indefinição me levou a dilatar o universo além do embaraço; e nada disso, por sinal, deveria estar perfilando a sua sombra nesta história, ainda mais às onze e pouco deste carnaval suspenso, a muitos anos daquela cósmica passagem.

Apesar da pinta de brucutu, quis manter a simpatia. Contrariando certo pragmatismo urbano, ostensivamente insensível, optei o recato de agir como cidadão cordato que transmite ao corpo um tom menos hostil. Cara de pau, mas sorridente.

Com o piloto automático fazendo água, reagi como quem recusa o papel de vilão e, para não morder a própria boca, surfei o sorriso.

Convém a desculpa de que ninguém que surja abrupto de algum silenciamento miserável deixe de passar a impressão de um iminente choque obsceno.

Quando vi que empaquei, pelejei pela calma.

Focaria no almoço de logo mais. Poderia a franqueza das pessoas que fogem do cinismo. Destacaria que a sua necessidade de fogo era mesmo fundamental.

E dizer que fumar faz mal? Que é bom deixar o vício? Que gente boa não gasta dinheiro com o veneno que vicia, empobrece e tutela o fumante pelo medo da abstinência?

Que bacana. Mas quem tem saúde que a estrague.

Sim, a bílis tóxica, confesso pedindo perdão, reinava em mim, nas minhas inações de perplexo em displicência.

Era óbvio que precisava repousar, não ficar imóvel.

Como sou quem precisa escapulir das distrações ou as tentações vencem, descansaria se fosse pescar.

Mas, com o sol rachando a cachola, o melhor seria ficar enchendo a cara, ficar chumbado de cerveja, correndo urinar para dar conforto à bexiga e espaço aos processos orgânicos a regular o humor.

Transbordando intimidades com a justiça: não dá pé cair na rua.

Então é assim?

Então, meio ensandecido, meio sedutor de sereias engraçadinhas, feito poeta a pisar o espelho líquido com o qual a maré replica o azul do céu sobre a areia de uma realidade profilaticamente verídica, mas nem isso ateia fogo ao meu olhar de humanista mesmerizado.

Que beleza!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Só um café

 

Só um café

 

Como farpa, o sono permanece cutucando, íntimo, feito dente que dói quando em contato com água gelada, arrepia, e provoca tamanho incômodo.

Assim incomodado, sentindo-me boneco que derrete pela vibração da cera, percebo a bobagem do sentimento. Ou melhor, noto a tolice de imaginar-me coisa fabricada, reproduzida em série nos intestinos de uma fábrica, e salgo a boca.

Quero crer que me fabrico por meu engenho e empenho, não para correr mundo dando lucro porque descartável. Irrita-me pensar a mim mesmo como um brinquedo efêmero.

Ranzinza, não me contenta o fútil.

É bom tirar os braços de cima da mesa. É bom mesmo dar conta do café posto. Não adianta ficar retraído, a dar a manhã por perdida.

Se o pacote está no fim, vou comprar a bolacha de água, só água mesmo; nada de água e sal, que a deste tipo enerva-me de tão seca.

Explico-me.

Posso argumentar que vejo a mulher da minha vida deitada numa esteira na Praia do Futuro, sob o sol majestoso, que bronzeia rápido, sem precisar ficar questionando sua força, a sua potência, no abril de seu esplendor às três da tarde.

Bem, se aí pusesse os meus olhos a perfumar as suas coxas com ambição, salivaria indiscreto, a resgatar os perfumes da sua boca.

Tocado pela ternura, quero o café sem frustração, e bebo só.

Engasgo.

Viro outro tanto do café, o que destranca a garganta. Nem sei por que fico repetindo “riscar seu nome na areia com o pé”; sei, Miçanga é música boa de ouvir, porém veio feito pedra no bocado da reflexão.

Abro o jornal.

Leio porque preciso, porque muito me instrui, bem me alerta, faz o bastante para que eu pense melhor, com a calma dos ponderados e com aquela raiva que remove entulhos. Leio, porque é lendo que não mascaro as minhas ignorâncias quanto à variação do euro e ao valor nutritivo da fatia de pão integral mastigada por mim. Leio, embora a porta trepide quando os carros passam sobre buracos.

Fico amargo, azedo, e largo tudo. Tudo? Só o celular.

Não vou negar o privilégio de viver ajustado, mas trabalho para ter direito a salário que me permite pagar a comida que quero na mesa, ter chuveiro quente no frio de lascar de julho e garantir a ida rápida ao serviço no assento de minha preferência.

Distraído, o meu olhar traça planos.

De tesoura em punho, cortaria imagens coloridas, juntaria, colaria de novo. As minhas colagens de homem cinza tirariam do esboço o canto adormecido.

Bebo com gosto.

E olho a mesa posta, que pus, que a grana da semana me deixou ter à disposição de minhas angústias, infelicidades, tantos malogros.

Sem açúcar, já faz anos, não encaro a vida de outro jeito.

Sim, gosto de café.

Tenho pão de muitos grãos e tenho o pó extraforte das Gerais.

Tenho a melancolia dos sozinhos, uma vez que a borra desenha a amada a sorrir da parte ensolarada da praça, onde jorra café.

E peço mais o quê?

Quente ou frio, possa o sabor dos meus afetos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2021.

 

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Copo a copo

 

Copo a copo

 

Entre apressadas e lentas, assim se dividem as pessoas.

Sem demonstrar o entusiasmo que sentia provocado por ideia tão rotunda, levemente tocado pela certeza de que o poço desceria esse trago a mais, porque o sábio era explorador de pensamentos ácidos, corrosivamente tóxicos, salivares, então bebi outro gole.

Quem corre atrás do prejuízo está certo de que não deve assumir o peso da consciência, ainda que a lassidão faça demorar mais um segundo até unir o lastro da sombra improdutiva ao corpo ocioso.

Fui enchendo os copos, seguimos bebendo. Pensei ter ouvido que o mundo, pela baba deixada pelo sugador de gargalo, estaria dividido entre empregados e desempregados, mas eu também já estava bem bonzinho para ter compreensões econômicas.

Econômicas: de economia, não é por economia; antes a pecha de lento que a de leviano, caso os estressados peçam clareza.

Poderia ter acrescentado que a segregação passa pelo patrimônio gordo disfarçado em finérrima digital abonada pelo código binário, de zero e um, que satisfaz mercados que financiam seus mercadores.

Poderia, mas continuei passivo na jogada. Sem blefar nem dar de barato que os dados estavam na mesa, descartados como simpáticos a vigaristas que veneram santos mortos de sede, segurei o zap.

Não tenho pressa de chegar ao poço como se pote fosse, de barro ou de pau, fosse o que fosse, até um cântaro de água doce, tão doce que penso em barril ou tonel, jamais em odre ou cantil.

Minha cantilena sabe o que é preciso ser feito para que a garganta seja saciada. Não me basta querer água, tenho que ir atrás do copo, abrir a torneira ꟷ da pia, se potável; do filtro, por precaução; do galão, se o bolso tem fundo. Há prazer molhar o bico assim?

Com cerveja, calei a boca, dobrei a língua e amansei a mente.

Nem bêbado vou impedir quem faz questão de ocupar o centro da roda, embora pareça de uma pobreza espiritual achar que a luta entre nababescos e famélicos precise de árbitros imparciais, centrados pelo razoável da esperança.

Diante de indivíduo tão autêntico, sequei num gole o que me cabia da garrafa servida entre usuais degustadores de conversa mole.

Já alegrinho pelo simpósio ao balcão do pé-sujo, deixei de rodeio quando vi na TV a sonda da NASA soltando um drone em Marte.

Ora, era hora de jogar limpo, sem cartas na manga. Aquilo não era conquista da humanidade. Os bastardos abastados que parassem de dar-se posse do planeta todinho.

Como era de trucar, ele trucou.

Elogiou a minha boa vontade em ajustar a realidade ao meu juízo; realçou que nunca me achou um retardado, só um tanto retardatário quanto aos assuntos mais quentes. Brindou, como se fosse minha a ideia de que as moças iriam mesmo segurar os telespectadores com uns coloridos boletins meteorológicos de Lua, Terra e Marte.

Com o GPS apontando um deserto pela frente, quis nova rodada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2021.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A voz da vez

 

A voz da vez

 

Tolo o bastante para me acreditar imune aos desencantos de um mundo sem mistérios, busco estabelecer conexões lógicas ainda que a mente siga distraída.

Fácil, fácil, me distraio.

São ímãs potentes as pepitas que reluzem nos veios da memória sem que me caiba o esforço de prospectá-las além do brilho.

Inevitável, como o primeiro sutiã nas minhas retinas preservadas, acho bom dizer que negócio ter alma é propaganda.

Se entro de gaiato?

Preciso lembrar que nunca usei sutiã. Sim, desconfio de mim sem a convicção dos incrédulos profissionais. Não que isso de ter dúvidas me proteja das instabilidades da vida. Todavia, posso ao menos me concentrar.

Por exemplo, vendo na TV um filminho bom, com roteiro coerente e atores convincentes, procuro manter os olhos na história contada e, concomitantemente, trato de não morder com força um piruá.

Poxa, se não quero ter um dente quebrado por displicência minha, também não vou gostar muito de perder algum detalhe importante.

Se desejo, pago pelo que desejo. Ora essa.

Sei bem que não faz parte do pacote. Afinal, viver não tem roteiro, embora existam momentos que mereçam visitas monitoradas, porque recomendadas ou obrigatórias.

Zás! Transbordam os rios Tarauacá, Enviara, Iaco e Acre.

Zás! Pela fronteira, haitianos irrompem Peru adentro.

Puxa vida. Quando poderia estar ligado na corrente que me toma, já sinto brotar uma lágrima num dos olhos, enquanto sigo espiando a Fernanda Montenegro, de costas pra mim que a observo, dar rosto ao tom laranja daquele texto, “a esperança não existe sem você”.

Pois é, minha credibilidade de aço inoxidável como cidadão crítico vai por água abaixo assim que a areia que me constitui esse humano inflexível é lambida pela maré da renovação fraternalmente cósmica.

Minha cabeça faz confundir agora com quase ontem, esse passo atrás. Então, o quê? Poderia ter dado, mesmo, maior atenção ao ato? Com ou sem explicação, nada justifica uma besteira feita? E o cálculo torto tem jeito? Nem de bobeira a foice me escapa.

Zás! A mão não larga a Marielle da placa.

Zás! Por vacina, fazem fila em Serrana.

Na correria do mundo, não prendo a respiração, por isso mergulho de cabeça. E respiro, ainda respiro, pois ponho dormir o cérebro que filtra os seios, os sutiãs, as ideias de proteção, de amamentação.

Ladeira acima, ladeira abaixo.

E a primeira vez num ônibus sem cobrador? Já foi.

A primeira vez num ônibus sem motorista? Está chegando.

Não adianta nada, trem imperfeito, tirar atraso na banguela.

Oxe.

Sem nenhuma ironia, agora que estão tentando amordaçá-lo com a prisão, digo que esta não será a última vez que penso e digo umas palavrinhas sobre o direito de uma pessoa poder pensar e dizer o que queira, e da forma que queira, por isso aproveito esta vez única para dizer que nunca antes tinha ouvido o seu nome, Pablo Hasél.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vacinada

 

Vacinada

 

Para muita gente, a realidade arisca gosta de fugir de quem a leva por demais a sério, esse pessoal que fica achando que joga caça ao rato, feito gato, é claro. Mas, por falta de uma perspectiva mais lúdica, nem percebe que está mesmo é num cerca-galinha endiabrado, com o bicho sempre frustrando por último.

Galináceos não comem apenas minhoca, e ideias não são assim tão sedutoras que sosseguem quem vive bicando onde pisa, atrás de informações que virem notícia, como se isso fosse milho na pança.

Ora, raposa tomando conta de galinheiro é chover no molhado, faz bocejar. Agora, galinha comandando raposeiro, isso faz pensar quem nem se dá conta da encrenca, fora o calafrio em quem vê lura e covil na velha raposeira que dicionário atesta existir.

Sim, imagine a coisa toda: a galinha faz a raposa ir comprar prego e madeira, exigindo nota fiscal e troco; a raposa pede à galinha que a faça ir dormir quando a coruja piar; a coruja fica de olhos arregalados vendo a cena do alto, empoleirada no cata-vento que gira anunciando tempestade à vista. Nem é preciso lembrar que galinha tem um medo danado de água, até de chuvisqueiro manso como galeto no espeto.

Metáforas?

O João Cabral pôs um poema a dizer: não há guarda-chuva contra o mundo, cada dia devorado nos jornais, sob as espécies de papel e tinta.

À parte a imaginação...

Sim, o mundo está lá fora, fluindo, tocando suas águas, indiferente à fogueirinha ardendo na cabeça. Longe do fumaceiro que vai indo, e vai subindo, até acabar disperso em algum lugar ali mesmo, dentro.

Este mundo não para, flui, entre uma ideia ainda não assimilada, como as escolas de portas reabertas, e uma certeza jamais posta à prova, de que estudantes têm mais o que fazer do que ficar evitando contato no pega-pega do recreio.

À vera, com quanto fubá se faz uma bela polenta?

Por uma vida cotidiana, outra vez ordinária, sem maiores atrativos que não sejam os goles da prosa fácil nem sempre dócil nos botecos e as paradas banais quase mesmo singelas nas esquinas, à porta do posto de saúde, naquela fila, estou com mamãe; e porque a conheço, percebo que ela apressa respirar o ar das ruas que a renova.

Esperançosa, falando mais do que o costumeiro, sua voz abafada pelo pano da máscara, sua mão assegurando-se da minha, a patente emoção apoderando-se do olho que lê o mundo com a leveza vivaz de suas pupilas positivamente nervosas.

Preenchida a ficha; comprovados os dados; escolhido o braço; é a sua vez, mamãe: de tremer um pouco com o tamanho da agulha, de sentir suportável a picada, de perguntar qual laboratório fez o bendito remédio, de questionar a data da segunda dose, de recuperar a velha verve que fervilha novamente, de ir-se embora pisando o chão tantas vezes interditado.

Na bandeja, a vacina visivelmente próxima...

Evoé!

Mamãe sorrindo vacinada, além de icônica, é bonita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2021.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Doce garfada macarronada afora

 

Doce garfada macarronada afora

 

Você, se posso a intimidade, ponho gosto que puxe o fio que lhe é oferecido e ponha gosto também gozar do quitute, que este fio a você apresentado leva no sabor o gostoso das coisas graciosas. Embora, na aparência e substância, não passe de macarrão, este, entretanto, fio que seja um ótimo manjar caseiro. Parecer isento e justo, porque a mim me julgo apreciador modestamente equilibrado, postado à mesa; alguém que aprova o que afirma, ressaltando no prato a sua condição inigualável, pelo frescor, de pasto feito para o consumo imediato.

Venha, amiga. Mas não faça como o primeiro filho que irá chegar, certo de que, apesar das bochechas rosadas, a bala de menta terá o poder mágico de enganar o nariz de todo mundo, tornando primaveril o cheiro de uísque. Amiga, por favor, em caso de habitual pilequinho a emaranhar o estômago, não fique pincelando com tomilho o frango assando numa pegada que não a sua. Mesmo que seja para torrar a paciência, venha.

Venha, amigo. Só que evite ficar pigarreando para encobrir arroto de bêbado que insiste em mais um golinho de cerveja. De todo modo, fica feio agarrar o batente da porta, encanado com essa ventania que ninguém sente. Aliás, ainda que o banheiro esteja livre, dando tempo de chamar o hugo mais de uma vez, pega mal dizer que não deveria ter tomado o remédio da sinusite.

Venham, amiga e amigo, mas venham para comer. Sem apelar a sorrisinhos de pessoas que se acham críticas o bastante para acusar, sem o espelho do autoexame. Você sabe muito bem, por experiência própria, que álcool é bom demais da conta, só que dar esculacho por tirar as travas de outrem também é.

Será tentação provar caipirinha com siso?

Contudo, é preciso dar no pé para manter o atraso de sempre.

Vamos, amorosamente recapitulemos essa jornada: no jogo bruto da sobrevivência, a macarronada do domingo começa no sábado.

E tem começo quando os telefonemas são dados com a cobrança maternal, com a severidade da autoridade provecta, como senhora do bordado sobre o riscado. Sobretudo, atenção, porque telefonemas de mãe sempre devem ser encerrados com aquele "sim, senhora”, que a obediência singela tanto recomenda.

Sugestão assim, com tal cordialidade indiscutível, lembra-nos que a luta a favor da vida pode ser bastante divertida, convém que venha, então, a macarronada fraternalmente apetecível.

Ter gente chupando o dedo a contraria, ela age:

Seja bem-vinda. Seja bem-vindo.

Que os convidados conformados à circunstância, possam o riso, o abraço, o garfo farto, a emoção da lágrima feliz, as alegrias da família reunida, que o amor pede, exige, acolhe, e reparte entre iguais.

No fim da linha, minha amargura não se apraz apartando panelas raspadas das limpas. Todavia, comigo incomodado, digo que panduio cheio bem se assemelha à comorbidade adquirida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pipoca

 

Pipoca

 

Pipoca!

Ouvindo, você dispara que é nome de cachorro sapeca, serelepe, que não para quieto, vive fazendo arte, dando trabalho o dia todo.

Nem cão nem macho, Pipoca é gata.

Pipoca!

Aqui, em vez de palavrão, é o nome da dita cuja, da espoleta que vai passando feito furacão, tirando da sua mente, de quem lê, o lugar comum que diz que gato, mas gato mesmo, é enigmático, ser repleto de mistérios, uma esfinge, não um reles quadrúpede miador passível de pulgas.

Pipoca!

Você perde as estribeiras e grita, porque imagina útil quando a dor não diminui nem mesmo massageando o joelho depois de dar aquela baita batida no estrado da bendita cama.

Como, gatos têm classe para portar-se como deus egípcio?

Menos a Pipoca, que traz alegria moderada a quem conta com a melancolia de uma tardezinha açucaradamente bucólica e faz irritado à beça quem já espera o vendaval mas erra o nível de periculosidade.

Ou seja, a gata tem muito de fofa, e muito, muito, de travessa.

Pipoca!

A própria, ela que vem e que passa, num adorável auê, de apuro em apuro, deixando o seu rastro, até que o cansaço a derrube, afinal miados, saltos e sustos pedem baterias trincando, poxa.

Pinta uma quietude... Cadê?

Como não calça tênis, está roendo os cadarços.

De novo? Quando a fome aperta, está miando por ração.

A danada nem liga pra sol ou chuva, ela sabe miar, e capricha.

Haja guarda-roupa protetor quando troveja, dá sumiço.

Quando o bicho age ansiosamente por curiosidade, a sua pieguice enxerga traquinagem de animalzinho... elétrico, feito molecão.

De fato, pueril mesmo é você ficar vidrado, para lá e para cá, com a câmera do celular acompanhando a gatinha maravilhosa que não para de fazer coisas do além, gente.

Com tão ardorosa dedicação, cuidado não ter um troço.

Relaxe um pouco. Cidadãos onipresentes também defecam. Aliás, usufruindo-se dessa prosaica obrigatoriedade de excretar as massas alimentares produtivamente digeridas, realize com louvor outra tarefa, a de cadastrar-se com folga na fila da vacina.

Entenda, não é fácil viver o tempo todo numa montanha-russa.

Sem pegar pesado, note, você está se saindo bem, entregue aos negócios normais, até que reconhece não serem bigodes as patinhas mexendo na boca da bichana.

Pipoca!

Francamente, topada de testa na pia dói para cacete, todavia isso não autoriza ninguém a soltar o monstro moral que desperdiça água potável dando descarga exclusiva à barata mortinha da silva, caraca.

Pipoca aqui? Ali. Pipoca ali? Aqui.

Por um momentâneo lapso da imaginação, deixe que a Pipoca lhe passe aquela sensação natural de estar agindo como a gata que ela é, sem a responsabilidade de manter a caixinha de areia em ordem.

Dialeticamente fraterno, faça pulsar curtições leves nas veias, não só o veneno ferino que corrói as entranhas.

Ê Pipoca que não pipoca quando pipoca amor, numa boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Bola em jogo

 

Bola em jogo

 

De algum modo indisposto, talvez abalado pela segunda-feira que está à espreita, movendo o que não sabe dizer o que seja, o mané, com cara de bocó comendo mocotó, conforme lhe sugere o opaco da tela do micro ainda desligado, parece cansado de viver num palco, apropriado às estripulias bisonhamente paródicas, contudo o espelho só serve mesmo para espalhar os espetáculos de si.

A verdade, na verdade, é vaidade, só a vaidade, nada mais que a vaidade, pois, realmente, o resto é realidade.

Puxa, eu mereço. Levemente, desvio o olhar fechando os olhos.

Pois é, tenho por costume querer o mundo explicado, aliás muito bem explicadinho, assim, exagerado que sou, entro por aquela porta, que é a constatação de que as minhas vontades são pífias perante o caos do acaso, e saio por esta: interpreto-me quando tento interpretar a realidade.

E interpreto mal, de mal a pior. Perdendo pelo riso a seriedade do patético, eis-me um pacóvio tagarela, e canastrão por caras e bocas.

Se minha mente está empacada no escuro da obscuridade, vou às compras, deixando que a lista da vida me leve pela mão.

De repente? O semáforo inesperado no meio do meu trajeto.

Cidadezinha pacata, de rua que sobe e a que desce, ter sinaleiro controlando o trânsito é demonstração de modernidade.

Do farol, alguém grita meu nome, inteiro; paro, e vejo que é gente amiga, um parceiro velho de escola, pessoa que ajudava a entender quando usar a tal Máscara de Bhaskara.

Está num carro potente, grandão, um cheio de portas, com espaço para família toda, inclusive sogra, porque é cidadão que não esconde ter sogra própria.

Como não ligo pra isso, aceno de volta.

Tocado pelo reconhecimento em plena rua de minha cidade natal?

Já perdido, com ideias em disparada, entro no supermercado.

Tentando organizar a cabeça, sigo funcionalmente cortês a quem me cumprimenta. Querendo arrumar os pensamentos, concordo que os preços estão uma barbaridade.

Mas, seu Rodrigues.

Todavia, dou de frente com o dono do possante lá do sinal.

E ele reclama do preço da lasanha, condena a politicagem que só atrapalha o Planalto, e, timidamente, desculpa-se pelo LP que jamais foi devolvido.

Que disco? Ora essa, o Disco da Vaca do Pink Floyd.

Que coisa. Nem me lembrava do adolescente que vivia para ouvir rock, os dignos representantes do rock europeu, do rock progressivo inglês, do Pink Floyd do Syd Barrett ao Genesis do Peter Gabriel.

Caraca, ocorre-me agora: serão daltônicas as vacas?

Nem sei quando a memória pisca o alerta, então, digo que o verde é para tocar adiante; o amarelo é pra tirar o pé do freio; no vermelho, desembesto de vez.

E vem um eco do meu passado me atropelando sem dó. E tromba comigo numa pinguela, atrás do campinho, onde minhas bolas viviam caindo.

Como até o coração joga comigo, peguei pavor aos pântanos.

Alto lá! Sim, senhor, isso já foi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2021.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Falatório completo

 

Falatório completo

 

Com saudades da minha saúde mais sólida, estava lá, sentado ao balcão naquela espelunca famigeradíssima pela fauna de beberrões profissionais. Como contestador resiliente, eu bebia suco de abacaxi e petiscava uma farta travessa de queijo branco, o tal "minas".

Comia naturalmente apreensivo, olhando nervoso a TV com todas aquelas suas notoriedades bem falantes, dadas ao entendimento das tramas deste formigueiro tão assediado por cigarras.

Temia entender errado o que se noticiava, digo, temia embaralhar o que era dito como notícia de um distante mundo de tramoias, e isso me aborrecia. Estava assim, meio grogue, enfarado, mais ouvindo os meus fantasmas do que aqueles fantoches.

Se bem que, em vez de fantoches, poderiam ser marionetes.

Não separo estas daqueles, não porque padeça o diabo com uma urticária de fundo emocional, ligada ao manejo de arames e condões, é porque destaco o queijo, surpreendente.

E toda surpresa maravilhosa não deve ser desperdiçada. Ou seja, como a azia sempre dá um nó nas minhas tripas, o melhor ambiente para comer não tem nenhum chato no cangote, atazanando.

Mas o mundo não tem tranca de segurança, assim uma banqueta de bar vira cadeirinha de bebê quando o seu ocupante força largar a porção; mais que prejuízo, é insulto.

Com sal e orégano no ponto, a língua queria ficar ocupada com o prazer, só que, aí, apareceu um dos donos da vaidade.

Pintando do nada, veio azarar justamente do meu lado.

E eu lutava com uns pruridos eletivos: se não suava pela paz do mundo, sonhava lambido o prato.

Mesmo desajeitado, o sujeito abriu aquela boca. Escancarou-a.

Bebia, e falava. Bebia, e falava.

Todo borracho, disparou comentar a TV toda.

No que ouvia de lá, rebatia de cá.

Com a grita da vida beirando o caos, o boteco seguia natural; e a minha paciência ia indo pro ralo.

De tanto abacaxi, fui urinar.

Na casinha, pus na conta que iria até o fim.

Reconheço que os fortes cortam pela raiz o desejo exibicionista de quem mostra a dentadura sem olhar a quem.

Finquei a bunda no tamborete. Apelei para a coragem de controlar a saliva. Mostrei-me o satisfeito ꟷ de garganta seca, sorridente.

De fato, tenho pavio curto e fico fulo num pulo se me importunam, impedindo-me de usufruir a coisa boa de ser curtida numa boa.

Pessoa maleável ao destino, não vou praguejar agora porque não vituperei na hora.

Todavia, assumo a cumplicidade, pois aguentei tantas bobagens, disparates em cascata e aquela penca de crimes contra a honra dos ausentes.

Tenho propensão à idiotia, admito. Sob tensão, não canto de galo nem mato os meus vermes interiores com formicida.

Que ideia implicante é esta que não fulmina a mina que não falha?

A pandemia deprime, não suprime a memória.

Então, nem tímido nem cândido, arremato de boca cheia:

ꟷ Com faro pra festa, condenso em mim a nata das ratazanas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de fevereiro de 2021.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Dia da marmita

 

Dia da marmita

 

À espera de outro dia com os aborrecimentos de praxe, louco para dar corda às minhas ilusões bombásticas, que me pegam de surpresa quando acordo pela hora da morte, desliguei meu despertador. Afinal, com a manhã flagrantemente ensolarada, acordei sem tempo de ficar desapontado com a marmota que jura que este verão estarrecedor de minha vidinha ordinária, de brasileiro atrasado nas contas, vai longe.

À espera de que a taxa de juros continue irresistivelmente estável, deixo que virem uma gororoba intragável os boletos passados, os que estão passando e os que hão de passar, porque tomo para mim que devo seguir à risca a dieta festiva de procrastinador contumaz.

À espera da alegria vivaz que me incentive cair na gandaia antes do almoço, vou à farra comprando bugigangas que a minha casa até precisa. Afinal, ando sem tempo para ficar caçando manualmente as muriçocas que vêm se deliciar sugando meu sangue estressado, por isso, sem pestanejar, peço a raquete elétrica hipnotizadora, torcendo para que o treco tenha força de derrubar as visitantes draculinas.

À espera de uma inspiração que me dê uma mãozinha para baixar a fila de leituras interrompidas, pego da pilha em cima da mesa dois livros de uma vez. Porém, sem tempo para entender como é possível que o café tirado na hora permaneça quente mesmo uma hora depois de posto no copo de requeijão com manias de xícara de laca chinesa, quase dou razão ao ócio, que me quer de barrigão para o ar.

À espera de que o mar morto de tédio se abra com algum moisés cheio de graça fazendo a sua mágica antes mesmo que eu acabe de engolir o primeiro pedaço de pãozinho já coberto de patê de sardinha azeitado na maionese meio rançosa, de mês e meio aberta.

Sem tempo para afirmar que aceito a sobra de caráter que me intoxica a mente de cidadão enojado com as políticas sanitárias do mundo livre, jogo paciência no computador enquanto, lá na pia da cozinha, o feijão congelado no pote de sorvete vai ficando comestível.

À espera das varejeiras atraídas pelo meu feijãozinho azedo, pego na ideia negativa de desistir de preparar uma refeição a quem me traz o bife acebolado do meu dia a dia.

Sem tempo para me culpar só de ficar imaginando exausto quem vem me entregar os meus pedidos de comida, corro telefonar. Queria ir mas não vou; queria muito chegar a tempo de oferecer ociosamente o arroz com feijão mais o franguinho frito. Levaria a jato o meu rango, imaginando-o quentinho. Queria que estivesse bom de ser comido na entrega. Mas a realidade toca me beliscar.

À espera da minha quentinha, como quem espera não estragar o que não pode ser estragado, largo o jogo, bebo água, vou-me postar à porta, mas o vento não me antecipa infernal a sua vinda.

Sem tempo para cultivar a flor do juízo, assopro o cartão, esfrego o celular. Genioso, não escapo de pagar a marmita com a espera.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Simples assim

 

Simples assim

 

Era uma noite qualquer, com o calor arretado do verão fazendo do quarto um ambiente asfixiante, incômodo, propício à insônia.

Suando, colado à pele que transpirava. Sem suas horas regulares de sono, estava irritado. Deitado naquela cama, desconfortável com o lençol mais do que úmido, encharcado, pegajoso. Colando o ar que o forrava de escuridão, suava sobre um colchão indiferente.

Imóvel no escuro, não era inerte. Como matéria porosa, orgânica, filtrava a noite pela respiração. Respirava suas dificuldades, opresso; em tamanho desassossego, perturbado pela realidade pesando sobre a sua epiderme. A pele contaminada pelo infortúnio de um verão bem quente, paralisante, modorrento, deprimente.

Como aliviar-se de toda aquela carga?

Ir ao banheiro, lavar o rosto. Molhar a nuca. Puxar cortinas, abrir a janela. Diminuir a transpiração dando livre circulação ao ar. Poderia ligar o ar-condicionado se tivesse um. Deveria ter ventilador de teto sem pensar em conta de luz.

Nem sim nem não? Foi beber água. Bebeu outro copo, e nada.

Não, de modo algum, nada tinha de especial aquela madrugada.

O óbvio dos mistérios impelia a não revelar as maravilhas sórdidas do cotidiano. Pois o cômico e o trágico zombam dos melodramáticos.

Multiuso higienicamente purgante, o sol quara roupa, seca fungo e espanta morcego que vive de frutinhas. Eis o drama: não é dia.

Além da obviedade, objetivamente concreta, da noite brasileira de verão? Era apenas outra noite cálida, própria à estação.

E, de novo, a esperada falta de sono, a mesma perda de apetite, o garfo pálido que mal roçou a salada de alface. Querendo-se sereno, desligou a TV tão logo o jornal acabara, passando de onze e meia. E, para fazer o correto, desligou o celular antes da meia-noite.

Queria, implorava, que os nervos evitassem levá-lo à beira de uma ansiedade generalizada? Mas... Eles eram uns fanfarrões surdos, que não o escutavam suspirante, profundamente suspirante.

Precisava desesperadamente ter vergonha de engolir todo aquele lixo que o mundo enviava sem nenhuma sutileza. Mas qual! Ele tinha a lucidez comprometida pelo fervor dos vorazes.

Era um dever intransferível: tinha de encontrar forças para vomitar os venenos que a vida vinha despejando por aí. De verdade, era hora de tapar a boca.

Talvez por isso a realidade sapateava em seu peito. Pipocando as novidades que lhe ritmavam o fôlego. Magnetizado como consumidor de notícias desconexas, quiçá preocupantes.

Simples, como o insosso não conecta a luz solar com o opaco do suor: a bonança vem depois da tempestade, antes do temporal vem a lufada brumosa.

Ora, se o universo não sabe que é de sua natureza ditar regras, cabe ao cabeçudo desapegar-se das pulgas numa única urinada.

Passivo paspalho parvo?

Não basta ter geladeira, é preciso abarrotá-la de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2021.

 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Amor de glutão

 

Amor de glutão

 

Burguês indiscreto, comprovando o meu veredito, costumo tornar público que teimo testar minhas deficiências. Com o entusiasmo lírico dos apaixonados, caso a caso, vou me apurando pelos resultados do que busco fazer melhor.

Desejo e gosto do que desejo, pelo que me apraz, só que não vivo apenas do bom e do melhor, ainda que me faça bem querer alcançar o que segue distante.

Distante como um belíssimo amanhã, uma alvorada sublime, pois é isso que me convida a tornar possível o que acho provável que seja plausível, pois conto que seja moldável por minhas mãos humanas o que me transcende.

E, com o produto da minha imaginação e do meu engenho, a cada vez em que me experimento capaz de produzir algo desfrutável, seja na carne dos meus pensamentos que dançam a canção da vida, seja na ideia dos meus ossos cantando o chão do mundo, é com isso que vou na estrada, pelo caminho que vou traçando.

Todavia, quem eu quero enganado?

Há êxitos e há fracassos.

Pelo prazer que me toca produzir, agrupo-os como agradáveis e desagradáveis, úteis e inúteis, alegres e tristes, como se minha ânsia de carimbador dominasse a realidade rotulando-a.

Falhando, insisto em experimentar variações. E torno a fracassar, e não paro. E tento, e falho. Minha falha maior talvez esteja nisso, em não desistir, insistindo, resistindo.

Convenientemente, poderia seguir pedindo justiça aos românticos que veem o que muitos não divisam ver. Pelas fissuras, pelas frestas, pelos vãos, poderia seguir dizendo que vivo para trazer à tona o luar que eles intuem estar aí, logo ali, bem aqui. E posso tais quereres.

Diante do nariz, cobiçado pelos olhos, sentido pelos dedos?

A língua aguça o corte, pelo que sangro, fervo, tempero e reparto.

A boca tem a língua, também tem os dentes; por isso abocanho, mordo, trituro e engulo.

Começo pelo café da manhã, e repito à tarde. Dois copos de água para duas colheres de sopa de café, sem um grão de açúcar. Pronto.

Depois: pro copo de arroz, dois de água; e o fio curto de óleo com a pitadinha de sal. Pronto.

A mistura? Carnes e legumes. Embutidos e hortaliças. À vera.

Sempre assim? Mais ou menos. De acordo com o dinheiro que dá pra atender a vontade. E as vontades são muito variadas, e muitas.

Mas, a caminhada menos turbulenta pede a repetição do testado, aprovado e que faz diferença quando ausente.

Fibras animais e vegetais. Cozidos e crus. Gostos e desgostos.

E tem ovo frito, cozido e poché. Afinal, ovo é ovo.

Se me prendo a só isso?

Aprendi a alegrar minhas rotinas com a musse de limão.

Uma vez que o azedinho tira do sério o radar crítico, fazendo-me comer uma e mais outra e ainda mais uma, tigelinhas e tigelinhas de amor tão gostoso, oba, é pela gula que muito amo.

Vez ou outra, me regalo que não faço mal.

Agora, o presente que se faz urgente?

Possam as pessoas amigas deliciar-se com A festa de Babette.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O homem dos pombos

 

O homem dos pombos

 

Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e em tudo quanto é canto, o mundo vive preso a acontecimentos encadeados a eventos que se transformam em fatos quando uma pessoa, até historicamente sem noção do que faz, torna público o testemunho do que viu, ouviu, e, jurando por jurar, afirma não mentir.

Fazendo votos que as pontas soltas não façam cegos os nós, que o registro prossiga.

No entanto, as memórias mais difíceis de serem recuperadas sem um arranhãozinho cosmético que as torne verídicas a toda prova são as inventadas, porque essas são as vividas somente em pensamento, e pensamento custa sair com sabão neutro.

Aqui, e aqui é lugar deveras indefinido, podendo ser uma cama no quarto de um motorista, um assento atrás do motorista num ônibus ou uma privada na garagem dos ônibus. Aí, pasmo como uma folha em branco, o motorista reage à informação de que perdera a folga, pois há muitos colegas isolados por aí, com a covid-19.

E fazendo o quê no banheiro?

Não importa, pois aqui, nesta história em que alguém sem noção não toma parte do relato como testemunha do que não viu ou ouviu, nesta história urbana, há um arranjo de eventos sobre alguém.

No caso, alguém é a mulher dos gatos.

Embora outras localidades prefiram registrar tal personagem como a mulher dos pombos, ou das pombas, optou-se nomeá-la o homem dos pombos por uma única, e muito singular, razão: ela é um senhor de cabeleira grisalha, face enrugada, costas encurvadas e voz, caso fosse ouvida, gravemente roufenha, que sobrevive a uma cidade.

Esta figura, cuja existência não depende em nada da convivência com os cidadãos politizados das residências com água e luz em dia, ela faz que nem liga para toda aquela indiferença; afinal o povo todo tem coisa bem mais importante para cuidar.

O velho, este senhor que está sentado no banco da praça aos pés da igreja mais antiga da cidade, ele provavelmente está aposentado, miseravelmente pobre, e certamente dá jeito de pagar pela cama de solteiro na pensão familiar.

Ou seja, com tantas urgências clamando decisões fundamentais, para que iriam ficar adulando com sentimentalidades um sujeito cuja função nas relações mundanas está mais do que clara?

Fixe-se, portanto, alguns dos seus defeitos.

O primeiro deles, evidentemente, está em compartilhar seu amor à vida dando quirera aos muito humildes habitantes da praça, dando a eles o cuidado da fala mansa, dando-lhes o afeto de sua vinda calma; mesmo ultrajados por suas fezes, embora desprezados pelo barulho, ainda que sejam, e precisamente por serem o que são, pombos.

O homem dos pombos não pede que o respeitem pelo que faz, ele vem depois das dez e volta depois das quatro. Os pombos comem e, tendo acabado de comer, voam. O homem também come chão.

Mas, como conta guiar-se pelo final feliz: enquanto houver quirera, haverá pombos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2021.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Balanço bacaninha

 

Balanço bacaninha

 

Comigo camuflado como cidadão consciente, a ostentar um frasco de álcool gel na pochete docemente aberta à aprovação simpática de outros cidadãos condicionados à consciência comunitária, mesmo em fila indiana; comigo em pé nesta fila infalível do fatídico quinto dia útil que, entra ano e sai ano, mês a mês, dispõe de mim como vassalo do humor variante; comigo a circunstanciar decorativa a máscara, uma vez que os perdigotos seguem inativos atrás da boca retraída; comigo contrariado, que permaneço sequer a um palmo distanciado de minha persona ranzinza, que se reserva o desejo de não me ver vencido por essas contas que insistem em ignorar que até as folhinhas caducam.

Eis que me retrato um ser capaz de retratações precárias, frouxas no rigor, com oscilações orgânicas proporcionais a tamanho e tempo, pois, humano, salivo azedo quando me percebo obrigado a assumir o erro de viver me submetendo às conjunturas, que poderia ter evitado entrar se preservasse pulsante a ideia sensível, que, nas trivialidades do mundo, a realidade em quase nada é lotérica.

Por que me seguirá aborrecível o quinto dia útil de cada mês?

Implicante, não apenas constrangido a observar descumpridas as regras interinas para uma convivência sanitariamente saudável, mas, ainda, porque as datas de vencimento desses meus boletos sabem respeitar os contratos que atrevidamente assinei.

Como a vida vai arrastando quem está no rio da história sem dar conta de que nada a favor da correnteza quando, despercebido de si, não abraça nada com vontade. Quem se deixa afogar vai negando o que nem sabe o que está fazendo, sua trajetória de vida, portanto, vai ficando registrada como fruto do desleixo.

Será sagaz salientar a sacanagem de sacar cansaço do remanso?

Contaminado pelo remorso, improviso sem sarcasmo.

Fera ferida pela facilidade de frustrar felicidades ficando numa fila, curo a minha incúria tentando memorizar o balanço do que deixei de lado por causa da pandemia.

Como prefiro fácil cair no riso, como satisfeito um feijão com arroz temperado com alegrias, as bem vividas e as gostosamente adiadas.

Alegrias adiadas que fazem falta: papear tomando café; atualizar o telefone de gente perdida com a tecnologia.

Alegrias adiadas que acho melhor nem voltar a fazer: comer pastel na feira; sacar dinheiro sem necessidade; esperar ônibus em pontos sem banco nem cobertura.

Alegrias adiadas que viraram melancolia: folhear livros nos sebos; ouvir conversas por aí; aplaudir artistas de rua.

Alegrias adiadas que nem reparei não ter vivido e agora sinto que não fazem falta alguma: comer carpaccio; trocar a noite pelo dia; ir ao dentista.

Alegrias que quero muito deixar logo de viver: ficar trancafiado em casa; acordar cedo; dormir cedo; almoçar e jantar com medo da TV.

Na conta, nada resta zero.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2021.

domingo, 24 de janeiro de 2021

Medo do caramba

 

Medo do caramba

 

Acorda com a sensação de que o estão observando? Tem medo do espelho ao lavar o rosto? Fica bem confuso quando dizem "pagar na mesma moeda", "caindo pelas tabelas", "morrer na praia"?

Ao que parece, muita gente fica pensativa com a borra do café no fundo do copo; gente que tem sofrido muito de modo irracional.

É lógico, pela pujança da perplexidade, desejaria fugir do assunto. Entretanto, mesmo que me faltem explicações para muitos dos meus atos, quero mais é viver. Até porque, exposto aos paradoxos da vida, encasqueto.

Disposto a fazer o bem mas olhando a quem, numa conversa livre e direta, topo pincelar uns comentários banais sobre o medo atávico. Como não arriscarei palpitar sobre nenhum atavismo tétrico, passo-o a especialistas.

Embora pareça normal temer a própria sombra, temo ficar preso a meus pitacos. Assim, sem procurar absolvições baseadas na ciência, começo pelo medo tradicional de palhaços.

Tal pavor pode ser mantido indo ao circo; refreando-se, entretanto, o impulso de querer fazer parte do número da caranga que se desfaz no picadeiro. O público nem nota quem fica na plateia batendo palma; e vaiando, profiro à apatia a careta de quem foge.

Para que transcorra sem drama a volta ao lar, é preciso salientar dores no peito e os formigamentos no braço esquerdo. Aliás, o perigo de desenhar o meu punho cerrado está na problemática destra.

Já o medo de gatos é tratável de forma simples, portanto objetivo, sem lero-lero. Basta beber um gole de água clorada a cada vez que o bichano da casa vier ronronar, esfregando-se nas minhas pernas. Me é importantíssimo levar comigo um cantil, de preferência profissional, feito para manter a oito graus Celsius a panaceia que tanto alegra.

Para não perder o prumo da prosa, quanto à cinofobia irreprimível, não preciso me esconder em cima da mesa.

Ainda que um doberman venha lamber a minha boca, não o deixo apoiar-se nas patas dianteiras. Dou comandos para correr e saltar de banda, e mando uivar à lua.

Invento a lua cheia porque, às vezes prudente, uivo também.

Comparando-se cães e gatos, apenas se recomenda floreios com animais que não façam festa com baba saliente nem com unhadas de traição. O melhor mesmo é precaver-se com "um passinho atrás, por favor", dirigindo-me a bichos cujo instinto seja contagiante.

Por fim, desorientado pela luz apagada, fecho os olhos com vigor.

Há pessoas que, antes de sonhar, entorpecem o medo do escuro com o consumo regular de cachacinha artesanal. Bebericando meus dois dedos do mel que abelha não faz, prego tal uso ajuizado.

A noite sai-me bem menos custosa assim.

Sem medir sequelas, acho bom viver estimulado por medo?

Francamente, ou consigo assobiar mamando cana ou minha cara de pau seguirá sorrindo abestada.

Caraca... De fato, é terapêutico partir pro grito:

Pra cima deles, Botafogo!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2021.